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22 livros para quem não vota na esquerda

Como bom editor de livros e assumidamente conservador, em contraposição à onda de editoras, livrarias e profissionais do livro que abertamente abandonaram suas fantasias de neutralidade para apoiar Lula no segundo turno, quero indicar aqui 22 livros para aqueles que não votam na esquerda. Mas farei isso sem recorrer a livros de não ficção abertamente anticomunistas, isto é, tratados filosóficos,

Como bom editor de livros e assumidamente conservador, em contraposição à onda de editoras, livrarias e profissionais do livro que abertamente abandonaram suas fantasias de neutralidade para apoiar Lula no segundo turno, quero indicar aqui 22 livros para aqueles que não votam na esquerda. Mas farei isso sem recorrer a livros de não ficção abertamente anticomunistas, isto é, tratados filosóficos, econômicos ou históricos contra a ideologia vermelha. Para sair da mesmice, trago indicações de obras de ficção que expõem os perigos do comunismo e do progressismo contemporâneo por meio de narrativas profundas e críticas sofisticadas. O objetivo é fugir do óbvio, abrindo espaço para títulos menos conhecidos — sem deixar de lado pilares essenciais como 1984 e Nós. Uma curadoria pensada tanto para quem está chegando agora quanto para quem busca aprofundamento.

A maneira mais eficaz que a humanidade já produziu para criticar, defender, explorar ou somente descrever a realidade e suas belezas e problemas foi a literatura; isto é, uma boa ficção com certeza é uma das maneiras mais profundas de tirar as máscaras de ditaduras e ditadores.

Sem mais delongas.

1. O fim dos sussurros — Ruta Sepetys

O romance histórico de Ruta Sepetys se passa na Romênia de 1989, sob o opressivo regime ditatorial de Nicolae Ceaușescu. A trama acompanha Cristian Florescu, um jovem de 17 anos chantageado pela polícia secreta para se tornar um informante. Dividido entre trair quem ama e resistir, ele decide usar sua posição para tentar enfraquecer o governo por dentro. Com o colapso do comunismo, Cristian se junta à Revolução Romena em uma emocionante luta por liberdade e verdade.

2. Eu sou — Mykola Khvylovy

Entre o dever revolucionário e a voz da própria consciência, um revolucionário fanático vê-se encurralado na liderança de um tribunal militar enquanto a revolução devora a sua própria humanidade. Uma obra-prima do modernismo ucraniano, movimento que foi pisoteado pelo próprio Stálin. Trata-se de um texto curtíssimo que mergulha na angústia como poucos fizeram e disseca o fanatismo e a tragédia moral de um homem dividido entre a utopia e a família como eu, pessoalmente, jamais havia lido. Um conto denso, sombrio e arrebatador que desafia os limites do compromisso ideológico.

3. Os excluídos — Yiyun Li

Na China do final dos anos 1970, a execução pública de uma jovem dissidente política gera uma onda de choque que entrelaça as vidas de diversos moradores de uma cidade provincial. Com um olhar visceral e profundamente humano, o romance revela como o medo, a denúncia e a esperança de mudança moldam os destinos de opressores e oprimidos em uma sociedade ideologicamente paranoica. Uma narrativa emocionante e devastadora sobre o custo da liberdade, o peso do totalitarismo e os limites da compaixão em tempos de opressão. Um dos romances mais devastadores sobre o custo real do comunismo; incrivelmente, também uma das obras mais negligenciadas sobre o tema.

4. Os demônios — Fiódor Dostoiévski

Em uma pacata província russa corrompida por ideias niilistas e revolucionárias, um jovem manipulador articula uma rede secreta de subversão que culmina em tragédia e loucura. Misturando sátira política feroz e um profundo suspense psicológico, Dostoiévski desvenda com genialidade os perigos do fanatismo ideológico e o vazio moral da modernidade. Prevê, de maneira absurdamente acertada, como o niilismo leva ao socialismo e o socialismo, ao niilismo. Uma obra-prima avassaladora e tragicamente atual sobre como as utopias radicais podem destruir a alma humana.

5. A família Mandible: 2029–2047 — Lionel Shriver

Quando um colapso financeiro histórico devasta a economia dos Estados Unidos e transforma o dólar em papel sem valor algum, uma família abastada vê sua fortuna evaporar e precisa lutar pela sobrevivência em uma sociedade em ruínas. Com uma acidez brilhante e um realismo aterrador, a autora constrói um suspense dinâmico sobre a fragilidade das instituições e os limites da lealdade familiar diante do caos. Uma distopia provocante e assustadoramente plausível que prende o leitor do início ao fim. Shriver é de longe uma das romancistas mais corajosas da modernidade, alguém que publicamente recusou a confraria dos “consolados e justificados pela ideologia progressista”.

