Cartilha petista ensina a ‘virar voto’ apelando a idosos e terceira via
Um documento de 12 páginas circula em redes sociais ensinando a militância petista a ganhar votos e virar as eleições no segundo turno. O documento traz poucos argumentos a serem defendidos a favor de Lula, e muitos ataques a Flávio Bolsonaro. O foco da cartilha é convencer idosos a irem votar para combater a abstenção e convencer alguém que votou na terceira via – não a gostar de Lula, mas a
Um documento de 12 páginas circula em redes sociais ensinando a militância petista a ganhar votos e virar as eleições no segundo turno. O documento traz poucos argumentos a serem defendidos a favor de Lula, e muitos ataques a Flávio Bolsonaro.
O foco da cartilha é convencer idosos a irem votar para combater a abstenção e convencer alguém que votou na terceira via – não a gostar de Lula, mas a dar um voto de medo contra Flávio Bolsonaro. O documento termina com a frase “Agora é eu, você, e Nossa Senhora” (sic).
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O primeiro assunto tratado é a abstenção de idosos, grupo que responde por uma grande parte da abstenção de votos no Brasil. Mais da metade dos 17 milhões de idosos acima de 70 anos não foi votar. O texto lembra que 8 milhões de idosos não foram votar em 2022, numa eleição definida por menos de 2 milhões (pouco a menos do que a diferença atual entre Flávio Bolsonaro e Lula). “Se esta pessoa quiser votar no Lula”, declara o documento, o militante deve ajudar com toda a logística para levar o idoso para a votação.
Mentiras sobre o Farmácia Popular
Para convencer os idosos, a cartilha alega que Bolsonaro “desmontou o Farmácia Popular”, programa que teria sido “resgatado” pelo governo Lula. Na verdade, o programa nunca deixou de existir, continuando a oferecer medicamentos gratuitos ou subsidiados em farmácias cadastradas.
O que houve foi uma proposta do Ministério da Economia para o ano de 2023 (quando Lula foi eleito), que previa um corte orçamentário – de R$ 2,96 bilhão para R$ 1,46 bilhão. O próprio Bolsonaro pediu para que Paulo Guedes, então ministro da Economia, reavaliasse a proposta. O programa nunca foi extinto ou “desmontado”.
As farmácias próprias do programa haviam sido fechadas em 2017, no governo Temer, vice da petista Dilma Rousseff. A mentira de que o Farmácia Popular seria extinto já circulava em 2018.
Manipulação do índice de inflação
A cartilha também manda dizer aos idosos que Lula teria aumentado o salário mínimo acima da inflação. O texto manipula a diferença entre aumento nominal e aumento real do salário. O mínimo passou de R$ 1.518 para R$ 1.621 em 2026. O aumento nominal foi de 6,79%, enquanto a inflação aumentou 4,18%. Na prática, o aumento do salário mínimo foi de aproximadamente 2,5%.
Como o índice de inflação do INPC analisa diversos produtos para definir a cesta básica, o aumento pode não ser suficiente para “vencer” a inflação conforme os gastos de uma família. Apenas a gasolina (necessária para o transporte de todas as mercadorias – e que, portanto, reflete até no preço da feira) aumentou 12,09% em 2023 e mais 9,71% em 2024 – cerca de 23% no período, enquanto o salário aumentou apenas 16,5% nos mesmos 2 anos. A quantidade de gasolina que um salário pode comprar diminuiu 5,3%. A percepção da população de diminuição do poder de compra, portanto, reflete-se apesar dos aumentos nominais – principalmente para quem recebe além de um salário mínimo e de consumo de subsistência.
Falsidades sobre a pandemia
Logo a seguir, a cartilha pede para o militante relembrar “como foi o governo Bolsonaro, especialmente a fase da pandemia. Lembre do atraso das vacinas e incentivo a tratamentos ineficazes”. Na verdade, houve diferenças no ritmo entre as vacinas. No caso da AstraZeneca/Fiocruz, por exemplo, a contratação já estava sendo negociada e quase foi assinada ainda em setembro de 2020 – antes mesmo da aprovação da Anvisa. A própria AstraZeneca/Fiocruz fez uma nota para explicar o contrato de transferência tecnológica – visto que o governo Bolsonaro também foi criticado pela contratação.
Cabe lembrar ainda que boa parte da acusação de “atraso” significava assinar contratos para vacinas antes da aprovação pela Anvisa, o que também gerou críticas – neste caso, pelo motivo oposto.
O caso mais famoso envolveu a vacina Covaxin. A Anvisa encontrou, em março de 2021, três não conformidades críticas, 12 maiores e 14 menores na fábrica da Bharat Biotech, apontando que a vacina apresentava riscos aos usuários. Em junho do mesmo ano, a Anvisa notou pendências nos resultados e no acompanhamento de estudos da fase 3 da vacina.
