China observou eleição americana com interesse e alívio
Em agosto de 2019, durante as prévias democratas, uma análise indicou que Joe Biden seria o candidato mais favorável aos interesses chineses. A vitória de Biden foi recebida com alívio por Pequim.
Em agosto de 2019, quando os democratas ainda digladiavam nas plenárias para decidir quem enfrentaria Donald Trump, a Forbes estampou um título de rara franqueza: “Joe Biden é o único homem que pode salvar a China em 2020”. Não era uma profecia, mas um diagnóstico. E o paciente, ao que tudo indica, foi salvo.
Pouco depois da vitória de Biden, um professor de relações internacionais da Universidade Renmin, Di Dongsheng, explicou aos seus conterrâneos, num vídeo que rodou o mundo antes de ser apagado da internet, por que Pequim respirava aliviada. De 1992 a 2016 — de Clinton, a “mãe” da China, até a chegada do intruso de topete laranja —, os desentendimentos entre as duas potências eram resolvidos, em suas palavras, “na alcova”, como fazem os casais.
E por quê? “Direi agora algo talvez um pouco explosivo: apenas porque tínhamos gente nossa no topo.” Velhos amigos nos mais altos círculos de poder, Wall Street operando como correia de transmissão e o velho establishment de sempre. O problema, lamentava o professor, é que “Wall Street não consegue enquadrar Trump”. Mas — alegria, alegria — “Biden foi eleito”. E, sobre a fundação do filho de Biden, a pergunta retórica que dispensava resposta: “Quem o ajudou a construir? Entenderam?”
China, EUA e acusações de fraude
Eu entendi. E o pronunciamento feito por Trump na última quinta-feira, 16, sugere que o professor Dongsheng foi, se tanto, modesto. Segundo o presidente norte-americano, a China obteve ilegalmente os dados de 220 milhões de eleitores — nomes, endereços, preferências partidárias — com o objetivo declarado de impedir sua reeleição em 2020. Pequim teria ainda tentado fabricar cédulas de voto em favor de Biden.
E aqui vem o detalhe mais grave: informações da CIA e da NSA sobre a interferência teriam sido deliberadamente omitidas dos informes presidenciais oficiais. Ou seja: não se trata apenas de uma operação estrangeira, mas da cumplicidade — por ação ou por silêncio — de setores do próprio aparato de inteligência americano. Gente nossa no topo, diria o professor.
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Trump afirmou que o FBI identificou fraudes em formulários de registro de eleitores em Michigan, investigações que o Departamento de Justiça da era Biden teria tratado de encerrar, e que o Departamento de Segurança Interna encontrou cerca de 278 mil não cidadãos registrados para votar em eleições federais. A resposta que ele propõe é de um radicalismo escandaloso: exigir, por meio do Save America Act, que o eleitor prove ser... cidadão. Nos manuais do jornalismo "progressista", isso decerto constará como mais uma “ameaça à democracia”.
"Para o Partido Comunista Chinês, a eleição norte-americana de 2020 não era um evento estrangeiro. Era um assunto interno"
Durante anos, quem ousasse sugerir que a eleição de 2020 merecia escrutínio era sumariamente catalogado como “negacionista eleitoral”, teórico da conspiração, inimigo das instituições — aquelas mesmas instituições que, como agora se alega, editavam os informes do presidente. A imprensa que passou quatro anos perseguindo o fantasma do Kremlin em cada gaveta da Trump Tower descobrirá, quem sabe, um súbito ceticismo metodológico diante dos documentos que envolvem Pequim. É o velho critério: a dúvida é sagrada quando convém, herética quando incomoda.
Caberá ao Congresso e à Justiça norte-americana verificar cada alegação. Mas uma coisa o professor Dongsheng já ensinou, com a franqueza de quem fala em família: para o Partido Comunista Chinês, a eleição norte-americana de 2020 não era um evento estrangeiro. Era um assunto interno.
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