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Combate à desinformação climática deve entrar na agenda das organizações

Em um cenário de crescente facilidade para falsear a realidade, a defesa da ciência e da verdade passa a ser responsabilidade de toda a sociedade.

O Brasil está em ano de eleições gerais, período em que o combate à desinformação ganha urgência. Textos, vídeos, áudios e imagens podem ser produzidos e distribuídos em escala crescente, agora com o reforço da inteligência artificial generativa. Campanhas eleitorais são terreno fértil para manipulações, fraudes de identidade, conteúdos sintéticos e versões deliberadamente distorcidas da realidade. Mas esse cenário não é exclusivo do período eleitoral. Nem se alterará após a contagem dos votos.

Um levantamento divulgado em agosto pela Sala de Articulação contra Desinformação, assinado por 66 organizações da sociedade civil, laboratórios e instituições de pesquisa, entre elas Conectas, Instituto Marielle Franco, Data Privacy Brasil e InternetLab, analisou as políticas das principais redes sociais, aplicativos de mensagem e ferramentas de inteligência artificial diante das eleições de 2026. Encontrou lacunas nos canais de denúncia, na transparência e nas regras para enfrentar conteúdos produzidos por IA. O estudo recomenda mecanismos permanentes de governança, auditoria, transparência e prestação de contas, e esse é um tema que precisa entrar na agenda de todos os segmentos da sociedade civil.

A desinformação climática e socioambiental, por exemplo, é pouco contemplada pelas políticas das plataformas. Facebook, Instagram, X e LinkedIn não possuem regras específicas para o tema. YouTube e Kwai apresentam medidas parciais. Entre as redes analisadas, apenas o TikTok o aborda explicitamente, inclusive nas regras para publicidade. O documento recomenda políticas próprias para desinformação climática e socioambiental, prevendo medidas que podem ir da contextualização e redução de alcance à desmonetização, restrição de publicidade e remoção de conteúdos.

“Novo negacionismo”: ataque às soluções para a crise climática

A leniência das redes sociais alimenta não só a desinformação. Durante muito tempo, o negacionismo climático esteve fortemente associado à tentativa de desacreditar a própria existência das mudanças do clima ou a responsabilidade humana pelo aquecimento global. Essa narrativa não desapareceu. Mas uma pesquisa publicada em 2025 na revista Global Sustainability, da Cambridge University Press, por pesquisadores da Universidade de Utah, mostra uma mudança importante. Eles analisaram mais de 200 mil publicações feitas no Twitter entre 2021 e 2023 e identificaram o que chamam de “novo negacionismo”. Parte relevante da desinformação já não procura convencer as pessoas de que a mudança climática não existe, mas sim atacar as soluções propostas para enfrentá-la e as pessoas e instituições que as defendem. Energias renováveis são apresentadas como ineficientes ou perigosas. Políticas climáticas aparecem como ameaças econômicas. Seus defensores são acusados de agir por interesse financeiro, político ou por desejo de controlar a sociedade.

A mudança é significativa porque uma política pública pode ser prejudicada mesmo quando existe consenso científico sobre o problema que pretende enfrentar. A mentira não precisa derrotar a ciência. Basta conseguir reduzir a confiança na solução. Esse deslocamento já pode ser observado no Brasil. Um artigo publicado em março deste ano na Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, da Intercom, mapeou a rede de desinformação formada no YouTube durante as queimadas da Amazônia em 2019. Os pesquisadores encontraram a desinformação em posição predominante entre os vídeos mais visualizados do universo estudado, com narrativas voltadas ao enfraquecimento de instituições e da legislação de proteção ambiental.

Cinco anos depois daqueles incêndios, as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul ofereceram outra demonstração do problema. Pesquisas acadêmicas identificaram conteúdos falsos e enganosos circulando durante a emergência, atingindo desde as causas e dimensões do desastre até resgates, doações e a atuação das instituições públicas. Um levantamento do NetLab, laboratório da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontrou 381 anúncios fraudulentos e 51 anúncios com desinformação sobre as enchentes circulando nas plataformas da Meta. 

