A França e seus demônios
O público mais atento precisou de alguns dias para entender o que aconteceu na França nesta última semana. A sucessão de cenas tão incompatíveis com um protesto estudantil tornou quase impossível a interpretação dos acontecimentos. Turbas mascaradas depredaram símbolos nacionais, arrombaram e saquearam estabelecimentos comerciais (de grifes internacionais e de pequenos negócios, como mercados
O público mais atento precisou de alguns dias para entender o que aconteceu na França nesta última semana. A sucessão de cenas tão incompatíveis com um protesto estudantil tornou quase impossível a interpretação dos acontecimentos.
Turbas mascaradas depredaram símbolos nacionais, arrombaram e saquearam estabelecimentos comerciais (de grifes internacionais e de pequenos negócios, como mercados e cabeleireiros); destruíram calçadas, fontes, pontos de ônibus e carros. A antiga Prefeitura de Limoges, um prédio histórico que sobreviveu às duas guerras mundiais, ardeu por horas.
Os “estudantes em manifestação em prol de melhores condições nas escolas”, noticiados pela grande mídia, empunharam bandeiras da Argélia, outras com símbolos comunistas, algumas poucas francesas e muitas palestinas. Neste momento, estão sendo apagadas pichações com o slogan Free Palestine de vários monumentos em cidades como Paris, Marselha e Lyon.
Com a guerra entre a Ucrânia e a Rússia acontecendo logo ali, na vizinhança, e impondo um alto preço aos franceses, decepciona, mas não surpreende, o fato de não termos visto bandeiras levantadas sobre esse tema.
Protesto escolar ou demonstração islamista?
A dificuldade de compreender os acontecimentos foi resultado não apenas da diversidade de cenas de violência, mas também da maneira como os eventos foram apresentados pela grande imprensa. Em muitos veículos, havia uma desconexão absoluta entre o que as imagens mostravam e o que os textos descreviam.
Já a mídia israelense conectou imediatamente o movimento islamista na Europa à violência vista nestes dias. A presença ostensiva de jovens imigrantes e descendentes de imigrantes de países de maioria muçulmana, além da eterna bandeira da Palestina flutuando em muitos dos focos de distúrbio, conduzia naturalmente a essa análise. Enquanto isso, veículos internacionais mantiveram o foco em temas como a “Lenta agonia da presidência de Macron”, título da Reuters, e “O governo francês em crise depois dos protestos”, do Financial Times. O Le Monde perguntou: “Macron perdeu a capacidade de controlar a crise?”
A ideologia oportunista
Por fim, ambas as coberturas estavam corretas, mas incompletas. O que se viu na França foi a convergência de movimentos políticos distintos. Mais uma vez, a ideologia islamista encontrou nas insatisfações locais e no abraço da extrema esquerda uma oportunidade para promover sua própria agenda.
Sob essa luz, fica mais fácil reconstituir a trajetória das manifestações: de fato, elas foram iniciadas há cerca de um mês em escolas francesas, para mais tarde incorporarem outros grupos. Em seu artigo na revista Newsweek, a jornalista Anna Rahmanan perguntou: “O que exatamente Gaza tem a ver com o preço da gasolina em Paris? Ou com o lamentável estado das escolas francesas?”
A resposta é óbvia: nada. A mesma pergunta pode ser feita à esquerda "progressista" global que encampou o antissionismo como bandeira, criando, para tanto, uma narrativa que apresenta o grupo terrorista Hamas como um movimento libertador e Israel como um Estado branco e colonizador. “A bandeira palestina tornou-se o ‘pretinho básico’ da cultura de protesto contemporânea. Qualquer que seja a reivindicação, qualquer que seja a estação, ela aparentemente combina com tudo”, escreveu Anna Rahmanan.
A desorientação transparecia no comportamento dos milhares de jovens manifestantes furiosos, dos quais cerca de 2,7 mil foram presos e mais de 200 já começaram a cumprir pena. Os mais violentos cobriram o rosto com máscaras e a cabeça com capuzes. Muitos usavam keffiyehs e empunhavam bandeiras palestinas, embora as reivindicações originais dos protestos não tivessem nada a ver com o Oriente Médio. Assistiu-se, ao vivo e em cores, à clara instrumentalização política desses jovens.
França: a próxima da fila
Muitos analistas se esforçaram para minimizar esse evento, comparando-o a outras manifestações ocorridas ao longo da história moderna da França. Os israelenses, porém, identificam algo completamente diferente. O embaixador de Israel na Itália, Dror Eydar, já havia apontado essa interpretação em artigo publicado no jornal israelense Israel Hayom, logo no início das manifestações.
“Escolas foram destruídas ou danificadas, lojas foram saqueadas, ônibus foram incendiados, professores e policiais foram feridos. O que está acontecendo na França não é um protesto como o da revolta estudantil de 1968. É a globalização da intifada. As centenas de movimentos no mundo lutando em nome dos palestinos não estão procurando justiça, mas a destruição do Ocidente — e a França é a próxima na fila”, escreveu Eydar, no dia 5 de outubro.
Diante dessa realidade, o presidente francês, Emmanuel Macron, mostrou-se paralisado, enquanto Marine Le Pen, candidata à sua sucessão nas eleições de 2027, viu suas intenções de voto crescerem após os episódios de violência. Segundo pesquisa do instituto Ifop divulgada em 20 de outubro, Le Pen alcançou entre 34% e 38% das intenções de voto no primeiro turno, ampliando sua vantagem sobre os adversários. Um exemplo claro de como a extrema esquerda pode acabar impulsionando a ascensão eleitoral da "extrema direita".
Por fim, como a História e a política são pródigas em ironias, vale lembrar que o mesmo governo que esses manifestantes buscaram desmoralizar nesta semana é justamente aquele que reconheceu o Estado da Palestina no ano passado.
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