Brasil se aproxima da Rússia em meio a tensões com os EUA
Em meio a uma nova avaliação das relações entre Estados Unidos e Brasil, o governo brasileiro sinalizou esta semana sua posição no cenário internacional. Na terça-feira, o presidente recebeu, fora da agenda oficial, Nikolai Patrushev, assessor especial do presidente russo, Vladimir Putin. Horas depois, conversou por telefone com Putin sobre diesel, fertilizantes e cooperação naval.
Enquanto Washington reavalia, mais uma vez, o tamanho da paciência que pode dispensar a Brasília, o Palácio do Planalto decidiu que esta seria uma boa semana para reafirmar ao mundo de que lado do tabuleiro geopolítico pretende jogar. Na terça-feira 4, o Descondenado-em-chefe recebeu, fora da agenda oficial, o assessor especial de Vladimir Putin, Nikolai Patrushev — figura que dispensa apresentações a quem acompanha os bastidores do Kremlin —, e horas depois telefonou pessoalmente ao ditador russo para tratar de diesel, fertilizantes e “cooperação naval”. Nada disso é acidente de percurso. Como se diz por aí, tem método.
O episódio, aparentemente miúdo diante da magnitude dos problemas que o Brasil real enfrenta, é na verdade sintoma de algo maior: a decisão deliberada do regime luloalexandrino de transformar o país em peça avançada do tabuleiro eurasiano, justamente no momento em que as relações com os Estados Unidos atravessam o pior momento da história. Não é preciso arquivo confidencial para constatar isso: basta somar a retórica antiamericana reciclada dos bas-fonds universitários dos anos 1960, os acenos ao eixo Moscou-Pequim e o silêncio constrangido diante das ambições imperiais de Putin sobre a Ucrânia — mascarado sob a fórmula macunaímica do “vamos resolver tudo com uma cervejinha”.
A ironia histórica é cruel. O mesmo país que mandou seus filhos para a Itália, sob a bandeira da FEB, para lutar contra o totalitarismo europeu, hoje tem seu chefe de Estado tratando com cordialidade quem bombardeia civis em Kiev e reprime dissidentes em Moscou. Obviamente, isso nunca foi “soberania” nem “multipolaridade”. Trata-se de escolha de um lado, ainda que os arautos do lulopetismo insistam em vesti-la de neutralidade ativa.
O Brasil na Guerra Fria 2.0
O que alguns podem ver como inabilidade diplomática consiste, na verdade, num projeto. O Brasil, pela primeira vez desde a redemocratização, corre o risco real de romper com Washington não por pressão externa, mas por opção interna, movida por saudosismo ideológico e cálculo eleitoral. A pergunta que resta não é se o Brasil está numa Guerra Fria 2.0 — pois ele definitivamente está —, mas se seus cidadãos serão consultados antes de descobrir, tarde demais, em qual trincheira foram alistados.
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