A economia da desinformação climática

O episódio acrescenta uma dimensão importante: desinformação pode dar dinheiro. Havia falsas campanhas de arrecadação, informações enganosas sobre resgates e narrativas que atribuíam a tragédia a acontecimentos sem qualquer relação causal com o desastre. O NetLab também identificou naquele período vídeos com informações falsas ou negacionismo climático que continuavam monetizados pelo YouTube. Oito vídeos encontrados pelo laboratório acumulavam mais de 2,3 milhões de visualizações e exibiam anúncios vendidos pela plataforma.

O problema não se restringe ao Brasil nem a episódios isolados. Uma pesquisa publicada na Nature em 2024 analisou durante três anos a relação entre sites que divulgam desinformação, anunciantes e plataformas de publicidade digital. A conclusão foi que a publicidade é uma das principais fontes de financiamento desse ecossistema e que os sistemas automatizados de distribuição de anúncios ampliam o fluxo de recursos para sites que publicam desinformação. A pesquisa encontrou ainda outro componente perverso: muitos executivos das empresas anunciantes nem sequer sabiam que suas marcas apareciam nesses ambientes e declararam que prefeririam evitá-los.

No campo climático, uma investigação da Global Witness encontrou anúncios fornecidos pelo Google em páginas do Epoch Times que promoviam negacionismo climático, inclusive em português para o público brasileiro. A organização estimou que, em doze meses, os anúncios poderiam ter gerado aproximadamente US$ 960 mil para o veículo e US$ 450 mil para o Google. São estimativas da organização, calculadas a partir de dados de tráfego e ferramentas de publicidade, e não valores auditados. Ainda assim, a investigação documentou a relação comercial e a presença dos anúncios em páginas com alegações contrárias ao conhecimento científico estabelecido.

A economia da desinformação ajuda a explicar sua persistência. Quem produz conteúdo enganoso pode ganhar audiência, influência, dinheiro ou poder político. Quem distribui pode monetizar atenção e publicidade. E organizações interessadas em corrigir a informação continuam precisando investir recursos para alcançar o mesmo público. Não há provas materiais que permitam acusar as plataformas de criar deliberadamente um modelo para cobrar primeiro pela mentira e depois pelo desmentido. O desenho econômico, porém, produz uma situação desconfortável: a veracidade da mensagem nem sempre está alinhada ao incentivo financeiro de quem ganha com sua circulação. E conteúdos de baixa qualidade informacional podem disputar essa atenção com vantagem.

Outro estudo, publicado em 2025 na Scientific Reports, analisou mais de 20 milhões de publicações relacionadas ao clima feitas entre 2018 e 2022 no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube. Links para fontes consideradas pouco confiáveis apareciam em volume menor, mas obtinham engajamento proporcionalmente superior ao de fontes confiáveis em todas as plataformas analisadas, com exceção do Twitter. Os próprios pesquisadores alertam que não é possível atribuir esse resultado exclusivamente aos algoritmos, porque o comportamento dos usuários também interfere no processo. O dado, ainda assim, mostra o tamanho da disputa pela atenção.

A Amazônia no centro da disputa

Poucos lugares ajudam a compreender as consequências potenciais dessa disputa tão bem quanto a Amazônia. A floresta armazena enormes quantidades de carbono, influencia a circulação de umidade e possui efeito de resfriamento que contribui para a estabilidade do clima. Preservar a floresta exige políticas. Políticas precisam de implementação. Implementação frequentemente depende de confiança e adesão. E o Pará fornece um exemplo concreto de como a desinformação ajuda a retardar a ação.

