Brasil perde 7 milhões de leitores em 5 anos
O brasileiro nunca teve tanto texto ao alcance dos olhos. Livros inteiros cabem no celular, bibliotecas podem ser acessadas pela internet e ferramentas digitais praticamente eliminaram as antigas barreiras para encontrar, comprar ou publicar uma obra. Mesmo assim, o país está lendo menos. Entre 2019 e 2024, o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Bras
O brasileiro nunca teve tanto texto ao alcance dos olhos. Livros inteiros cabem no celular, bibliotecas podem ser acessadas pela internet e ferramentas digitais praticamente eliminaram as antigas barreiras para encontrar, comprar ou publicar uma obra. Mesmo assim, o país está lendo menos.
Entre 2019 e 2024, o Brasil perdeu 6,7 milhões de leitores, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ipec com 5.504 pessoas de 5 anos ou mais em 208 municípios. Pela primeira vez, os não-leitores tornaram-se maioria: 53% dos entrevistados. Apenas 47% haviam lido ao menos parte de um livro no período considerado pelo levantamento.
Os números brasileiros fazem parte de um fenômeno mais amplo, discutido na Edição 334 da Revista Oeste. Em artigo publicado pela revista norte-americana The Atlantic, a jornalista Rose Horowitch investiga o enfraquecimento do hábito de leitura e questiona se a sociedade caminha para uma era “pós-literária”.
Os sinais aparecem também nos Estados Unidos. Menos da metade dos adultos norte-americanos declarou ter lido pelo menos um livro em 2022. Apenas 38% leram um romance ou conto. A parcela da população que lia por prazer em um dia qualquer caiu de 28%, em 2004, para 16%, em 2023.
O brasileiro abandona os livros
No Brasil, o problema fica ainda mais evidente quando se observa quanto (e o quê) as pessoas efetivamente leem. Somente 27% dos entrevistados disseram ter terminado um livro no período analisado. Entre os brasileiros alfabetizados, apenas 7% afirmaram ler literatura por vontade própria todos ou quase todos os dias. Outros 11% fazem isso pelo menos uma vez por semana.
Por sua vez, 62% não leem literatura espontaneamente. A quantidade de obras consumidas também ajuda a dimensionar o fenômeno. Ao considerar toda a população, a média de literatura lida por vontade própria ficou em apenas 1,17 livro por ano. Em 2024, 29% dos brasileiros declararam não gostar de ler; cinco anos antes, eram 22%.
Mas há um paradoxo. A redução da leitura de livros não significa necessariamente que as pessoas estejam lendo menos palavras. Celulares despejam diariamente sobre seus usuários mensagens de WhatsApp, publicações em redes sociais, legendas, comentários, notificações, e-mails e uma sucessão praticamente infinita de pequenos textos. A diferença está na forma como esse conteúdo é consumido.
Muitas palavras, pouca leitura
É aí que aparece uma das questões levantadas pela reportagem da Revista Oeste: a leitura fragmentada das telas consegue substituir a concentração exigida por um livro?
A tecnologia tornou possível carregar uma biblioteca inteira no bolso. Ao mesmo tempo, criou um ambiente dominado por vídeos rápidos, frases isoladas e conteúdos construídos para capturar a atenção por alguns segundos. A inteligência artificial adiciona uma nova camada a essa transformação. Resumos automáticos, traduções instantâneas e sistemas capazes de produzir ou condensar textos reduzem cada vez mais o esforço necessário para chegar à informação.
A escrita, contudo, desempenhou durante milhares de anos uma função que vai além de simplesmente transportar dados. Ela permite registrar ideias, estabelecer conceitos, confrontá-los e desenvolver raciocínios extensos sem depender da memória ou da comunicação presencial. A humanidade pode estar diante de outra transformação na maneira de transmitir conhecimento. Ainda não se sabe até onde essa mudança irá.
O mundo realmente caminhando para uma sociedade “pós-literária”? O que a leitura fragmentada faz com nossa capacidade de concentração? E a tecnologia ameaça os livros ou apenas está mudando a maneira como lemos?
A reflexão completa está na Edição 334 da Revista Oeste. Assine e tenha acesso à íntegra.
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