A Polícia Federal que virou escudo de Lulinha
Não é preciso recorrer a nenhuma teoria mirabolante para explicar por que a Polícia Federal (PF) tentou, nesta semana, tirar do caminho o ministro André Mendonça no caso Lulinha. Basta o currículo do homem que hoje comanda a corporação. Andrei Rodrigues não chegou à direção-geral da PF por acaso nem, propriamente, por mérito técnico: chegou porque coordenou a segurança pessoal de Lula na campanh
Não é preciso recorrer a nenhuma teoria mirabolante para explicar por que a Polícia Federal (PF) tentou, nesta semana, tirar do caminho o ministro André Mendonça no caso Lulinha. Basta o currículo do homem que hoje comanda a corporação. Andrei Rodrigues não chegou à direção-geral da PF por acaso nem, propriamente, por mérito técnico: chegou porque coordenou a segurança pessoal de Lula na campanha de 2022, porque antes disso já havia chefiado a segurança de Dilma Rousseff em 2010, e porque construiu, nesse trajeto, o que uma imprensa amante de eufemismos mais descreveu singelamente como “boa relação com o núcleo petista”.
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Nomeado no primeiro dia do terceiro mandato pelo então Ministro da Justiça (e sempre comunista) Flávio Dino, Rodrigues foi acumulando um hábito revelador: em três anos, esteve em 19 das 47 viagens internacionais de Lula, 81 dias fora do país ao lado do chefe — mais tempo de convivência com o presidente do que a maioria dos ministros da Esplanada. Obviamente, um partido gramsciano não aponta alguém com esse grau de intimidade partidária para comandar, de maneira neutra e republicana, uma polícia de Estado, mas uma polícia política, no sentido mais schmittiano do termo, com a função de perseguir os inimigos e proteger os amigos.
A manobra concreta foi a seguinte: ao pedir a abertura da investigação, a corporação argumentou que o caso — suspeita de tráfico de influência e corrupção envolvendo o lobista conhecido como “Careca do INSS” — seria distinto da Operação Sem Desconto, e por isso não deveria seguir por prevenção ao relator natural das fraudes do INSS. A Procuradoria-Geral da República (PGR), sob Paulo Gonet, endossou a tese. Ocorre que, dessa vez, os amigos dos amigos perderam a queda de braço. Alexandre de Moraes mandou para sorteio, mas, para o azar da PF companheira, quis o destino que o processo caísse justamente com Mendonça, que abriu o inquérito.
A tentativa de blindagem ficou escancarada. Uma corporação dirigida por um petista da entourage de Lula — Andrei Rodrigues — tentou subtrair do juiz natural um inquérito que toca o filho do presidente. E o fez em sintonia com a PGR, num momento em que o mesmo gabinete de Mendonça já vinha em atrito com a Polícia Federal por causa do Banco Master e da própria Operação Sem Desconto, e com a Advocacia Geral da União, responsável pela advocacia prestada ao... pai do investigado!
E é impossível não lembrar, diante desse zelo seletivo pela “distribuição correta”, da Conspiração do Uísque — aquela degustação de Macallan em Londres, bancada pelo caixa de Daniel Vorcaro, à qual compareceram, não por acaso, Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Paulo Gonet e o próprio Andrei Rodrigues. Não é preciso provar cartório de conluio para reconhecer o óbvio: gente que brinda dose a dose com quem investiga não costuma depois tratá-lo com o rigor que a lei exige. O ecossistema de blindagem a Lulinha do INSS e ao Lulão do Master não nasceu agora; nasceu ali, num salão esfumaçado de Londres, entre goles e sorrisos, muito antes de qualquer sorteio eletrônico.
O sorteio, desta vez, atrapalhou o roteiro. Mas este continua sendo escrito — e quem o escreve sabe exatamente qual uísque prefere.
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