6. 1984 — George Orwell

Em um regime totalitário sufocante em que até os pensamentos são vigiados e a verdade é reescrita diariamente, um homem decide cometer o ato supremo de rebeldia: amar e pensar por conta própria. Com um ritmo tenso e uma atmosfera angustiante, esse clássico absoluto escancara os perigos da manipulação da informação e do controle do Estado. Um suspense político eletrizante e atemporal que se torna cada vez mais urgente a cada geração. Clássico primordial, o ouro do gênero distópico.

7. O amor de olhos fechados — Michel Henry

Em uma cidade fictícia em decadência, um jovem estudante vive o amadurecimento e a paixão em meio a transformações profundas que ameaçam soterrar as tradições e o calor humano. Com uma prosa envolvente e uma profundidade psicológica única, o renomado filósofo e romancista constrói uma narrativa sensível sobre a busca do afeto e a resistência do espírito diante do mundo moderno. Um romance tocante e instigante que revela a beleza oculta na essência dos sentimentos; talvez a crítica mais sofisticada e profunda já feita em âmbito filosófico à modernidade progressista.

8. Cântico — Ayn Rand

Em um futuro distópico sombrio em que a palavra “eu” foi banida e a individualidade é considerada o pior dos crimes, um jovem cientista ousa redescobrir a eletricidade, o pensamento livre e o amor próprio. Com uma prosa enxuta, poética e vibrante, esse clássico compacto e visionário exalta o triunfo da liberdade individual sobre o coletivismo cego. Uma leitura curta, arrebatadora e profundamente inspiradora que desafia o leitor do início ao fim.

9. Lasca — Vladímir Zazúbrin

Escrito em 1923 e censurado durante décadas na União Soviética, o romance retrata a rotina brutal de um comandante da Tcheka encarregado de gerenciar fuzilamentos em massa durante o Terror Vermelho. Ao acompanhar a frieza burocrática das execuções e a gradual desintegração mental de seu protagonista, Zazúbrin constrói um retrato aterrorizante e pioneiro sobre a banalização da violência e a desumanização promovida pela maquinaria estatal. Uma obra visceral, perturbadora e historicamente avassaladora; de longe um dos textos mais impactantes que li sobre a União Soviética.

10. Vida e destino — Vassíli Grossman

No cenário épico e brutal da Batalha de Stalingrado, os destinos de dezenas de personagens se cruzam sob as sombras do nazismo e do stalinismo em uma luta desesperada pela sobrevivência. Frequentemente comparado a Guerra e paz, esse romance monumental combina um realismo arrebatador com um olhar profundamente sensível sobre a liberdade, a compaixão e o valor do indivíduo perante o totalitarismo. Uma narrativa magistral, intensa e inesquecível que figura entre os maiores clássicos do século XX; texto que, ao lado de Guerra e paz e Os demônios, deveria ser clássico indispensável a todos que amam literatura de verdade.

11. O herói discreto — Mario Vargas Llosa

Dois homens simples do Peru decidem enfrentar a extorsão e a chantagem familiar, defendendo com unhas e dentes a própria dignidade perante a corrupção e os dilemas morais. Com o humor refinado e a maestria narrativa do prêmio Nobel, o romance entrelaça destinos em uma trama vibrante repleta de segredos, reviravoltas e personagens inesquecíveis. Uma leitura instigante e calorosa sobre a coragem anônima e o valor de se manter fiel aos próprios princípios. Um dos textos mais negligenciados de Llosa, mas, paradoxalmente, um dos mais cortantes que ele escreveu.

12. As rãs — Mo Yan

Ao longo de décadas na China rural, uma parteira dedicada enfrenta o choque brutal entre o amor à vida e a implacável política do filho único imposta pelo Estado. Com o estilo único do realismo mágico e uma escrita avassaladora, o vencedor do prêmio Nobel constrói uma narrativa vibrante sobre culpa, redenção e as cicatrizes profundas da história. Um romance provocante, humano e profundo que confronta os limites entre o dever e a moralidade. Trata-se de um dos meus preferidos. Mo Yan é um crítico voraz, arrebatador, mas, ao mesmo tempo, poético, o que torna sua crítica ainda mais profunda e inesquecível.

13. Tchevengur — Andrei Platônov

Em uma cidade rústica isolada nas estepes russas, um grupo de visionários marginalizados tenta erguer um paraíso comunista ingênuo, abolindo o trabalho e vivendo apenas do sol e da fraternidade. Combinando lirismo poético, humor melancólico e uma profunda sátira quixotesca, essa obra-prima banida na era stalinista expõe a trágica beleza e o delírio do sonho utópico. Um épico monumental e tocante sobre a busca humana por redenção e pertencimento em um mundo devastado. Para mim, é uma obra que deixa muitos tesouros aclamados de Dostoiévski e Tolstói para trás.

14. Nós — Ievguêni Zamiatin

Em um futuro ultramecanizado em que os cidadãos vivem em redomas de vidro sob números em vez de nomes, o construtor da nave Integral começa a questionar a lógica perfeita do Estado Único ao se apaixonar por uma mulher imprevisível. Com uma ironia cortante e uma inventividade genial, esse clássico pioneiro antecipou todas as grandes distopias do século XX ao expor os perigos do totalitarismo tecnológico. Uma obra-prima visionária, eletrizante e imperdível. Outro bom texto para a juventude.

