Alto custo do crédito eleva endividamento de famílias e empresas no Brasil
O Brasil enfrenta um cenário econômico delicado, com o encarecimento do crédito pressionando famílias e empresas. Atualmente, 82% das famílias brasileiras estão endividadas, enquanto cerca de 9 milhões de empresas estão inadimplentes, totalizando mais de R$ 220 bilhões em débitos negativados.
O Brasil conseguiu uma façanha econômica que ninguém deveria comemorar: endividou as famílias, estrangulou as empresas e tornou caro justamente o dinheiro necessário para ajudar os dois lados a respirar. Enquanto 82% das famílias brasileiras estão endividadas, a inadimplência empresarial já alcança cerca de 9 milhões de empresas, com mais de R$ 220 bilhões em débitos negativados.
Entre janeiro e abril, foram 268 pedidos de recuperação judicial envolvendo 602 empresas, depois de 2025 registrar 977 processos, recorde da série histórica. Americanas, Casas Bahia, Marabraz, Zinzane, Grupo Toky, dono de Mobly e Tok&Stok, e CVLB, de Casa & Video e Le Biscuit, ajudam a transformar a estatística em paisagem. Quando CPF e CNPJ entram no vermelho ao mesmo tempo, não existe azul no balanço que consiga esconder o problema. O Brasil não vive uma coleção de acidentes empresariais. Vive uma fila de contas vencendo juntas.
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A dimensão dessa fila chama atenção não apenas pela quantidade, mas pelo tamanho das empresas e das dívidas envolvidas. A Americanas entrou em recuperação judicial com cerca de R$ 43 bilhões em débitos. A Casas Bahia recorreu à Justiça com R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de acumular prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre. A Marabraz chegou ao processo com aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. Mobly e Tok&Stok, reunidas no Grupo Toky, também estão em recuperação, assim como Casa & Video e Le Biscuit, do Grupo CVLB, além da Zinzane.
Quando a lente se amplia para as reestruturações extrajudiciais, entram nomes como Raízen, GPA, Oncoclínicas e Alliança Saúde. Mudam a fachada, o setor e o tamanho da dívida. O verbo, porém, permanece o mesmo: renegociar. Quando a exceção começa a precisar de senha para organizar a fila, ela deixou de ser exceção.
A Casas Bahia talvez seja o símbolo mais evidente deste momento porque sua própria história começa onde termina a tranquilidade financeira de milhões de brasileiros: na parcela. Uma companhia construída sobre a capacidade de antecipar o consumo enfrenta agora a necessidade de comprar tempo para reorganizar suas próprias contas. A dívida alcançou R$ 17,3 bilhões, o prejuízo explodiu e o plano de reestruturação prevê o fechamento de centenas de lojas.
Há erros empresariais, decisões estratégicas, problemas de execução e escolhas de estrutura de capital que não podem ser terceirizados para a macroeconomia. Mas existe também um consumidor muito diferente daquele para quem esse modelo foi desenhado. A empresa que ensinou o Brasil a comprar o futuro parcelado agora precisa parcelar o próprio passado. O carnê venceu antes da estratégia.
Mobly e Tok&Stok acrescentam outro capítulo ao mesmo enredo. O Grupo Toky registrou prejuízo de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre, alta de 161,7%, enquanto a receita líquida caiu 37,3%, para R$ 207,1 milhões. O caso expõe uma das engrenagens mais perversas de qualquer crise de crédito: quando o mercado começa a desconfiar da capacidade de uma empresa pagar, passa a exigir condições mais duras, que tornam ainda mais difícil que ela consiga pagar.
No varejo, o efeito encontra margens apertadas, estoques caros, aluguel, folha, logística e uma necessidade permanente de capital de giro. Juro alto não inventa um balanço ruim, mas acende a luz sobre problemas que o dinheiro barato permitia esconder. Capital barato tolera erros por mais tempo; capital caro transforma esses erros em conta a pagar.
E existe um número impossível de retirar dessa história: 14% ao ano. A Selic esteve em 2% em 2020, chegou a 15% e permanece em 14%, mesmo após o início do ciclo de cortes. Nesse intervalo, muitas companhias contrataram dívida, fizeram aquisições, abriram lojas e desenharam estruturas de capital em um mundo no qual o dinheiro parecia quase gratuito.
