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Centenário de sinagoga resgata história judaica do Recife

A celebração dos 100 anos da Synagoga Israelita do Recife (SIR) destaca o papel histórico da cidade como refúgio para judeus, desde as perseguições na Península Ibérica nos séculos 16 e 17 até a nova onda migratória do século 20, impulsionada pelo antissemitismo na Europa.

A celebração dos 100 anos da Synagoga Israelita do Recife (SIR) relembra a importância da cidade como centro de acontecimentos ligados à Europa desde os séculos 16 e 17. Naquele ano de 1926, uma nova etapa da história da comunidade judaica local era inaugurada. Ela repetia, em outro contexto histórico, o papel de acolhimento que Recife havia exercido séculos antes, quando recebeu judeus que fugiam das perseguições na Península Ibérica.

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A nova onda migratória refletia as transformações do continente europeu, marcado, desta vez, pelo avanço do antissemitismo e pelas dificuldades enfrentadas pelos judeus da Europa Oriental. A SIR foi inaugurada em 20 de julho de 1926, mas, desde 1910, imigrantes judeus já se organizavam na cidade, ao se estabelecerem no bairro Boa Vista, hoje, com seus sobrados, comércio tradicional e edifícios de diferentes épocas.

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Inicialmente, as rezas e as cerimônias religiosas eram realizadas nas casas dos membros da comunidade, até a inauguração da SIR. No último domingo, 26, eventos comemorativos foram realizados.

"Depois de um longo hiato de judaísmo na segunda metade do século 17 e nos dois séculos seguintes, o Recife voltou a ter uma vida judaica intensa a partir de 1910, com a vinda dos imigrantes asquenazes, de modo semelhante ao que aconteceu no Rio de Janeiro e São Paulo, porém em menor escala", conta a Oeste o escritor Jacques Ribemboim, autor do livro História dos Judeus de Pernambuco, lançado em 2023.

Na Idade Média (476-1453), estudiosos judeus europeus passaram a usar Ashkenaz para designar a região da Europa Central, especialmente a área do vale do Reno, onde havia importantes comunidades judaicas. Posteriormente, o termo passou também a identificar os judeus originários das comunidades judaicas da Europa Oriental.

A fundação da sinagoga em 1926 foi consequência de uma rotina judaica que retornara à cidade 16 anos antes. "Em suas origens, a SIR era um schil [sinagoga, em ídiche, língua historicamente usada pelos judeus da Europa Oriental] de frequência asquenaze", afirma o especialista, que participou da celebração. "Mais tarde, deixa de haver qualquer distinção. Hoje é uma sinagoga de maioria constituída por bnei anussim."

O termo bnei anussim, literalmente, significa "filhos dos forçados" e se refere aos descendentes de cristãos-novos dos séculos 16 e 17 que retomaram as práticas judaicas de seus ancestrais.

Naquele bairro, os judeus se fixaram nas imediações da Praça Maciel Pinheiro, tanto com suas residências como para abrirem seus pequenos negócios. A sinagoga fica em uma rua próxima, no número 29 da Martins Junior.

Na mesma época da sinagoga, foram inaugurados o Colégio Israelita (1918), o Clube Hebraico (atualmente Centro Israelita de Pernambuco) e o Cemitério do Barro (1927). Começa uma intensa vida comunitária judaica no Recife.

Entre os israelitas do Recife, alguns nomes obtiveram reconhecimento nacional e internacional, como o caso da escritora Clarice Lispector (1920-1977), do físico Mário Schenberg (1914-1990), do matemático Paulo Ribenboim (1928-) e do médico sanitarista Noel Nutels (1913-1973).

"A partir dos anos 1990, as famílias se transferem para outros bairros mais distantes e a frequência cai abruptamente", conta Ribemboim. "Na década de 2000, passa a ser frequentada por judeus 'retornados', em paridade com alguns judeus asquenazes da comunidade dita 'tradicional'."

Sinagoga mais antiga do Recife

Ribemboim conta que a sinagoga mais antiga, a Kahal Kadosh Tzur Israel, fundada entre 1636 e 1637, se manteve atuante até o momento da expulsão dos holandeses pelas tropas luso-pernambucanas, em 1654 (eles haviam chegado em 1630). Naqueles anos, Recife já reverberava, em grande parte, os fenômenos que ocorriam na Europa.

Foi para lá que migraram muitos judeus que fugiram da Inquisição na Península Ibérica, sobretudo depois das expulsões da Espanha, em 1492, e de Portugal, em 1497. A cidade pernambucana também foi cenário de conflitos da Holanda com a Espanha e Portugal, que formavam uma única nação entre 1580 e 1640, durante a União Ibérica. Assim como na Europa, sob domínio holandês entre 1630 e 1654, Recife foi um porto seguro para os judeus.

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Tanto que, ao mesmo tempo em que foi fundada a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Kadosh Tzur Israel, em 1636, a comunidade judaica portuguesa de Amsterdã vivia um período de consolidação. Nesse ambiente nasceu e cresceu a trajetória de Baruch Espinoza, que havia chegado aos Países Baixos depois da expulsão dos judeus da Espanha e de Portugal.

Espinoza foi excluído da comunidade judaica de Amsterdã em 1656, devido a conflitos relacionados às suas ideias filosóficas e religiosas, que questionavam concepções tradicionais sobre Deus e a criação. A decisão ocorreu em um contexto em que a comunidade judaica procurava preservar sua relação com a sociedade e as autoridades da República das Províncias Unidas dos Países Baixos.

A Kahal Kadosh Tzur Israel situa-se em um prédio magnífico da Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, conta Ribemboim. "O prédio foi reconstituído na virada do século 20 para o 21 e reinaugurado em março de 2002, muito frequentado pelos turistas que visitam Pernambuco", afirma ele. "Em celebrações especiais ou ocasionais, tem afluência de famílias da keilá [comunidade] local do Recife."

"Era uma sinagoga sefardita", afirma Ribemboim, sobre a sinagoga mais antiga. Os judeus sefaraditas são os descendentes das comunidades judaicas que floresceram na Península Ibérica durante a Idade Média. "Não se sabe como era seu estilo arquitetônico, mas se supõe que seguiria os padrões holandeses da época."

A Kahal Kadosh Zur Israel foi reinaugurada em março de 2002, no mesmo local onde existiu. Ela se mantém aberta ao público como museu, mas também como sinagoga no primeiro andar em ocasiões especiais. Ribemboim afirma que, na época da ocupação holandesa, não havia a linha liberal ou conservadora como hoje em dia.

"Mas seu rabino era considerado como 'inclusivo', pois considerava judeus os antigos habitantes de Olinda que eram descendentes dos cristãos-novos de Portugal, inclusive se propondo a realizar a circuncisão dos homens."

A SIR serviu para preencher um vazio deixado pela inatividade da Kahal Kadosh Zur Israel. Ocupa um edifício simples, de inspiração no estilo Bauhaus, das décadas de 1910 e 1920. Ao contrário da Kahal Kadosh Zur Israel, a SIR, como exemplar arquitetônico, não possui relevância.

"O valor histórico do prédio é devido à importância para a memória afetiva da cidade e de seu conteúdo espiritual", afirma Ribemboim. "Também mantém o mobiliário original, como o aron hakodesh [armário onde se guardam os rolos da Torá], a bimá [plataforma elevada no centro da sinagoga para a leitura da Torá] e as cadeiras de madeira com as tarjas dos nomes de seus antigos ocupantes."

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