Ativista revela como sobreviveu à tortura da ditadura venezuelana
Jesús Armas conhecia a política venezuelana por dentro. Engenheiro, professor da Universidade Central da Venezuela e ex-vereador de Caracas, dedicou parte da atuação pública à defesa das eleições livres e dos direitos humanos. Participou ativamente de manifestações contra o regime de Nicolás Maduro. Na eleição presidencial de 2024, Armas assumiu uma tarefa decisiva. Ficou responsável pela cole
Jesús Armas conhecia a política venezuelana por dentro. Engenheiro, professor da Universidade Central da Venezuela e ex-vereador de Caracas, dedicou parte da atuação pública à defesa das eleições livres e dos direitos humanos. Participou ativamente de manifestações contra o regime de Nicolás Maduro.
Na eleição presidencial de 2024, Armas assumiu uma tarefa decisiva. Ficou responsável pela coleta das atas de votação em Libertador, o maior município de Caracas, onde se concentrava cerca de 10% do eleitorado do país. Os documentos reunidos pela oposição foram usados para contestar a vitória atribuída a Maduro e apontavam ampla vantagem de Edmundo González Urrutia.
O trabalho colocou Armas na mira dos serviços de Inteligência. Depois de passar cinco meses escondido, foi capturado em dezembro de 2024 e enviado a El Helicoide, a prisão mais temida da Venezuela.
O calvário de Jesús Armas
Mais de um ano depois, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, Armas permanecia em uma cela sem janelas quando uma explosão fez o prédio tremer. A energia caiu. O gerador entrou em funcionamento, e os guardas começaram a correr pelos corredores.
Sem conseguir enxergar o que acontecia do lado de fora, Armas pensou que outro transformador tivesse explodido. Falhas desse tipo eram comuns em Caracas. A movimentação dos agentes, contudo, indicava algo diferente. Pela primeira vez, o ativista viu medo no rosto do diretor da prisão.
Um dos detentos começou a cantar o hino nacional. Outros acompanharam. A notícia circulou por meio de um guarda: forças norte-americanas haviam capturado Maduro. Logo, os corredores de El Helicoide foram tomados por gritos de “Abaixo a ditadura!”.
A liberdade pareceu próxima. Armas ainda permaneceria preso por mais de um mês. Seu caminho até El Helicoide havia começado em uma casa clandestina nas colinas ao sul de Caracas. Agentes o mantiveram ali durante quatro dias, apertaram um saco plástico contra sua cabeça, ameaçaram sua família e exigiram informações sobre María Corina Machado. Ofereceram a soltura em troca dos nomes e dos planos de outros ativistas. Ele recusou.
Nos primeiros dez meses em El Helicoide, Armas ficou isolado do mundo exterior. Sua família não recebeu confirmação oficial de que ele estava no prédio. Um aparelho de MP3 e alguns livros ajudaram a suportar o período. Amigos enviavam cartões de memória com músicas de Metallica, Megadeth e Linkin Park. Nas obras de Václav Havel e Nelson Mandela, o ativista encontrou relatos de resistência ao cárcere político.
Enfim, a liberdade
Armas saiu da prisão em 8 de fevereiro de 2026. Na primeira noite em casa, viu o nascer do sol pela janela e pensou em todas as manhãs que havia perdido. Do lado de fora, contudo, encontrou parte do antigo regime político ainda no comando das forças policiais e dos serviços de inteligência.
Na Edição 338, a Revista Oeste acompanha o percurso de Jesús Armas desde a coleta das atas eleitorais até a liberdade. Também mostra por que a captura de Maduro ainda não encerrou a repressão política na Venezuela. Centenas de opositores permanecem presos, e alguns dos libertados continuam submetidos à prisão domiciliar ou a outras restrições. Assine e saiba os detalhes.
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