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Como a indústria transformou a proteína em um mercado bilionário

Há poucos anos, alimentos ricos em proteína eram associados principalmente ao universo das academias e dos suplementos alimentares. Hoje, o ingrediente ganhou espaço nas prateleiras dos supermercados e aparece em categorias cada vez mais variadas, como achocolatados, aveias, chocolates, barras, bebidas, iogurtes e até cervejas sem álcool. A mudança acompanha um mercado global em expansão e uma n

Há poucos anos, alimentos ricos em proteína eram associados principalmente ao universo das academias e dos suplementos alimentares. Hoje, o ingrediente ganhou espaço nas prateleiras dos supermercados e aparece em categorias cada vez mais variadas, como achocolatados, aveias, chocolates, barras, bebidas, iogurtes e até cervejas sem álcool. A mudança acompanha um mercado global em expansão e uma nova estratégia da indústria de alimentos.

O avanço é impulsionado pelo crescimento do mercado de bem-estar. Segundo o Global Wellness Institute, esse segmento movimentou US$ 6,8 trilhões em 2024, alta de 7,9% em relação ao ano anterior. Desse total, o setor de alimentação saudável, nutrição e perda de peso respondeu por cerca de US$ 1,14 trilhão.

A bebida láctea com whey protein já faz parte da rotina de muitos brasileiros | Foto: Divulgação/ Danone

O crescimento também aparece na indústria de ingredientes. De acordo com a consultoria MarketsandMarkets, o mercado global de ingredientes proteicos — que reúne whey protein, proteínas vegetais, caseína, colágeno e outras matérias-primas utilizadas pela indústria alimentícia — deve movimentar US$ 83,14 bilhões em 2026. A expectativa é que alcance US$ 121,53 bilhões até 2031, com crescimento médio anual de 7,9%.

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Além da mudança de comportamento do consumidor, a popularização dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, também impulsiona a procura por alimentos mais ricos em proteínas. Esses medicamentos reduzem o apetite e aumentam a preocupação com a ingestão adequada de nutrientes. Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), o mercado dessas medicações movimentou R$ 1,6 bilhão em 2025, crescimento de 88% em relação ao ano anterior.

Mercado amplia portfólio

Os reflexos já aparecem nas vendas. Segundo a Euromonitor, os produtos com proteína adicionada devem encerrar 2026 com crescimento de cerca de 50%, enquanto o mercado de barras proteicas acumula projeção de alta de 26% entre 2022 e 2026. Nas bebidas lácteas, levantamento da Nielsen Scantrack, em parceria com a Dunnhumby, revela aumento de 41% no consumo das versões UHT enriquecidas com proteína.

Dados da Scanntech, em parceria com a McKinsey, mostram que o whey protein cresceu 124% no varejo brasileiro entre janeiro e outubro de 2025. No mesmo período, a creatina avançou 89%, acompanhada pelo aumento da procura por cereais proteicos, iogurtes, leites saborizados e produtos destinados ao consumo antes e depois da prática de exercícios.

Lançamento da Nestlé | Foto: Divulgação/ Nestlé

A indústria respondeu rapidamente ao movimento. A Nestlé ampliou a linha NESCAU Protein com uma versão pronta para beber, contendo 15 gramas de proteína por embalagem. Também lançou a Nestlé Aveia Proteína, com 25 gramas de proteína a cada 100 gramas do produto, e, em parceria com a Nutrata, colocou no mercado a barra Charge Proteico, com 11 gramas de proteína, sem adição de açúcar e sem glúten.

A tendência também chegou ao mercado de bebidas. A Ambev lançou a Spaten Pro, apresentada como a primeira cerveja sem álcool proteica da AB InBev no mundo. A bebida contém 10 gramas de proteína por lata de 350 ml e foi desenvolvida durante cinco anos pelo Centro de Inovação e Tecnologia da companhia, no Rio de Janeiro.

Lançamento da Ambev, Spaten Pro | Foto: Divulgação/ Ambev

Nem todo mundo precisa de mais proteína

Apesar da expansão do mercado, especialistas alertam que a maior oferta desses produtos não significa que toda a população precise aumentar o consumo de proteínas.

Segundo a nutricionista Samara Andrade, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos saudáveis obtenham entre 10% e 15% das calorias diárias por meio das proteínas. Ela explica que idosos, atletas de alta performance, pacientes em reabilitação, pessoas desnutridas e alguns outros grupos podem necessitar de uma ingestão maior, mas essa definição deve ser individualizada.

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"Cada indivíduo tem uma demanda energético-proteica diferente", explica a nutricionista. "Ingerir proteínas de modo indiscriminado pode ser uma alternativa não muito inteligente, nem de todo eficaz, tanto nutricional quanto economicamente."

Para a especialista, o crescimento desse mercado também acompanha a popularização das dietas low carb. "Nos últimos 10 a 15 anos, os carboidratos passaram a ser vistos como vilões e as proteínas como salvadoras", conta. "A indústria, não inocentemente, acompanhou essa descoberta pelas proteínas, incentivando esse culto."

Ela ressalta que muitos alimentos classificados como "high protein" continuam sendo ultraprocessados e podem conter elevados teores de açúcares, gorduras saturadas e aditivos. "Nem sempre produtos com selo 'high protein' são necessariamente mais saudáveis", continua. "Esses selos podem mascarar outras carências nutricionais, tornando os alimentos desequilibrados."

Samara também alerta que pessoas com doenças renais ou hepáticas precisam de atenção especial ao consumo excessivo de proteínas. Segundo ela, antes de pagar mais por um alimento enriquecido, o consumidor deve avaliar se ele realmente atende às suas necessidades nutricionais ou se está apenas seguindo uma tendência impulsionada pelo marketing.

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