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Emirados Árabes Unidos reconfiguram geopolítica no Oriente Médio

A decisão dos Emirados Árabes Unidos (EAU) de deixar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) a partir desta sexta-feira, 1º, provocou um abalo no cartel e sinalizou uma mudança mais ampla no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio, em meio à guerra com o Irã. O movimento reflete um novo alinhamento regional, com os EAU intensificando a cooperação em segurança com Israel, em um

A decisão dos Emirados Árabes Unidos (EAU) de deixar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) a partir desta sexta-feira, 1º, provocou um abalo no cartel e sinalizou uma mudança mais ampla no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio, em meio à guerra com o Irã.

O movimento reflete um novo alinhamento regional, com os EAU intensificando a cooperação em segurança com Israel, em uma ruptura com divisões históricas entre o mundo árabe e o Estado judeu.

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Segundo fontes ouvidas pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal (WSJ), Israel enviou ao país o sistema de defesa antimísseis Iron Dome, além de militares para operá-lo — iniciativa inédita entre países árabes.

A Opep, que hoje reúne grandes produtores de petróleo no mundo, foi fundada em 1960, em Bagdá, no Iraque | Foto: Reprodução/Wirestock/Freepik

O anúncio de saída da Opep aconteceu no momento em que líderes do Golfo se reuniam em território saudita em uma tentativa de demonstrar unidade. De acordo com autoridades emiradenses, a decisão foi deliberadamente planejada para causar impacto e reforçar a primazia dos interesses nacionais.

Além da Opep, o país também discute internamente sua participação em organismos como a Liga Árabe e a Organização da Cooperação Islâmica, embora não haja previsão de novas retiradas no curto prazo, segundo o WSJ.

Há, ainda, fatores econômicos. As cotas impostas pelo cartel limitavam cerca de 30% da capacidade de produção dos Emirados, em um momento de pressão sobre receitas ligadas a turismo e negócios.

Estreito de Ormuz, um estreito entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, visto do espaço (elementos desta imagem fornecidos pela NASA) | Foto: Shutterstock

Fora da Opep, o país passa a ter maior flexibilidade para ampliar a produção e investir em rotas alternativas de exportação que contornem o Estreito de Ormuz, afetado por ações militares recentes.

Emirados Árabes Unidos buscam maior protagonismo regional

A guerra dos EUA e Israel contra o Irã abriu espaço para que os Emirados, uma federação de monarquias com elevada capacidade financeira, busquem maior protagonismo regional, reduzindo a dependência política e estratégica da Arábia Saudita.

O conflito também alterou a percepção de risco do governo emiradense. O Irã lançou cerca de 2,8 mil drones e mísseis contra o país — volume superior ao direcionado a outros alvos, incluindo Israel. Apesar da disposição dos EAU em responder militarmente, aliados regionais adotaram postura mais cautelosa.

Xeique Maomé bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos, e o presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington DC, em maio de 2017 | Foto: Divulgação/Casa Branca/Shealah Craighead

Diante desse cenário, Abu Dhabi aprofundou sua parceria com os Estados Unidos e reforçou a relação com Israel, estabelecida há cerca de cinco anos, mesmo com a resistência de parte do mundo árabe diante dos conflitos em Gaza, no Líbano e no próprio Irã.

“Uma das conclusões dessa reavaliação é que a Opep não se ajusta mais a um país assertivo e independente como os Emirados”, afirmou o cientista político Abdulkhaleq Abdulla ao WSJ.

O governo dos Emirados afirma que a decisão foi baseada no interesse nacional e na necessidade de atender à demanda global por petróleo. Em Washington, o presidente Donald Trump disse que a medida pode contribuir para a redução dos preços de energia.

Bandeira dos Emirados Árabes Unidos com a cidade de Abu Dhabi ao fundo | Foto: Reprodução/Suji Su/Pexels

Desde a descoberta de petróleo nos anos 1950 e a independência, em 1971, os Emirados se consolidaram como um centro global de finanças, turismo e tecnologia, com destaque para Dubai e Abu Dhabi. Nos últimos anos, sob a liderança do xeque Mohammed bin Zayed, o país também ampliou sua atuação militar e sua presença em conflitos regionais.