15. Kalocaína — Karin Boye

Em um Estado totalitário sufocante em que a vida privada foi abolida e a lealdade dos cidadãos é controlada por uma droga da verdade implacável, um cientista cria um soro ainda mais poderoso capaz de extrair os pensamentos mais profundos do inconsciente. Com uma atmosfera claustrofóbica e uma acidez psicológica impressionante, a autora sueca antecipou as grandes distopias clássicas ao expor a vulnerabilidade da alma humana diante do controle absoluto. Um clássico visionário, perturbador e imperdível. Um livro que, não poucas vezes, pode dar a sensação real de abafamento e taquicardia moral.

16. Desonra — J. M. Coetzee

Na África do Sul pós-apartheid, um professor universitário em decadência vê sua vida desmoronar após um escândalo com uma aluna, forçando-o a buscar refúgio na fazenda isolada de sua filha, onde um ataque brutal redefine a realidade de ambos. Com uma prosa cortante e uma densidade psicológica impressionante, o vencedor do Nobel de Literatura constrói uma reflexão avassaladora sobre culpa, violência, poder e a perda da dignidade. Um romance visceral, inquietante e inesquecível. Outro clássico moderno que versa sobre como o moralismo progressista é a hipocrisia encarnada.

17. Deus e o Diabo nas bandas do Recôncavo — Daniel Emer

No pulsar vibrante do Recôncavo Baiano, uma galeria de tipos pitorescos — de prefeitos demagogos e bacharéis de eruditismo fácil a espiões russos e poetas delirantes — entrecruza-se em uma trama rica em sátira e memória. Resgatando a melhor tradição picaresca, a narrativa explora os choques entre fé, poder, superstição e os perigos das grandes ilusões políticas no cotidiano provincial. Um romance nacional de estreia vivaz, afiado e espirituoso que disseca as contradições da alma humana com humor e sofisticação. Um texto que — como poucas vezes vi — traz para o quintal todo o lamaçal hipócrita da política brasileira moderna.

18. Submissão — Michel Houellebecq

Às vésperas de uma eleição presidencial na França, um professor universitário desencantado testemunha a ascensão de um partido islâmico moderado que transforma radicalmente as estruturas do país e da vida cotidiana. Com uma acidez brilhante e uma visão social desconcertante, Houellebecq constrói uma sátira política envolvente sobre a busca por sentido, o acomodamento do indivíduo e a decadência do Ocidente. Um romance instigante, provocante e impossível de ignorar; talvez o mais profético e pessimista desta lista.

19. Um dia na vida de Ivan Deníssovitch — Aleksandr Soljenítsin

Desde o toque da alvorada até o fechar dos olhos no alojamento, acompanhamos 24 horas de luta diária de um prisioneiro para preservar a vida e a dignidade no rigoroso inverno do gulag. Com uma prosa enxuta, precisa e profundamente humana, esse clássico revela como o espírito humano encontra pequenas vitórias e resiliência mesmo sob o domínio do horror. Uma leitura rápida, avassaladora e inesquecível que mudou a história da literatura universal; clássico esquecido no Brasil, mas que deveria ser obrigatório desde o ensino médio.

20. Mania — Lionel Shriver

Em uma realidade alternativa perturbadora em que a própria noção de inteligência se torna um tabu e chamar alguém de estúpido passa a ser um crime punível, uma professora tenta proteger sua razão em uma sociedade dominada pelo culto à ignorância. Com o humor ácido e a coragem intelectual marcantes de Shriver, o romance satiriza os excessos do politicamente correto. Uma distopia social provocante, afiada e terrivelmente atual do início ao fim.

21. O zero e o infinito — Arthur Koestler

Encarcerado em uma cela escura e submetido a intensos interrogatórios psicológicos, um velho revolucionário comunista reflete sobre sua trajetória de lealdade cega ao Partido e as atrocidades que cometeu em nome da ideologia. Com uma contundência filosófica impressionante, o romance examina a mecânica do totalitarismo e a dissolução da consciência individual perante a máquina do Estado. Uma obra-prima densa, perturbadora e essencial sobre a tragédia das revoluções modernas.

22. O palácio dos sonhos — Ismail Kadaré

No coração do Império Otomano, uma instituição secreta e todo-poderosa coleta, seleciona e interpreta os sonhos de cada cidadão para prever rebeliões e moldar o destino do Estado. Ao ser contratado para essa burocracia opressiva, um jovem de família influente descobre os perigos e a paranoia de um sistema de controle absoluto. Uma parábola brilhante, atmosférica e inquietante sobre o totalitarismo, o poder da mente e a dominação política.

Leia também: "Por que só agora?", reportagem publicada na Edição 345 da Revista Oeste

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