Depois descobriram que dívida longa não significa juro eternamente barato. Refinanciamento ficou caro, capital de giro ficou caro, estoque ficou caro e o consumidor financiado também ficou caro. O Brasil emprestou dinheiro com preço de água e está cobrando a renovação como champanhe. A Selic não precisa quebrar uma empresa saudável para produzir estrago. Basta chegar antes da margem.
Do outro lado do caixa está um consumidor igualmente sufocado. O endividamento das famílias alcançou 82% em julho. O cartão aparece em 85% das famílias endividadas, enquanto 19% já comprometem mais da metade da renda mensal com o pagamento de dívidas. A pressão não vem apenas de bens discricionários. Alimentação, moradia, energia, financiamento e outras despesas essenciais ocupam uma parcela crescente do orçamento, enquanto novos gastos disputam o pouco que sobra.
Para móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, o efeito é especialmente devastador porque são compras que dependem de confiança, renda disponível e crédito. O cartão deixou de apenas antecipar o desejo e começou a antecipar salário. O varejo precisa vender para um consumidor que precisa comprar menos justamente quando a loja precisa vender mais.
É nesse ponto que Brasília entra na história, mas sem o conforto intelectual de procurar um único culpado. Empresas mal administradas não podem transferir suas decisões para a conta do governo. Da mesma forma, a política econômica não pode tratar o ambiente de negócios como se fosse fenômeno meteorológico.
O Brasil convive com juros reais elevados, dívida pública pesada, déficits recorrentes, carga tributária superior a 30% do PIB, complexidade regulatória e insegurança suficiente para exigir prêmio adicional de quem empresta dinheiro por muitos anos. Juros também refletem inflação, expectativas e credibilidade fiscal.
O empresário brasileiro paga imposto sobre o que produz, juros sobre o que deve e prêmio de risco sobre aquilo que Brasília ainda pode mudar. O país conseguiu tornar caro contratar dinheiro, complexo pagar imposto e surpreendentemente barato prometer crescimento.
O número mais preocupante, porém, talvez nem esteja nas recuperações judiciais. Está nas empresas que nunca chegam até elas. Grandes grupos conseguem contratar bancos, advogados e consultores, negociar com credores e pedir proteção judicial. Pequenos empresários muitas vezes simplesmente encerram suas atividades.
Quando cerca de 9 milhões de empresas aparecem inadimplentes, com centenas de bilhões de reais em compromissos atrasados, o problema deixa de caber em uma manchete sobre Casas Bahia ou Americanas. Ele alcança fornecedores, funcionários, proprietários de imóveis, bancos, arrecadação e consumo. Empresa grande pede recuperação judicial. Empresa pequena muitas vezes entrega a chave. A falência que toca o sino da Bolsa assusta, mas a que fecha silenciosamente às seis da tarde destrói empregos do mesmo jeito.
Para o investidor, esse cenário deixa uma lição que vale mais do que qualquer previsão sobre a próxima reunião do Copom. Rentabilidade sem análise de risco é apenas uma forma elegante de descobrir tarde demais quem estava financiando. Crédito privado exige qualidade do emissor. Renda fixa exige entender balanço.
Ações exigem atenção à geração de caixa. Patrimônio exige liquidez, diversificação, horizonte e exposição a riscos que não dependam todos da mesma economia. Em um ambiente de crédito apertado, não basta olhar para a taxa oferecida por um ativo. É preciso entender quem paga, de onde vem o dinheiro para pagar e quanto tempo o investidor consegue esperar caso o cenário mude.
O Brasil de 2026 chega, assim, a uma fotografia difícil de ignorar: 82% das famílias endividadas, milhões de empresas inadimplentes, centenas de recuperações judiciais e alguns dos maiores nomes da economia renegociando bilhões de reais. Juros menores poderão aliviar parte da pressão, mas não transformarão governança ruim em boa, dívida em patrimônio, déficit em credibilidade ou consumo financiado em renda.
Recuperação judicial é um instrumento legítimo e pode salvar empresas viáveis. O problema começa quando precisamos dela tantas vezes que o extraordinário passa a parecer rotina. Recuperação judicial não é a doença. É o pronto-socorro onde os erros finalmente ganham prontuário. O Brasil ficou especialista em recuperar empresas, renegociar dívidas e parcelar o presente. Agora falta experimentar uma ideia quase revolucionária: não precisar quebrar para começar a consertar.
Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos
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