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A Igreja que Leão XIV encontrou na França 

Antes de voltar à Igreja, a jovem Melissa Bruchmann passou cerca de um ano rezando sozinha em seu quarto. Ela crescera na Alsácia, no leste da França, no que descreve como uma família católica “de tradição”: fez a primeira comunhão e ia à missa apenas no Natal e no Domingo de Ramos. No restante do ano, porém, a religião praticamente desaparecia da rotina familiar. Não frequentavam a igreja e não

Antes de voltar à Igreja, a jovem Melissa Bruchmann passou cerca de um ano rezando sozinha em seu quarto. Ela crescera na Alsácia, no leste da França, no que descreve como uma família católica “de tradição”: fez a primeira comunhão e ia à missa apenas no Natal e no Domingo de Ramos. No restante do ano, porém, a religião praticamente desaparecia da rotina familiar. Não frequentavam a igreja e não conversavam sobre fé.

Na adolescência, Melissa atravessava um período difícil. Sentia-se muito sozinha e perdida, conta a Oeste. Foi nessa época, aos 18 anos, que começou a se interessar pelo catolicismo. Por conta própria, passou a assistir na internet a vídeos de padres e a ler trechos da Bíblia. Até que decidiu procurar o sacerdote da paróquia de seu vilarejo para receber a crisma. Ele lhe disse para ir à missa. Ela foi.

Hoje, aos 23 anos e morando na região de Estrasburgo, Melissa frequenta a igreja todos os domingos e se casou recentemente com um católico. A família não tentou impedir sua aproximação da Igreja, mas tampouco entendeu facilmente a mudança. Vieram comentários, provocações e piadas de mau gosto sobre padres.

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A experiência de Melissa está longe de ser isolada. Na Páscoa deste ano, 13,2 mil adultos receberam o batismo na França, segundo a Conferência dos Bispos do país. Eram 4,1 mil em 2016; em dez anos, portanto, o número mais que triplicou. Os jovens de 18 a 25 anos são hoje a maior faixa entre os novos batizados adultos: representam 42% do total. A Igreja francesa ainda contabilizou mais de 8,1 mil adolescentes que se preparavam para o batismo neste ano.

O crescimento chamou atenção de Leão XIV durante sua recente viagem à França. Em 26 de setembro, o Papa encontrou jovens e adultos em preparação para o batismo, além de recém-batizados, e disse estar surpreendido “com o número de pessoas que retomam o caminho da fé e com a quantidade de adultos que solicitam os sacramentos da iniciação cristã”.

O crescimento acontece numa França muito diferente daquela em que ser católico era quase uma consequência do ambiente em que se nascia. Em 2020, 51% dos franceses de 18 a 59 anos disseram não ter religião. Os católicos eram 29%. Mesmo entre aqueles criados em famílias católicas, quase um terço já se declarava sem religião. Apenas 8% dos que se identificavam como católicos frequentavam missas regularmente.

Papa Leão XVI na catedral de Notre-Dame, em Paris | Foto: Divulgação/ Vatican News

Uma geração sem herança religiosa

O padre brasileiro Wellington Santos Pires observa a mudança de perto. Vive na França desde 2016 e atua em Champigny-sur-Marne, na região de Paris. Neste ano, batizou sete adultos e cinco adolescentes. “A geração Z, aqui na França, é marcada pela não-transmissão”, afirma. “Não existe mais a transmissão da fé dos pais aos filhos.”

Assim, as pessoas chegam à igreja por caminhos diferentes. Entre adolescentes, Wellington percebe com frequência a influência dos colegas. A exposição pública da fé por alguém da mesma idade pode despertar curiosidade justamente porque declarar-se religioso não é tão natural na França, “diferente do Brasil, onde Deus está na pele das pessoas”. O padre relata que jovens católicos podem temer o ridículo por acreditar; quando encontram alguém disposto a assumir a própria fé, “isso interpela”.

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O padre destaca que as redes sociais também exercem influência. Em Mulhouse, também na Alsácia, a brasileira Maria Luiza Schneider recentemente viu uma jovem chegar dessa forma ao grupo católico que frequenta. Quando apareceu, explicou simplesmente: “Vim pelo Instagram”.

Com isso, a paróquia passou a investir na comunicação. Reformulou o site, criou perfis nas redes sociais e instalou dentro da igreja espaços com informações para visitantes. Logo na entrada, um deles explica o batismo e orienta quem deseja saber como recebê-lo.

Afinal, é cada vez maior o número de franceses que chega à idade adulta sem ter recebido o batismo. Em artigo publicado em janeiro, o historiador Guillaume Cuchet, professor de História Contemporânea da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, observa que a França registrava cerca de 400 mil batismos católicos por ano em 2000, considerando todas as idades. Em 2023, eram menos de 200 mil.

No mesmo período, os batismos de pessoas com mais de 7 anos passaram de aproximadamente 20 mil para 24 mil. Ou seja: milhares chegam mais tarde à Igreja, mas esse movimento ainda está longe de substituir as centenas de milhares que deixaram de chegar a ela na infância.

Cuchet inclui o desejo de criar raízes e as questões de identidade entre as hipóteses levantadas para compreender a atual procura pela Igreja, mas ressalva que ainda é cedo para separar fatores passageiros de uma transformação duradoura. O historiador recorda que o catolicismo francês já viveu outros momentos interpretados como possíveis recomeços, como a mobilização em torno de João Paulo II, das novas comunidades e da Jornada Mundial da Juventude de Paris, em 1997, que não conseguiram inverter a queda de longo prazo.

Há ainda um problema que as estatísticas de batismo não respondem: quantos desses novos católicos continuarão praticando a religião daqui a cinco, dez ou vinte anos. Cuchet afirma que faltam estudos precisos sobre a permanência dos recém-batizados e observa que o crescimento ainda não aparece com a mesma força em outros indicadores, como a prática dominical, a catequese ou as ordenações sacerdotais.

Wellington também recomenda prudência. “Antes de cantar de modo triunfal que finalmente a França voltou a se tornar um país católico, é preciso dar tempo ao tempo e perceber que tipo de experiência está existindo”, diz. Por enquanto, o padre prefere observar cada caso. Na paróquia, acompanha de perto os jovens que procuram a Igreja e percebe uma diferença em relação ao catolicismo que conheceu ao chegar à França, em 2016. Agora, a decisão de seguir a religião parte cada vez mais dos próprios jovens. “Eu escolho, eu decido ser católico.”

Leia também: “Fé sem fronteiras”, artigo de Ana Paula Henkel publicado na Edição 239 da Revista Oeste

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