Apesar de possuir um efetivo militar menor que o de outros países da região, os Emirados projetam influência por meio da aquisição de armamentos avançados, exportações militares e atuação indireta em conflitos, como no Iêmen e na Líbia.

A aproximação com Israel ganhou força diante da normalização das relações diplomáticas mediada pelos Estados Unidos. O acordo abriu espaço para cooperação militar e tecnológica.

O Irã expôs ao mundo a desconexão entre países que aparentemente pertenciam ao mesmo bloco árabe — como Catar, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes e Arábia Saudita | Foto: Shutterstock

Durante o atual conflito, Israel enviou uma bateria do Iron Dome ao território emiradense — a primeira vez que o sistema foi instalado fora de seu território — com militares israelenses atuando na operação.

O aprofundamento dessa parceria ampliou as divergências com países vizinhos. A Arábia Saudita, que chegou a considerar aderir ao acordo com Israel, recuou diante da escalada do conflito em Gaza. As tensões regionais também foram agravadas por ações militares israelenses em outros países do Golfo.

Embora aliados formais, EAU e Arábia Saudita disputam influência regional e competem economicamente. Os sauditas buscam diversificar sua economia e reduzir a dependência do petróleo, ao mesmo tempo em que tentam rivalizar com Dubai como polo de negócios.

Salman bin Abdulaziz al-Saud, o rei da Arábia Saudita | Foto: Reprodução

Parte da divergência entre os dois países se dá no âmbito da Opep: enquanto os sauditas defendem restrições para sustentar preços elevados, os Emirados buscam ampliar sua produção, hoje limitada pelas regras do cartel.

Antes da guerra, o Irã já tentava explorar essas diferenças, sinalizando que eventuais retaliações atingiriam com maior intensidade os EAU. Com o conflito em curso, Teerã intensificou ataques e restringiu o tráfego no Estreito de Ormuz, provocando forte impacto no mercado global de petróleo.

Os Emirados foram alvo de ataques a instalações petrolíferas, portos e áreas urbanas, o que afetou, por semanas, o funcionamento do Aeroporto de Dubai, um dos mais movimentados do mundo.

O moderno Aeroporto de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos | Foto: Bent Gonza/Google Imagens

Ao longo do conflito, divergências se acentuaram entre Abu Dhabi e países como Arábia Saudita e Omã, que passaram a defender soluções diplomáticas. Os Emirados adotaram postura mais dura, com o fechamento de instituições iranianas, cancelamento de vistos e ameaça de congelamento de ativos.

Já a Arábia Saudita condenou os ataques, mas manteve relações econômicas com o Irã e evitou apoiar medidas mais incisivas no âmbito internacional.

Historicamente, os países do Golfo adotaram uma estratégia de contenção em relação ao Irã, ao mesmo tempo em que dependiam do apoio dos Estados Unidos. Apesar de iniciativas de cooperação em defesa, a guerra expôs fragilidades na coordenação regional.

Navios de carga no Golfo, perto do Estreito de Ormuz , vistos do norte de Ras al-Khaimah, próximo à fronteira com a região administrativa de Musandam, em Omã, em meio ao conflito entre os EUA e Israel com o Irã — 11/3/2026 | Foto: Stringer/File Photo/Reuters

Depois do cessar-fogo anunciado em abril, autoridades emiradenses passaram a criticar publicamente a atuação de seus vizinhos. O assessor diplomático Anwar Gargash afirmou que a posição do Conselho de Cooperação do Golfo é “a mais fraca da história”.

“A defesa nacional é essencial, mas a solidariedade do Golfo não correspondeu ao desafio”, disse.

Para os analistas ouvidos pelo WSJ, o cenário abre espaço para uma atuação mais independente dos Emirados na região. “Mohammed bin Zayed busca um papel relevante e autônomo na política regional e internacional”, afirmou o especialista Gregory Gause.

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Fonte: Revista Oeste · Por Isabela Jordão

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