Humildade radical e as lições das urnas
Por André Naves* É preciso humildade radical para escutar as urnas. Escutar, não ouvir. Enquanto ouvimos fisicamente, escutamos com a razão, com a sensibilidade. E a verdade é que não houve ambiguidade. As urnas falaram: foi uma vitória contundente, histórica, que desautoriza todas as certezas dos que se diziam donos da verdade. Quem apostou que o povo pensava como os editores dos jornais, com
Por André Naves*
É preciso humildade radical para escutar as urnas. Escutar, não ouvir. Enquanto ouvimos fisicamente, escutamos com a razão, com a sensibilidade. E a verdade é que não houve ambiguidade. As urnas falaram: foi uma vitória contundente, histórica, que desautoriza todas as certezas dos que se diziam donos da verdade. Quem apostou que o povo pensava como os editores dos jornais, como os formadores de opinião, como os gabinetes, perdeu.
É exatamente porque o resultado foi tão eloquente que ele exige de todos nós uma humildade radical. De todos. Não dos vencidos apenas. De todos. Dos que venceram e dos que perderam. Dos de direita e dos de esquerda. Dos mais conservadores e dos mais liberais. De todos nós, que pretendemos enxergar a sociedade e construí-la mais justa, mais livre, mais inclusiva. De todos nós, que nos preocupamos com Direitos Humanos, com inclusão social, com Justiça.
É que, no fim, a tentação dos vencedores é entender a vitória como mandato para tudo, como cheque em branco, como licença para governar só para os seus. E a tentação dos vencidos é a da negação e do preconceito: explicar o resultado chamando o povo de desinformado, de manipulado, de errado. As duas tentações nascem da mesma arrogância: a de que o povo deve ser conduzido, ensinado. Na verdade, o povo possui uma voz a ser escutada, e devemos estar atentos às lições dela.
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Há um pensador norte-americano, James Surowiecki, que dedicou um livro inteiro a essa questão: "A sabedoria das multidões". Sob certas condições — diversidade de perspectivas, independência de opinião, conhecimento descentralizado e um modo de agregar os julgamentos —, a multidão decide melhor do que qualquer especialista isolado. Não é que o especialista não saiba nada. É que ele enxerga de um lugar só. A multidão enxerga de todos os lugares ao mesmo tempo.
O resultado das urnas
O resultado das urnas é exatamente isso: o modo de agregar que transforma milhões de julgamentos particulares — cada um enraizado na experiência concreta de uma vida — em decisão coletiva. E quando a multidão decide com essa clareza, com essa contundência, desprezar o resultado é arrogância. É acreditar que milhões de brasileiros não sabem o que fazem.
Sabem, sim. Estão tentando nos dizer o que querem. Porque o que as urnas registraram foi um grito de socorro.
"O povo não quer ser afogado em tantos tributos"
O brasileiro médio está pedindo socorro. Quer liberdade para trabalhar e empreender, sem as amarras burocráticas que transformam o sonho do próprio negócio em labirinto de licenças, alvarás e exigências. O povo não quer ser afogado em tantos tributos. Quer liberdade para produzir, para trabalhar, para se desenvolver com autonomia.
Quer, também, que sua religiosidade e seus valores sejam tratados com respeito — não com preconceito e desdém. Também quer liberdade religiosa, e não o uso eleitoreiro da fé: que ninguém use sua crença, nem zombe dela. Quer serviços públicos de qualidade — escola que ensine, posto que atenda, estrada sem buracos —, e não serviços carcomidos pela corrupção, pelos desvios, pela ineficiência.
O brasileiro quer, sobretudo, que todos sejam igualmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas palavras. Sem favorecimentos, sem privilégios, sem aquela sensação antiga de que a lei é só para os inimigos. Os amigos desfrutam dos favores estatais. E quer ser livre. Não cativo. Não escravo. Não refém do crime organizado, que cobra pedágio pelo direito de viver em paz. Quer trabalhar, consumir e viver em paz, sem preconceitos, sem favorecimentos, sem arrogância. Querem a liberdade. Liberdade!
Humildade para escutar
Ou seja, é necessário humildade para escutar e aprender. E quem se recusa a escutar o que a multidão está clamando, porque a multidão não pensa como ele, despreza justamente a diversidade que, como ensina Surowiecki, torna a decisão coletiva mais inteligente do que qualquer torre de marfim.
O povo está tentando nos ensinar. Está tentando nos transmitir uma lição que a nossa política insiste em não aprender: liberdade para trabalhar e proteção contra o crime. Menos impostos que algemam e mais eficiência no gasto que liberta. Fé respeitada e direitos protegidos. Todos iguais perante a lei e ninguém refém de ninguém.
Precisamos de humildade radical — todos nós — para aprender o que o povo quer, o que o povo está tentando nos ensinar. Humildade para escutar e aprender. Coragem para corrigir e mudar. E esperança para transformar, para avançar sem excluir ninguém. Humildade para evoluir.
*André Naves. Defensor público regional de Direitos Humanos em São Paulo. Especialista em inclusão social, Direitos Humanos e economia política. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador cultural. Escritor e professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.de
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