As carrancas da Globo
Num passado não muito distante, que durou até os princípios do século 20, os barqueiros do São Francisco costumavam fixar carrancas na proa para espantar os maus espíritos das águas. Ocorre que a carranca tem uma particularidade anatômica: olha sempre para a frente, para o rio, para o outro. Jamais se volta para o próprio barco e, portanto, nunca identifica os maus espíritos internos. Daí que eu
Num passado não muito distante, que durou até os princípios do século 20, os barqueiros do São Francisco costumavam fixar carrancas na proa para espantar os maus espíritos das águas. Ocorre que a carranca tem uma particularidade anatômica: olha sempre para a frente, para o rio, para o outro. Jamais se volta para o próprio barco e, portanto, nunca identifica os maus espíritos internos. Daí que eu tenha me lembrado das carrancas do São Francisco ao rever os semblantes irados da bancada da GloboNews diante do caso Dark Horse.
Quando vieram a público as mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme, as carrancas entraram em cena. Octavio Guedes decretou que aquilo era “tomação de grana” em “dialeto de malandragem”. Natuza Nery, após a sabatina do senador no Jornal Nacional, sentenciou que ele “enrolou demais, mentiu bastante”. Andréia Sadi, ao vivo, corrigia o advogado da produtora com a solenidade de quem administra um sacramento.
Pois bem. Na quinta-feira, a Globo demitiu Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, depois que vieram à luz suas conversas com o mesmo Vorcaro. Segundo matéria de Lucas Cheiddi, o executivo foi “convidado de honra” de uma festa num local “sem risco e sem celular”, trocou com o banqueiro comentários vulgares sobre atrizes da emissora e, diante de queixas contra uma reportagem de Malu Gaspar, prometeu: “Vou falar com ela”. A própria empresa admitiu, em nota, uma “relação inadequada do executivo com um anunciante”.
A diferença é de natureza. Flávio é um político que pediu dinheiro a um empresário para um filme sobre o pai — tudo dentro da legalidade de uma relação de patrocínio, como admitiu o próprio Vorcaro ao diferenciar esse caso do financiamento “por fora” ao documentário de Oliver Stone sobre Lula. Kachar era, ao que as mensagens sugerem, o ouvido amigo a quem o banqueiro se queixava da redação que o investigava. Ali não está em causa a reputação de um candidato, mas a do próprio tribunal midiático.
E o tribunal, até o fechamento desta coluna, emudeceu. A mesma bancada que, diante de mensagens de terceiros envolvendo Lula, redescobriu as virtudes da prudência (“Não há uma prova objetiva, direta”, ponderou Guedes, com a concordância de Sadi) agora nem sequer franze o cenho.
“Quis custodiet ipsos custodes?”, perguntava Juvenal. A GloboNews responde com o silêncio das carrancas, que só têm olhos para o rio, nunca para dentro do barco — aliás, já emborcado.
Leia também: "Piás bons de voto", reportagem publicada na Edição 344 da Revista Oeste
O post As carrancas da Globo apareceu primeiro em Revista Oeste.



