Impasse no IPCC ameaça nova rodada de relatórios sobre o clima
Lançamento dos próximos relatórios do IPCC pode atrasar por divergências sobre revisão técnica e acusações de politização do tema da equidade.
Os integrantes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) se reúnem nesta semana em Adis Abeba, na Etiópia, para destravar a aprovação do cronograma do 7º relatório de avaliação (AR7, sigla em inglês). Depois de três anos de divergências, muitos cientistas entendem que o encontro é a última oportunidade para o IPCC manter sua previsão inicial de publicar os primeiros documentos até novembro de 2028, antes da COP32, que definirá o próximo Balanço Global (Global Stocktake, ou GST) sob o Acordo de Paris.
Mas segundo a Reuters o panorama não é promissor. Os impasses que travaram as conversas nos últimos anos continuam na mesa. Enquanto os países mais pobres e vulneráveis defendem um processo de revisão mais ágil, que permita ao IPCC contribuir a tempo para as discussões sobre o próximo GST, um grupo de países petroleiros e emergentes quer o adiamento das primeiras publicações para 2029 para que haja maior participação do Sul Global na revisão técnica dos relatórios.
As divergências evidenciam que o IPCC, formado por cientistas, mas dependente da autoridade dos governos, também está sendo afetado pelos mesmos impasses que travam as negociações da Convenção-Quadro da ONU sobre o Clima (UNFCCC). Um exemplo disso está na própria argumentação dos países que defendem o adiamento da publicação do AR7 para 2029, alegando que a revisão dos relatórios precisa seguir o princípio da equidade — uma pauta cara aos movimentos de Justiça Climática e aos países mais pobres e vulneráveis.
As nações defensoras do adiamento dizem ser importante que os processos do IPCC considerem as perspectivas da ciência e dos cientistas dos países em desenvolvimento, que enfrentam dificuldades estruturais para participar efetivamente na elaboração dos relatórios de avaliação. Sobre o cronograma do AR7, eles refutam a necessidade de alinhamento com as negociações da UNFCCC nas COPs do Clima, assinalando que o Painel não deve se submeter a processos de terceiros e que uma sincronização poderia pôr em risco o caráter independente do órgão.
Mas essa argumentação é duramente criticada pela sociedade civil global e por representantes dos países mais pobres e vulneráveis. Para eles, a equidade está sendo instrumentalizada por países como Arábia Saudita, Índia e Rússia para atrasar a publicação do AR7 para depois do próximo GST, o que enfraqueceria as considerações a serem feitas pelos países nesse processo. Segundo eles, a articulação é mais um esforço das nações petrolíferas para enfraquecer a posição da ciência nas negociações climáticas da ONU.
“É extremamente preocupante a forma como a questão estrutural da equidade vem sendo instrumentalizada por alguns grandes países em desenvolvimento. É verdade que os modelos de avaliação integrada [da ciência climática] são construídos principalmente por países do Norte Global e, portanto, são enviesados. [Mas] esse não é um problema que possa ser resolvido simplesmente dando ao IPCC mais alguns meses para trabalhar. Não podemos nos dar ao luxo de sair de Addis Abeba sem uma decisão [de prosseguir com o cronograma de 2028]”, disse Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima (OC), ao Guardian.
A Folha também repercutiu a situação.
Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/10/13/impasse-no-ipcc-ameaca-nova-rodada-de-relatorios-sobre-o-clima/
Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello
