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A imortal da fake news

Na quinta-feira 8, em vídeo publicado no Instagram, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, ocupante da cadeira 9 da Academia Brasileira de Letras (ABL), fez ao povo um alerta de utilidade pública: “Gente, corre lá para fazer bastante Pix, porque daqui a pouco acabou”. E completou, para que ninguém perdesse o sentido profético da coisa: “Isso, se o Flávio ganhar”. Ver esse post no

Na quinta-feira 8, em vídeo publicado no Instagram, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, ocupante da cadeira 9 da Academia Brasileira de Letras (ABL), fez ao povo um alerta de utilidade pública: “Gente, corre lá para fazer bastante Pix, porque daqui a pouco acabou”. E completou, para que ninguém perdesse o sentido profético da coisa: “Isso, se o Flávio ganhar”.


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Um post compartilhado por Lilia Moritz Schwarcz (@liliaschwarcz)


A frase merece ser lida devagar, como quem examina um documento de época. O Pix, obviamente, não pertence a presidente algum, nem pode ser abolido pelo capricho de quem ocupe o Planalto. É infraestrutura operada pelo Banco Central, instituição que goza de autonomia legal desde 2021. Mais ainda, foi lançado em novembro de 2020, sob o governo de Jair Bolsonaro, pai do candidato a quem agora se atribui o plano de destruí-lo. A campanha de Flávio, aliás, declarou defender a gratuidade do sistema e rejeitar qualquer taxa sobre as transações. Quem andou namorando o Pix com olhos de fiscal foi o governo atual, que em janeiro de 2025 precisou revogar às pressas uma norma da Receita diante da revolta popular.

Não há, portanto, informação alguma na fala da acadêmica. Há a estratégia do medo, servido como mercadoria eleitoral. No vocabulário tão caro aos seus pares, isso tem nome: fake news.

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Seria injusto, contudo, tratar o episódio como deslize. A professora, notória intelectual orgânica do PT, já deu provas de que, entre ela e a realidade, costuma interpor-se um filtro bastante eficiente. Em agosto de 2020, Lilia Schwarcz publicou na Folha de S.Paulo uma crítica a Black is King, um álbum visual da cantora Beyoncé. Era um texto de opinião sobre uma obra de arte, gênero que, até onde se sabia, admite discordância. O artigo apontava que o filme retratava uma África idealizada, e o jornal o titulou com a acusação de que a cantora erraria ao “glamourizar a negritude”. Foi o que bastou para a autora ser chamada de racista nas redes e repreendida por militantes, que a acusaram de, sendo branca, pretender ensinar a uma mulher negra como se faz a luta antirracista. Em resumo: Lilia não tinha “lugar de fala”.

Lilia Schwarcz sem "lugar de fala"

A resposta veio no X, em forma de ato de contrição: “Errei e peço desculpas aos feminismos negros e aos movimentos negros”. E, logo adiante, a autocastrada comentarista disse a frase que resume tudo: “Assumo minha responsabilidade pelo artigo e não pretendo vencer qualquer discussão”. Diante do tribunal identitário, a imoral caiu de joelhos no chão e aceitou a sua impossibilidade de falar sobre o assunto. Sim, ela não tinha mesmo “lugar de fala”, concluiu a penitente.

Que o leitor compreenda bem: o que se confessava ali não era um erro de análise. Nenhum argumento sobre o filme foi refutado, e a própria autora renunciou a discuti-los. Confessava-se uma impropriedade de lugar. A crítica não estava errada. Estava fora do mapa, pois saíra da pena de quem não tinha a cor autorizada para escrevê-la.

Em La Fausse Conscience (1962), o filósofo francês Joseph Gabel ofereceu a chave para compreender esse tipo de mentalidade. Para Gabel, que bebeu em Lukács e na psiquiatria fenomenológica de Eugène Minkowski, a falsa consciência não se confundia com a ignorância. O ignorante erra e, confrontado com os fatos, corrige-se. A falsa consciência faz o contrário. Organiza a experiência de tal modo que os fatos já não podem contradizê-la, porque são sempre reinterpretados para caber no esquema. O pensamento deixa de ser instrumento de apreensão do real e converte-se em mecanismo de defesa contra ele.

O núcleo dessa operação é o que ele chamou de reificação. Pessoas concretas, com biografias e obras, são substituídas por categorias rígidas e imóveis. Beyoncé deixa de ser uma artista que fez um filme discutível e passa a ser a encarnação de uma essência racial, imune à crítica. Lilia deixa de ser uma estudiosa com uma opinião e passa a ser “a branca”, culpada por definição. Gabel falava, a propósito, de uma espacialização do tempo: a história perde o movimento e vira um mapa em que cada um tem seu lugar marcado de antemão. Ao pedir desculpas, Schwarcz não apenas aceitou o mapa. Assinou embaixo, e com o próprio nome.

A fake news sobre o Pix

O vídeo sobre o Pix obedece à mesma geometria. Nele, Flávio Bolsonaro ocupa o quadrante reservado ao inimigo, e ao inimigo tudo se pode atribuir. Que o Pix tenha nascido sob o governo do pai dele, que o Banco Central seja autônomo, que a campanha tenha se comprometido com a gratuidade do sistema, nada disso importa. Os fatos não refutam o esquema. É o esquema que dispensa os fatos.

Há nisso uma ironia que Gabel, marxista heterodoxo, talvez apreciasse. A teoria que nasceu para desmascarar a ideologia burguesa descreve com precisão clínica a intelectual orgânica do lulismo, aquela que relê a história do Brasil pela lente do racialismo identitário e confunde há anos a cátedra com o palanque.

Resta a Academia. A ABL nasceu para zelar pela língua e pela literatura nacionais, sob o lema Ad immortalitatem. Não para emprestar o brilho do fardão a boatos de grupo de WhatsApp com verniz universitário, nem para abrigar quem pede licença à militância antes de pensar.

Platão expulsou os poetas da cidade porque mentiam sobre os deuses. Seria pedir demais que a Casa de Machado de Assis ao menos se constrangesse com quem mente sobre o Banco Central por razões de desespero eleitoral.

Imortal, afinal, deveria ser a obra. Não a mentira.

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