A imprensa culpou Bolsonaro pelo caso da Covaxin. Alessandro Molon aproveitou para reclamar da “rapidez” da liberação da vacina (o contrário do alegado hoje), e a oposição pediu, mais uma vez, o impeachment de Bolsonaro.
Randolfe Rodrigues, senador pelo Amapá, questionou a rapidez da liberação da vacina.
Porém, o próprio senador do Amapá Randolfe Rodrigues havia exigido que a Anvisa acelerasse a liberação da Covaxin, tendo até mesmo se reunido com a Precisa Medicamentos, o que está registrado no próprio site do Senado. Em 8 de abril de 2021, Randolfe cobrou a disponibilização da Covaxin e da Sputnik V, alegando que “a Covaxin está autorizada pela agência sanitária indiana”.
Na mesma audiência, o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, explicou que a agência havia negado o pedido de importação da Covaxin porque a inspeção na fábrica indiana encontrou problemas que impediam a certificação de boas práticas. Portanto, Randolfe cobrou agilidade mesmo quando já existia uma negativa sanitária brasileira.
Apesar de ter exigido a Covaxin em abril, Randolfe posteriormente disse que Bolsonaro deveria ter suspendido a compra da vacina em março daquele ano - ou seja, Randolfe exigiu que Bolsonaro tivesse impedido o que o próprio Randolfe estava fazendo.
Já em junho do mesmo ano, Randolfe se furtou à responsabilidade por uma vacina que só era aceita em caráter emergencial, respondendo justamente a Flávio Bolsonaro, alegando que “ir atrás de vacina não é crime” (sic).
Este é apenas um dos exemplos de como foi fabricada a narrativa do “atraso das vacinas e incentivo a tratamentos ineficazes”, propalados pela cartilha.
De novo, a ameaça de que “os programas sociais vão acabar”
O documento avisa para ir com calma com as pessoas que recebem programas sociais, já que “a vida dessas pessoas é muito difícil, então reconheça isso e não tente falar para elas que está tudo bem”, reconhecendo o típico clichê da esquerda de afirmar que tudo fica perfeito em governos petistas, e o Apocalipse ocorre assim que Lula sai do poder.
Sem poder acusar Flávio Bolsonaro de querer acabar com os programas sociais, a cartilha manda perguntar se o ouvinte acha que Flávio “vai defender estes programas”.
Jair Bolsonaro não apenas não acabou com o Bolsa Família – substituído pelo Auxílio Brasil durante o seu governo – como ainda aumentou seu valor bastante acima da inflação.
O Bolsa Família em dezembro de 2018 valia R$ 186,72, enquanto o Auxílio Brasil em dezembro de 2022 pagava R$ 607,14 – o aumento nominal foi de 225,2%.
Descontada a inflação acumulada pelo IPCA, de 26,9% no período, o aumento ainda foi de 156,2%.
Para apenas acompanhar a inflação, os R$ 186,72 precisariam ter chegado a aproximadamente R$ 237 em dezembro de 2022. O benefício médio efetivamente pago naquele mês foi de R$ 607,14.
Como tirar votos da terceira via
A última parte do documento fala de como tirar votos da terceira via. O texto parece assumir que o governo Lula não tem nada a oferecer às pessoas:
“Quem votou na terceira via não gosta do Lula nem do Flávio, e dificilmente vai passar a gostar do Lula. Não gaste energia tentando convertê-lo
O objetivo é que o Flávio deixe de parecer uma alternativa aceitável. Quanto mais essa pessoa olha para o Flávio, pior ele fica – então fale do Flávio, não do Lula.”
Há um fator confessadamente irrisório em evitar se falar do candidato a quem se busca classificar como a salvação do país.
A cartilha passa então a elencar “ataques”, abrindo o texto dizendo que “Segundo pesquisas, [há] três ataques que melhor funcionam contra o Flávio” (sic).
Os ataques são dizer que Flávio “nunca entregou nada”, que Flávio “vai entregar o Brasil para o Trump” e que ele “não é confiável”, induzindo a pessoa a associar Flávio e Vorcaro.
O documento passa a dar dicas de como ter uma conversa que não pareça “de militante”, dando exemplos:
- Em vez de falar... “Ele é miliciano”
- Pergunte… “Você já viu com quem ele anda?”
Nossa Senhora Aparecida
O documento se encerra pedindo um dog whistle para a militância:
Para achar essas pessoas, poste nos stories ou no status: "Votou em outro candidato no 1º turno e ainda não decidiu? Quero conversar com você.”
Faltam 21 dias para o segundo turno. Agora é eu, você, e Nossa Senhora. (sic)
A finalização, além de uma curiosa concordância alternativa, ainda tenta fazer referência à fake news de que Flávio Bolsonaro iria retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida – fazendo com que o PT, pela primeira vez na história, cite uma santa da Igreja Católica em uma campanha eleitoral.
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