A ‘sinuca de bico’ de Lula na Paraíba
No fim de julho, Nabor Wanderley (Republicanos-PB) subiu ao palco da convenção do Partido dos Trabalhadores (PT), em João Pessoa, para reafirmar lealdade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Sempre estive ao lado de Lula", disse o pré-candidato ao Senado, pai do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Foi vaiado. No mesmo ato em que jurava fidelidade, o partido de
No fim de julho, Nabor Wanderley (Republicanos-PB) subiu ao palco da convenção do Partido dos Trabalhadores (PT), em João Pessoa, para reafirmar lealdade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Sempre estive ao lado de Lula", disse o pré-candidato ao Senado, pai do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Foi vaiado. No mesmo ato em que jurava fidelidade, o partido de Lula já aplaudia os dois adversários dele na disputa pelas duas vagas paraibanas à Casa legislativa.
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Mesmo antes da vaia, Nabor tinha pouco a comemorar, a julgar pelas pesquisas. Em levantamento estadual do DataTrends, feito de 7 a 9 de junho com 1,2 mil eleitores e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-governador João Azevêdo (PSB-PB) aparecia com 31% e o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), com 25%. Nabor tinha 11%, atrás do ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga (PL), que marcava 12%. Tudo isso depois de montar, segundo aliados do próprio Nabor ouvidos por Oeste, a maior máquina de prefeitos do Estado.
O apoio que não veio
Lula bateu o martelo em 15 de junho, ao declarar apoio a Veneziano e a João Azevêdo para as duas vagas da Paraíba ao Senado. O PT estadual pôs a posição em nota e afirmou que "ambos têm desempenhado um papel importante na defesa dos interesses da Paraíba e na sustentação das pautas que fortalecem o governo Lula". Ainda assim, em 10 de agosto, Hugo Motta declarou apoio à reeleição do petista. Lula, disse ele, é "o que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país". Motta, vale lembrar, é quem comanda a pauta da Câmara e decide o que vai a plenário e o que fica na gaveta.
Na quinta-feira 13, o petista gravou ao lado de Veneziano e reafirmou seu apoio. Nabor ficou de fora. Nos bastidores corre a versão de que o presidente da República também abençoaria o pai de Motta, o que petistas locais classificam como invenção para confundir o eleitor.
O irmão que julga as contas
No caso de Veneziano, a conta fica ainda mais delicada. O senador que tenta a reeleição é irmão de Vital do Rêgo Filho, reconduzido à presidência do Tribunal de Contas da União (TCU) para 2026, a Corte que julga as contas do governo. Lula apadrinhou, assim, o candidato cujo irmão pode aprovar ou reprovar as suas contas. Vital do Rêgo é o ministro do TCU que, em 2025, usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para se deslocar de Belém a Brasília, depois de uma autorização do governo Lula. O uso de aeronaves da FAB não é permitido para o presidente nem ministros do TCU, órgão cuja atribuição é fiscalizar as contas de órgãos federais.
O nó dos Ribeiro
Com a proximidade das eleições, o enredo fica mais complicado. Em 5 de agosto, Nabor anunciou como primeira suplente a senadora Daniella Ribeiro (PSD-PB), mãe de Lucas Ribeiro (PP), o governador que assumiu a Paraíba quando João renunciou, em abril, e que agora disputa a reeleição com o apoio da base de Lula. A mãe do governador aliado entrou na chapa do candidato que o presidente escanteou.
Nabor aposta nessa confusão. Ao apresentar a suplente, pediu ao eleitor "primeiro voto em João, segundo em mim", à caça do segundo voto de quem apoia o ex-governador. Na Paraíba, a manobra costuma funcionar: o eleitor divide as duas cadeiras entre situação e oposição. Para João Azevêdo, o arranjo é fogo amigo. A aposta de Nabor é que o clã de Campina Grande puxe votos para ele, e que esse crescimento saia dos votos de João, não dos de Veneziano.
O fantasma de Cássio Cunha Lima
O que deixa o cenário ainda mais incerto, é que na Paraíba, a pesquisa já errou feio. Em 2018, Cássio Cunha Lima, senador, então primeiro vice-presidente da Casa e favorito histórico, terminou em terceiro e perdeu a vaga. Quem passou por ele foi Daniella Ribeiro, hoje suplente de Nabor. À época, Daniella quase não tinha favoritismo no Estado. Em 2012, inclusive, ela chegou a concorrer como candidata à prefeita de Campina Grande, mas perdeu no primeiro turno. Na Paraíba, o chamado “voto de cabresto” dos prefeitos não aparece nas pesquisas de meio de ano; entra em cena na reta final, quando a máquina municipal é acionada. Nabor tem a maior delas, e é por isso que, apesar dos 11%, ninguém o dá como morto.
Qualquer que seja o resultado, alguém sai devendo. Se Veneziano e João se elegerem, Motta terá declarado apoio à reeleição de Lula sem garantir a cadeira do pai, e segue com a pauta da Câmara debaixo do braço. Se Nabor virar o jogo na reta final, quem pagou a conta foi Lula, que deu a palavra ao irmão do homem que julga as suas próprias contas.
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