Lançado em 2023 durante a COP28, o programa estadual de rastreabilidade individual de bovinos e bubalinos pretendia acompanhar a origem e a movimentação dos animais e contribuir para impedir que gado proveniente de áreas desmatadas ou com outras irregularidades entrasse na cadeia produtiva. Pelo cronograma original, os animais em trânsito deveriam estar identificados a partir de janeiro de 2026 e todo o rebanho estadual a partir de janeiro de 2027. Mas em dezembro de 2025, o governo paraense ampliou o prazo para 31 de dezembro de 2030. 

Foram várias as dificuldades na implantação. Problemas operacionais e a dimensão territorial do estado aumentam o desafio. Mas a desinformação esteve entre esses obstáculos. A responsável pelo programa na Adepará contou à reportagem d’((o))eco que circulava entre produtores o temor de que o brinco eletrônico funcionasse como um GPS. Um pecuarista ouvido pelo veículo relatou outras informações falsas, entre elas a alegação de que o equipamento seria tão caro que poderia levar produtores à falência. O mesmo entrevistado descreveu uma partidarização do programa, associado por parte do setor rural a uma agenda ambientalista e, por isso, rejeitado. Resultado: em agosto de 2025, aproximadamente 423 mil animais haviam sido identificados em um universo de cerca de 26 milhões de bovinos, menos de 2% do rebanho. 

Seria inadequado atribuir a mudança do cronograma exclusivamente às fake news. Mas o episódio ilustra perfeitamente o risco que começa a aparecer em diferentes agendas: uma política pode ser tecnicamente consistente, contar com evidências científicas e ainda assim encontrar dificuldade de implementação quando a confiança necessária para sua adoção é corroída. Afinal, quando uma solução depende de adesão, atacar a confiança pode ser tão eficaz quanto atacar a ciência.

Integridade da informação na pauta das organizações

É por isso que o estudo divulgado pela Conectas interessa a organizações que nunca imaginaram trabalhar diretamente com integridade da informação. Uma entidade dedicada à conservação da biodiversidade, à redução da pobreza, à saúde pública, à educação, aos direitos das mulheres ou à promoção da equidade pode considerar que monitoramento de plataformas, desinformação e inteligência artificial pertencem a outra área de atuação. Essa separação tende a ficar cada vez mais difícil.

Se informações falsas conseguem reduzir a adesão a uma política, interferir em uma emergência, desacreditar pesquisadores, atacar uma solução ou modificar a percepção pública sobre uma causa, a integridade da informação passa a afetar diretamente a capacidade de uma organização cumprir sua própria missão.

Isso exige uma mudança de postura. Combater a desinformação não pode ser uma providência improvisada quando uma crise atinge seu campo de atuação. Organizações precisarão aprender a identificar narrativas que ameaçam suas agendas, acompanhar sua circulação, estabelecer redes com pesquisadores e verificadores, preparar informação acessível e confiável, responder com rapidez quando necessário e cobrar das plataformas transparência sobre moderação, publicidade e monetização.

A inteligência artificial tornou mais barato produzir textos, imagens, vozes e vídeos capazes de imitar pessoas e situações. As redes permitem distribuí-los em grande escala. Sistemas publicitários podem financiar sua circulação. Algoritmos operam em ambientes nos quais conteúdos enganosos conseguem disputar atenção com fontes confiáveis. E o novo negacionismo já aprendeu que, quando a existência de um problema se torna difícil de negar, ainda é possível atacar as soluções.

Nem toda informação falsa merece resposta. Nem toda controvérsia é desinformação. Nem todo erro é deliberado. É preciso fazer a distinção para que o combate à desinformação não se desvirtue. Mas ignorar o fenômeno não é mais possível. Para as organizações da sociedade civil, defender sua missão passa a exigir a defesa do ambiente informacional em que ela existe.

Em um mundo em que fica cada vez mais fácil falsear a realidade, defender a ciência e a verdade passa a ser responsabilidade de toda a sociedade.

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Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/08/31/prepare-se-o-combate-a-desinformacao-climatica-vai-fazer-parte-da-agenda-da-sua-organizacao/

Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello

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