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Afinal, a economia brasileira de 2027 será diferente das crises passadas?

Após enfrentar décadas de instabilidade econômica, incluindo a crise da dívida externa nos anos 1980, hiperinflação, planos econômicos dos governos Sarney, Collor e Itamar, a recessão do governo Dilma e a pandemia de covid-19, brasileiros passaram a desconfiar de promessas de mudança. A pergunta que fica é: 2027 será realmente diferente?

Em 1993, Roberto Carlos escreveu que “daqui pra frente vai ser diferente”. O compositor, no fundo, deixa claro que, normalmente, no amor pouca coisa muda. Por outro lado, os brasileiros pensam que, na economia, aqui no Brasil é sempre a mesma coisa. Olham para uma crise e pensam: já vivi a crise da dívida externa nos anos 1980, a hiperinflação, passando por Sarney, Collor e Itamar; falam de boca cheia que sobreviveram a Dilma 2, "lembra daquela presidente louca?". E terminam o argumento dizendo: sobrevivi à covid. Por que em 2027 vai ser diferente?

Para responder a essa pergunta, temos que compreender o motivo de cada crise citada, saber quem pagou a conta e como ela foi solucionada, para depois voltarmos à questão: em 2027 vai ser diferente?

A crise da dívida externa ocorreu de 1975 a 1983. Na época, tivemos o choque do petróleo, o aumento dos juros internacionais e a interrupção do financiamento externo. Sem dinheiro estrangeiro para pagar os gastos do governo e cobrir sua conta corrente deficitária, todos os projetos importantes de desenvolvimento ficaram para trás: infraestrutura, saúde e educação. O governo gastava o dinheiro dos brasileiros apenas para manter os gastos públicos e, como os recursos eram insuficientes, tivemos uma grande recessão, a chamada década perdida.

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Depois disso, tivemos uma pequena melhora até 1987, quando o desequilíbrio fiscal trouxe a hiperinflação. Em 1993, chegamos a ter uma inflação de 2.477% ao ano. Para resolver o problema causado pelo Estado, governos sucessivos mudaram a moeda, congelaram preços, confiscaram a poupança, desorganizaram a economia e atrasaram a entrada do Brasil na globalização iniciada nos anos 1990.

Depois do nascimento do Real, em 1994, o Brasil melhorou muito. Voltamos a participar do mercado de crédito internacional, o agronegócio disparou e passamos a ser superavitários nas nossas contas públicas. A janela demográfica brasileira se abriu nos anos 2000 e decolamos. Mas, com dinheiro sobrando, em vez de melhorar a infraestrutura, a saúde e a educação, esquecidas na década de 1980, nossos políticos fizeram Olimpíadas, Copa do Mundo e todos os exageros que nem países ricos fazem. Foram 20 anos de gastos irresponsáveis, e a conta chegou em 2014. A Grande Recessão Brasileira aconteceu, e a queda do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2015 e 2016 foi a maior registrada desde a Independência do Brasil.

Situação diferente?

Quando chegou a covid, parecia que seria ainda pior, porque a crise não estava apenas no Brasil: ela era global e poderia ter provocado um colapso macroeconômico sistêmico, com tudo desabando ao mesmo tempo. Mas, desta vez, tivemos uma resposta mais coerente do governo, e a economia suportou a crise, embora não sem sequelas. A reforma da Previdência, que economizaria R$ 1 trilhão aos cofres públicos em 10 anos, teve esse valor praticamente consumido em apenas um ano, e a dívida pública atingiu a máxima histórica.

Agora vamos compreender o que nos espera em 2027. Quando secou o financiamento externo, na década de 1970, a dívida pública era de 22% do PIB e o déficit nominal das contas públicas era de 8,1% do PIB. Em 2026, nossa dívida representa, no mínimo, 82% do PIB e o déficit nas contas públicas é de 10% do PIB. Se a entrada de capital internacional secar, o impacto será muito maior e muito mais rápido.

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O overnight dos bancos e os juros absurdos na época da hiperinflação, antes do Plano Real, pareciam loucura. Mas, para entender a fragilidade de hoje, vamos comparar o resultado primário, os juros reais pagos e o déficit operacional antes de 1994 com os de 2026.

Assim, o déficit operacional era próximo de 0% e agora está perto de 7%. Portanto, para as contas públicas serem melhores hoje do que na época de Sarney e Collor, ou os políticos mudam a Constituição e param de gastar, ou terão que criar uma hiperinflação.

Para concluir as comparações, a bonança da janela demográfica aberta nos anos 2000 se fecha em 2030, e os políticos corruptos conseguiram quebrar o Instituto Nacional do Seguro Social antes. Há quem diga que isso ocorrerá em 2027, e esse pode ser o grande gatilho para puxar todos os argumentos aqui colocados de uma só vez. Aí, Dilma 2 e covid vão parecer pequenas crises, e não duas das maiores da nossa história.

Espero que você reflita sobre o que acabou de conhecer. Assim, fica claro o porquê, desta vez, pode ser diferente. E finalizamos com a música profética do Rei, que, em outra estrofe, diz que você deve “saber o que é bom e o que é ruim. É melhor pensar depressa e escolher. Antes do fim.”

Leia também: "A reforma que piora o que já está ruim", artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 334 da Revista Oeste

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