Desastres ambientais têm múltiplas causas, alerta ciência
A ciência aponta que desastres ambientais raramente são causados por um único fator, e que negligenciar as mudanças climáticas distorce o debate sobre suas origens.
Estamos em 2026 e, se você possui um perfil em alguma rede social ou assiste aos noticiários, já foi exposto ao debate sobre o “Super” El Niño. Nove em cada dez especialistas afirmam que ele fará soar as trombetas do apocalipse, trazendo consigo um sem fim de eventos climáticos extremos para os quais o Brasil talvez não esteja preparado.
Mas vamos fazer um exercício de memória: em abril de 2024, o Rio Grande do Sul estava debaixo d’água. Mais de 90% do território do estado foi atingido, com mais de 170 mortes, no que se tornou a maior tragédia ambiental da história gaúcha e uma das maiores do Brasil. Enquanto as pessoas ainda lidavam com as consequências das chuvas extremas, um fenômeno climático já havia sido apontado como culpado: o El Niño.
Mas será que dá pra apostar todas as fichas numa única origem para essas enchentes? Ainda naquele ano, treze cientistas (entre os quais dois brasileiros) publicaram um estudo que buscou compreender o que estava por trás do evento extremo. As principais conclusões mostraram que as mudanças climáticas tornaram o evento duas vezes mais provável, e de 6% e 9% mais intenso; e que o El Niño, também analisado, dobrou esta probabilidade e deixou as chuvas entre 3% e 10% mais intensas.
Reparem, não foi só o El Niño; pelo contrário, os impactos do aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial se somaram aos do aquecimento global, causado pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento.
Então por que se fala do El Niño como o único culpado? Parte da explicação pode vir da comodidade. É um nome que todo mundo já ouviu, e que traz uma explicação que cabe numa frase. Muito mais fácil do que dizer: “bom, aqui interagem uns seis ou sete fatores diferentes, e a ciência ainda está tentando entender o peso de cada um”. Porque é isso que a ciência do clima faz; ela tenta montar o grande quebra-cabeça que é o clima, peça por peça, estudando como operam os sistemas que regem o clima no mundo inteiro e analisando também as causas por trás das alterações nos padrões meteorológicos.
Uma das áreas mais recentes da ciência climática, a atribuição de eventos extremos, busca responder a uma pergunta bem específica: em um furacão, em uma seca, em uma onda de calor, quanto se deve ao aquecimento causado pelo ser humano e quanto a fenômenos naturais, como o El Niño? Friederike Otto, uma das fundadoras do grupo World Weather Attribution (WWA), explica que os cientistas comparam o mundo em que vivemos com uma versão simulada (ou centenas, ou milhares) onde não há interferência humana no clima. Aí, perguntam: nesse mundo, tal evento aconteceria com que frequência? E com qual intensidade?
A pergunta sobre como as águas aquecidas do Pacífico conseguem mudar o clima em outro lugar do planeta encontra resposta nas chamadas teleconexões: padrões de vento, de pressão e de correntes oceânicas que carregam o efeito de uma mudança regional para lugares bem distantes dela. Tudo funciona como uma grande teia que envolve a Terra. Toca um fio aqui, e a vibração chega, com força variável, a fios bem distantes. Essa vibração pode se transformar em chuva no Rio Grande do Sul e, ao mesmo tempo, em seca na Amazônia. Agora imagine também que tem outra força esticando essa teia, cada vez mais, mas que não vem de nenhum fenômeno natural.
Estudos recentes indicam que as mudanças climáticas estão ativamente influenciando fenômenos naturais como o El Niño, alterando seu comportamento, duração e até a extensão geográfica de seus efeitos. Pesquisadores cruzaram décadas de dados para identificar que o risco de ondas de calor e de chuvas extremas cresceu em todo o mundo, com forte influência da atividade humana sobre as anomalias meteorológicas. Outra publicação revelou ainda a possibilidade de o El Niño deixar de ser um evento passageiro após 2100, caso as emissões de gases de efeito estufa continuem a crescer. Nesse cenário, o Pacífico equatorial entraria num estado de aquecimento permanente, provocando anomalias nos padrões de chuva e seca, que hoje são associadas aos anos de El Niño, de forma constante e ininterrupta.
Essas evidências apontam para um novo entendimento dos gatilhos que desencadeiam eventos climáticos extremos. Além de analisar a probabilidade da interferência de fenômenos naturais e da mudança do clima em um determinado episódio, cientistas agora buscam compreender como a própria mudança do clima está aumentando a frequência e a intensidade desses fenômenos.
No Rio Grande do Sul, caso que abre este texto, os dois fenômenos tiveram influência quase idêntica sobre o episódio. Ou seja, o El Niño atuou em um clima já desequilibrado e sobre um território vulnerável, resultando no desastre socioambiental que acompanhamos.
No entanto, ao mesmo tempo em que o mundo vive uma crescente de eventos climáticos extremos, cresce também a resistência à ciência. Em junho de 2026, durante a reunião intermediária da ONU (que prepara o terreno para a COP), um grupo de países denunciou publicamente os “ataques coordenados” à ciência climática. Alguns países, como Arábia Saudita e Índia, chegaram a questionar diretamente as discussões técnicas, incluindo a meta de 1,5°C do Acordo de Paris e o papel do IPCC, evidenciando o desafio político no espaço que deveria discutir como fazer o melhor uso da ciência para apoiar a tomada de decisões, e não se ela deveria ser levada em consideração.
Em meio a guerras que custam bilhões aos cofres públicos e a fortes tensões geopolíticas, estamos acompanhando um esforço ativo e orquestrado para enfraquecer a reputação da ciência climática, inclusive distorcendo os argumentos para relacionar perdas econômicas a compromissos ambientais. E talvez o ato de jogar tudo em cima do El Niño possa ser parte da mesma estratégia, em um discurso criado em outros lugares e que, assim como as teleconexões, reverberam tão fortemente por aqui.
O El Niño que se formou pode (e muito provavelmente vai) trazer consequências reais para o Brasil. Isso é informação científica bem estabelecida e vale a pena levar a sério. Mas da próxima vez que você ouvir ou ler que tudo é culpa do “Super” El Niño, sem citar as mudanças climáticas entre as causas, talvez seja um bom momento para se perguntar qual o objetivo dessa afirmação.
Importante reforçar: a ciência do clima não trabalha com uma única causa, mas sim com um sistema inteiro, interligado e cheio de peças que se empurram ao mesmo tempo. Abrir mão dessa complexidade, especialmente no debate político, pode levar a decisões que expõem ainda mais os territórios e suas populações a uma maior vulnerabilidade diante dos efeitos de um planeta em desequilíbrio.
Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/07/30/nem-tudo-e-culpa-do-super-el-nino/
Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello
