Crítica liberal destaca limitações humanas
A crítica liberal clássica fundamenta-se na constatação de que o ser humano não possui, nem jamais terá, controle absoluto sobre as ações humanas. Por isso, preços, commodities, escolhas e ações individuais são imprevisíveis em um plano de certeza. Embora seja possível trabalhar com previsões mais prováveis, o controle total é inviável.
A crítica liberal clássica nasce de uma constatação óbvia e, de certa forma, iliberal — se considerarmos que o liberalismo é fruto direto do Iluminismo. O homem não consegue, nem nunca conseguirá, ter o controle absoluto, ou sequer o necessário, para prever, programar ou controlar as ações humanas. Por isso, e daí vem a crítica liberal, preços, commodities, escolhas e ações deliberadas dos indivíduos são completamente imprevisíveis num plano de certeza. É óbvio que podemos trabalhar com previsões mais possíveis, pois, assim como se espera que diante de um precipício um homem livre recue, não se pode descartar num todo, e nem deixar de considerar a possibilidade de que não poucos, por depressão ou loucura, escolheriam pular.
O liberalismo, assim, é um dos pais modernos do ceticismo e da prudência; e não é à toa que existem linhas acadêmicas que consideram o conservadorismo — os céticos políticos e prudentes filosóficos por excelência — filho dessa leva de liberais clássicos. Outra via, porém, considera simplesmente o termo "liberal" um erro de percurso, quando, desde sempre, os tidos "liberais clássicos" eram, na realidade, os mais competentes conservadores. Pessoalmente sou alinhado a essa última linha. O pai do liberalismo, Adam Smith, antes de se ocupar dos costumes da economia em seu maravilhoso Riqueza das Nações, trabalhou intensamente a filosofia moral em Teoria dos Sentimentos Morais, que, para mim, é sua principal e mais profunda obra. Se analisarmos, por exemplo, a Escola de Salamanca, a liberdade é concebida como graça na esteira da teologia escolástica; lá, os homens entendiam a liberdade econômica como fruto sincero e inequívoco da dignidade da pessoa e de sua capacidade racional de ser indivíduo.
Mas para que toda essa aula? Simplesmente para despertar os liberais de nosso tempo para sua herança moral primordial: a humildade ante a realidade. Com o advento da modernidade tardia, e, por que não, pós-modernidade, muitas linhas do liberalismo caíram na eterna sedução do liberalismo progressista de linha voltairiana e diderotiana, a sedução de um racionalismo hiperbólico e egocentrista. Um liberalismo que, na mesma medida que milita pela liberdade irrefreável do mercado e da organicidade inimitável do indivíduo, pensa poder exercer um controle absoluto sobre a moral dos indivíduos e até mesmo sobre a própria existência. Não são poucos que arbitram sobre o que é socialmente certo num grupo, numa cidade, num país, e ainda que abdiquem da força do Estado para impor suas regras de privada, cooptam forças e pressões sociais como qualquer outro revolucionário para conseguirem seus intentos. Esses se autodenominam, muitas vezes, libertários ou anarcocapitalistas. No centro de suas mentes está a mesma doença de qualquer revolucionário de qualquer espécie e ideologia: uma agenda política cega que tem que ser instalada a todo custo.
Mas quero tratar de um “neoproblema” que vejo nesses grupos, a bazófia de achar que suas escolhas e suas medidas definem o todo da existência. E calma, não acredito que seja isso de todo um problema, afinal, em certa medida temos mesmo que agir assim, como donos de nossos passos, como pedreiros de nossas próprias vidas. Isso é meritório, é digno. A isso damos, há séculos, os nomes gostosos de “autonomia”, “autodeterminação” e “ivre-arbítrio”, e se não os exercemos em nossas vidas, com certeza não exerceremos em nenhum lugar mais. Porém, quando tais atitudes autônomas se tornam cegueiras e arrogâncias ante o todo da realidade, o mesmo impulso que nos leva a ser senhores de nossos passos nos deixa completamente em pânico quando começamos a ter que mudar os passos e os caminhos à revelia de nossas vontades.
E nem estou falando aqui de tiranias que escravizam e subordinam os indivíduos. Eu sei, caro liberal de purpurina, imposto é roubo mesmo. Eu também falo disso para todos, já até ensinei meu filho de seis anos a odiar o Estado. Tamo junto nessa. Mas não estou falando desse tipo de imposição. Falo da imposição do inesperado, do tombo dado pela vida, pela Providência, pela graça, ou seja, por forças ou configurações do universo que simplesmente cagam para as nossas capacidades e desejos internos.
Eu posso muito querer correr uma maratona, e, em condições ideais, a força de vontade e a disciplina serão suficientes para chegar lá. Mas pode ser que a aleatoriedade nos mande um câncer de pulmão, e isso é incontrolável; nem mesmo a razão de Descartes ou a pantomima objetivista de Rand conseguiria contornar tal questão. Rand, aliás, passou pelo câncer de pulmão, venceu, porém sete anos depois morreu de insuficiência respiratória; que Deus a tenha.
Muitos casais querem ter filhos, e eles podem controlar, hoje, muitos fatores da concepção; isto é, desde o ato em si, até inseminações artificiais que permitem certas edições que o mero "transar" de outrora não permitiria. Mas bastam um ou dois genes defeituosos, uma ligação ventricular à revelia do que devia ser, e pronto, o controle frondoso que a ciência e os pais tinham há poucas semanas se vai no rio do acaso. E não me venha com o papinho de que "eu não controlo o acaso, mas posso controlar o que fazer com o acaso", pois isso é óbvio: há milênios o homem não consegue prever, controlar e remediar o acaso de um terremoto ou de um ataque de abelhas, mas tem que lidar com as consequências do inesperado. Isso é filosofia de botequim.
Seja política ou econômica, filosófica ou religiosa, se uma ideia perder de vista a percepção da insuficiência do homem ante a realidade, se em algum momento começar a se considerar universalmente autônoma, o passo seguinte tende a ser a queda no brejo do inesperado. O homem, com inteligência artificial ou sem, ainda continuará tendo que lidar com a gravidez inesperada da filha adolescente, com o mioma no sovaco, com a diarreia no metrô e com a “gáia” no casamento. Ao homem, cabe direcionar o seu destino, com virtudes e sabedoria, mas sem a tola pretensão de poder controlar completamente todas as variantes desse caminho. Pois ele inevitavelmente não irá: o homem sequer controla plenamente seu próprio intestino, quanto menos o seu destino. Quando o homem, consciente de sua insuficiência, recusa a performance tola da iluminação coach, ele se torna maduro. Somente um homem consciente da sua fraqueza sabe como lidar com suas tentações, assim como um homem consciente de sua hérnia de disco sabe que jogar vôlei não é uma boa.
E assim, contando com a Providência ou a graça, com a inteligência inventiva ou prudência calculada, o homem insuficiente consegue lidar com o fracasso como um mero tropeço natural; com a doença como um percalço a ser enfrentado; com a morte como a inevitabilidade dolorosa da espécie. Um homem assim chora, se revolta e se deprime, mas, ao contrário dos autossuficientes, costuma se levantar e seguir como uma criança que está aprendendo a andar e não questiona os porquês do universo em deixá-la cair, apenas segue com ou sem respostas, ciente de que, dali um pouco, cairá de novo, e tudo bem, faz parte, é só levantar e andar de novo.
Leia também: "O que a KGB deixou de escrever sobre Cuba", artigo publicado na Edição 332 da Revista Oeste
O post O homem insuficiente apareceu primeiro em Revista Oeste.


