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Indignação de aluguel da imprensa

A Justiça chinesa acaba de condenar o artista Gao Zhen, de 70 anos, a três anos de prisão por esculturas que satirizavam Mao Tsé-tung – obras de quase duas décadas, agora enquadradas retroativamente numa lei de 2021 sobre “honra de heróis e mártires”. Um homem apodrece na cadeia por retratar um tirano de joelhos. É bom lembrar desse episódio porque ele revela, com precisão, o que exatamente um m

A Justiça chinesa acaba de condenar o artista Gao Zhen, de 70 anos, a três anos de prisão por esculturas que satirizavam Mao Tsé-tung – obras de quase duas décadas, agora enquadradas retroativamente numa lei de 2021 sobre “honra de heróis e mártires”. Um homem apodrece na cadeia por retratar um tirano de joelhos. É bom lembrar desse episódio porque ele revela, com precisão, o que exatamente um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) disse admirar há pouco mais de um ano.

Durante o julgamento do Marco Civil da Internet, Gilmar Mendes afirmou com a desfaçatez que lhe é característica: “Nós todos somos admiradores do regime chinês, né, do Xi Jinping”. Ninguém no plenário se levantou. Ninguém se constrangeu. Barroso apenas corrigiu a atribuição da citação sobre a irrelevância da cor dos gatos na perseguição aos ratos – era de Deng Xiaoping, não de Xi –, como quem ajusta uma nota de rodapé, sem jamais questionar o cerne do comentário.

Gilmar Mendes, ministro do STF | Foto: Carlos Alves Moura/STF

E, fora do plenário, o silêncio foi igualmente ensurdecedor: nenhuma manchete escandalosa, nenhum especialista convocado para explicar ao país os riscos de um ministro da mais alta corte elogiar publicamente uma ditadura. Tudo reportado com grande naturalidade, a mesma naturalidade com que se noticia que ministros do STF fazem articulação política, ameaçam parlamentares para que não apoiem esse ou aquele candidato, julgam adversários políticos e críticos em processos judiciais fraudulentos.

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Esse silêncio não é acidente. Ele é o maior sinal da hegemonia cultural de esquerda no país. A indignação da imprensa brasileira é escandalosamente seletiva: nunca desperta diante de opiniões grotescas vindas da esquerda, apenas diante de opiniões legítimas ou de constatações banais vindas do lado oposto.

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Basta um político de direita dizer que o narcoterrorismo exige resposta de guerra, que um homem fantasiado de mulher não é mulher, que o STF não está acima das leis brasileiras, que o 8 de janeiro não foi tentativa de golpe, para que tipos como Natuza Nery, Flávia Oliveira, Miriam Leitão, Octavio Guedes, Marcelo Lins, Andreia Sadi, Valdo Cruz, Renata Vasconcellos, César Tralli e que tais componham o semblante de profundo pesar, como se anunciassem uma tragédia nacional.

Esses mesmos atores, que já performaram tanto que passaram a acreditar nos próprios personagens, são os que ignoram solenemente, por outro lado, declarações e condutas genuinamente perigosas, vindas de quem detém poder de verdade. Desse tipo, o Jornal Nacional não trata. Prefere o silêncio – ou pior, a cumplicidade travestida de sobriedade editorial.

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A frase de Gilmar não foi deslize, mas confissão explícita de um método de governança – o mesmo que o Brasil pós-Bolsonaro já vem aplicando na prática: prisões decretadas sem devido processo, investigados que viram réus sem acusação formal, perfis suspensos, big techs constrangidas por decisões monocráticas, um inquérito das fake news que dura seis anos sem prazo nem objeto.

Tudo em nome da “defesa da democracia”, eufemismo que em Pequim se chama “harmonia social”. E a imprensa, tão pronta para se escandalizar com a verdade dita em voz alta, mantém diante disso a cara de paisagem. É a assinatura mais clara de que sua indignação nunca foi por princípio, mas por cálculo político-eleitoral.

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