Ilia Malinin: o ‘Deus dos Quádruplos’ que está prestes a ser o grande astro das Olimpíadas de Inverno
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- Author, Emma Smith
- Role, Jornalista da BBC Sport em Milão (Itália)
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Tempo de leitura: 5 min
Depois de levar à loucura o público de Milão-Cortina, na Itália, com seu salto mortal por trás durante a competição de patinação artística por equipes, os olhos de todo o mundo se voltaram para o patinador americano Ilia Malinin, que busca o ouro individual nos Jogos Olímpicos de Inverno.
Na noite desta terça-feira (10/2), ele se classificou em primeiro lugar nas eliminatórias do individual masculino, com uma performance impressionante, que incluiu um salto quádruplo flip e um quádruplo lutz — duas das técnicas mais difíceis do esporte.
Na competição de equipes, apesar dos erros, ele foi o único participante a registrar mais de 200 pontos, garantindo o ouro para os Estados Unidos no domingo (8/2), por um único ponto à frente do Japão.
Já no individual, ele apresentou uma rotina impecavelmente limpa, que também incluiu um salto mortal para trás.
Esse desempenho explica por que o jovem de 21 anos é o maior astro do seu esporte e caminha rumo à fama global em Milão-Cortina 2026.
“Ele é franco favorito nesta Olimpíada”, declarou à BBC Sport o medalhista de ouro olímpico na patinação artística Robin Cousins.
“Depois de observá-lo nos últimos cinco anos, vemos que ele cresceu. O talento sempre esteve ali; neste aspecto, ele é de outro mundo.”
“É confuso? Sim, mas eu assisti ao vivo e entendi”, destaca Cousins.
“Agora, ele cresceu com aquele estilo levemente peculiar. Não é lapidado e não quero que seja assim.”
“Para todas as pessoas que tiveram a sorte de estar em Milão, será um daqueles momentos em que dizemos ‘eu estava lá’.”
Malinin não perde em competições há quase dois anos e meio. Ele chega à sua primeira Olimpíada com o apelido de “Deus dos Quádruplos”, após ser o primeiro patinador a aterrissar corretamente no salto Axel quádruplo.
O salto exige que o patinador se lance, gire quatro vezes e meia no ar e aterrisse perfeitamente por trás.
Malinin ainda não realizou este movimento na competição.
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‘Quero cadenciar meus passos’
Como se não fosse suficiente, ele também completou o primeiro salto mortal por trás considerado legal nos Jogos Olímpicos, desde o campeão americano Terry Kubicka, nos Jogos de Inverno de Innsbruck, na Áustria, em 1976.
Desde então, o movimento foi proibido por razões de segurança. Mas graças, em parte, a patinadores como a francesa Surya Bonaly (que realizou o movimento, então ilegal, nos Jogos de 1998 em Nagano, no Japão), o salto voltou a ser permitido.
Malinin se tornou o primeiro patinador a executar o salto mortal por trás nos Jogos em apenas um dos pés. Com isso, ele já está fazendo história e ganhando medalhas de ouro, sem ter nem mesmo atingido o auge da sua forma.
Ele deveria se apresentar apenas no programa curto da competição por equipes. Mas o Japão ameaça o título olímpico americano conquistado nos Jogos de Pequim, na China, em 2022. Por isso, ele concordou em se apresentar também na patinação livre.
“Foi simplesmente uma honra, minhas colegas de equipe têm essa mesma paixão pela patinação artística”, declarou ele à BBC, após ganhar a medalha de ouro. “E, para muitos de nós, foi apenas o começo.”
“Eu não quis patinar a todo vapor. Quero cadenciar meus passos corretamente, rumo às provas individuais.”
Malinin domina a patinação livre. No programa curto por equipes, o japonês Yuma Kagiyama superou Malinin, como já havia feito na final do Grand Prix, em dezembro.
Naquela ocasião, Malinin ficou em terceiro após o programa curto, mas ainda terminou 30 pontos à frente após a patinação livre. Ele conseguiu esta vantagem com uma combinação mortal de coragem e habilidade.
Seu programa de patinação livre tem avaliação técnica muito mais alta do que qualquer um dos seus adversários. Os juízes concedem pontos extras pela ambição e ele também é recompensado com avaliação mais alta dos componentes.
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Por que ele parece um liquidificador?
Dotado de energia natural, Malinin também cresceu no ambiente de treinamento perfeito.
Ele nasceu no Estado americano da Virgínia, filho de imigrantes do Uzbequistão. Seus pais, Tatiana Malinina e Roman Skorniakov, representaram seu país na patinação artística dos Jogos Olímpicos.
Malinin tem a versão masculina do sobrenome de solteira da sua mãe. Seus pais receavam que a pronúncia do sobrenome do pai, Skorniakov, seria muito difícil para os americanos.
Além disso, seu avô materno, Valery Malinin, é treinador de patinação artística na Rússia.
Todo este ambiente produziu o que talvez seja o ideal físico do patinador artístico masculino. E, quando analisada em termos de números científicos, a habilidade de Malinin se torna realmente fenomenal.
O Axel triplo, por exemplo. Análises dos últimos campeonatos mundiais demonstram que o patinador médio, ao realizar corretamente o movimento, salta a uma distância de 2,77 metros e atinge uma altura de cerca de 60 cm.
Mas o Axel quádruplo de Malinin o desloca a apenas 2,38 metros de distância e a uma altura de 90 cm, similar ao salto vertical parado de um jogador de basquete da NBA americana.
Para realizar o salto Axel, o patinador se move a cerca de 6,7 m/seg. Ele balança os ombros para iniciar o giro, recolhendo os braços e as pernas para manter a angulação.
Para realizar corretamente quatro giros e meio, Malinin precisa girar a cerca de 350 revoluções por minuto, uma velocidade similar à de um liquidificador comum.
Depois, ele precisa aterrissar, enfrentando a enorme força que passa por uma das pernas e mantendo a forma perfeita com a outra, além do restante do corpo.
A maioria dos esportes amortece o choque da aterrissagem com superfícies ou calçados macios. Malinin aterrissa com uma lâmina de metal sobre o gelo, enquanto interrompe a força de rotação. E sem ficar tonto.
É por isso que ele é chamado de “Deus dos Quádruplos”. E é por isso que estes podem ser os Jogos de Malinin.