Invasão russa faz desaparecer milhares de crianças ucranianas, dizem relatórios
Enquanto os combates entre Rússia e Ucrânia continuam, outro conflito ocorre fora das frentes de batalha. Desde fevereiro de 2022, milhares de crianças ucranianas sumiram dos registros oficiais e foram inseridas em um sistema que, de acordo com relatórios internacionais, envolve deportação, mudança de identidade, doutrinação ideológica, militarização e assimilação forçada. Investigações indicam qu
Enquanto o mundo acompanha diariamente o avanço da guerra entre Rússia e Ucrânia, outro conflito se desenrola longe das trincheiras e dos ataques com mísseis. Desde o início da invasão em larga escala pelos russos em fevereiro de 2022, milhares de crianças desapareceram dos registros ucranianos e foram inseridas em um sistema que, segundo sucessivos relatórios produzidos por organismos internacionais, combina deportações, alterações de identidade, doutrinação ideológica, militarização e assimilação forçada. Segundo as investigações, a Rússia não pretende apenas ocupar territórios. Também disputa a próxima geração de ucranianos.
Uma missão independente criada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) mostrou que 1,6 milhão de crianças vivem hoje sob controle russo em territórios ocupados e descreveu um sistema organizado para substituir sua identidade nacional, impor lealdade ao Estado russo e prepará-las para o serviço militar. Para os especialistas da missão, o conjunto dessas práticas pode configurar crime contra a humanidade na modalidade de perseguição, além de reunir indícios de crimes de guerra.
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Embora as deportações tenham chamado atenção internacional desde os primeiros meses da guerra, a documentação produzida ao longo dos últimos quatro anos mostra que elas representam uma etapa de um processo mais amplo. Crianças retiradas dos territórios ocupados recebem cidadania russa, têm nomes e documentos alterados, estudam em escolas que adotam exclusivamente o currículo russo, deixam de aprender o idioma ucraniano, participam de programas de patriotismo estatal e, em muitos casos, são inseridas em organizações juvenis voltadas ao treinamento militar. Para investigadores internacionais, a guerra alcançou também a identidade de quem irá habitar esses territórios nas próximas décadas.
Mais de 50 países integram a Coalizão Internacional para o Retorno das Crianças Ucranianas, criada em resposta a esse fenômeno. A iniciativa parte de uma premissa incomum em conflitos armados: devolver fisicamente uma criança não significa necessariamente devolvê-la ao país. Depois de anos submetidas ao isolamento, à propaganda, à ruptura de vínculos familiares e à tentativa de assimilação cultural, muitas precisam reconstruir praticamente toda a própria identidade antes de retomarem a vida.
Muito além da deportação
A retirada de crianças dos territórios ocupados foi um dos primeiros aspectos da guerra a mobilizar a atenção internacional. Ao longo dos últimos quatro anos, porém, a documentação reunida por organismos internacionais indicou que a deportação representa a porta de entrada de um processo mais abrangente. O briefing preparado pela Coalizão Internacional para o Retorno das Crianças Ucranianas sustenta que as transferências fazem parte de uma política de assimilação forçada, na qual menores são separados de suas famílias, levados para a Rússia, Belarus ou outras áreas ocupadas e submetidos a uma sucessão de medidas destinadas a romper seus vínculos com a Ucrânia.
Segundo o documento, esse processo envolve a alteração de nomes e registros civis, a emissão de novos documentos, a imposição da cidadania russa e, em determinados casos, a entrega das crianças para famílias adotivas ou instituições estatais russas. Investigadores afirmam ainda que Moscou dificulta deliberadamente a localização desses menores ao modificar dados pessoais, transferi-los repetidamente entre diferentes regiões e restringir o acesso de organizações internacionais. Muitas famílias deixam de saber onde seus filhos estão, enquanto autoridades ucranianas enfrentam obstáculos crescentes para confirmar identidades e organizar operações de retorno.
A dimensão do fenômeno aparece também nos números. O relatório da missão independente da OSCE divulgado em julho de 2026 informa que quase 21 mil crianças haviam sido oficialmente identificadas pela Ucrânia como deportadas ou transferidas à força até o período do levantamento. Apenas pouco mais de 2,4 mil conseguiram retornar. A missão estima ainda que aproximadamente 1,6 milhão de crianças vivem hoje sob controle russo nos territórios ocupados, tornando praticamente impossível mensurar quantas ainda podem ter sido submetidas a processos semelhantes.
A escola como instrumento de ocupação
Se a deportação representa a ruptura física com a Ucrânia, a escola aparece nos relatórios como o principal instrumento para consolidar essa separação. O relatório temático do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR), que analisa o período entre fevereiro de 2022 e dezembro de 2025, conclui que todas as escolas localizadas nos territórios ocupados adotam exclusivamente o currículo russo desde o ano letivo de 2022–2023. Livros didáticos ucranianos foram confiscados, plataformas digitais de ensino bloqueadas e instituições que mantinham aulas em língua ucraniana receberam prazo para encerrar suas atividades.
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A mudança, porém, não se restringiu ao conteúdo das disciplinas. Os documentos descrevem a introdução obrigatória de cerimônias patrióticas, programas permanentes de educação cívica voltados à exaltação do Estado russo e classes de formação militar desde os primeiros anos escolares. Crianças participam de atividades ligadas a organizações juvenis pró-Kremlin, enquanto adolescentes recebem treinamento em manejo de armas, operação de drones, medicina tática e outras competências normalmente associadas à preparação militar. A missão da OSCE aponta a educação como um mecanismo de consolidação da ocupação e de formação de lealdade política às autoridades russas.
Os relatórios mostram ainda que famílias que resistem a esse processo enfrentam crescente pressão administrativa. Pais que se recusam a matricular os filhos nas escolas russas podem ser ameaçados com multas, perda do poder familiar ou encaminhamento aos serviços de tutela. Professores e estudantes que insistem em utilizar material didático ucraniano também são alvo de buscas, interrogatórios e outras formas de intimidação. Para os investigadores internacionais, o ambiente escolar funciona como um dos principais espaços de reconstrução da identidade das crianças sob ocupação.
O apagamento da identidade
Um dos aspectos mais sensíveis descritos pelos documentos internacionais diz respeito à tentativa de substituir formalmente a identidade civil das crianças. O material elaborado pela Coalizão Internacional e os relatórios ucranianos apontam que a emissão compulsória de cidadania russa, a alteração de documentos pessoais e as adoções por famílias russas não representam medidas administrativas isoladas, mas etapas de uma política destinada a dificultar futuras reunificações familiares e consolidar a assimilação cultural.
O relatório “Abduction and Deportation of Ukrainian Children”, divulgado em novembro de 2025, afirma que dezenas de milhares de crianças receberam cidadania russa entre 2022 e 2023. Segundo o documento, sem passaporte russo muitas delas deixam de ter acesso a serviços públicos, assistência médica e educação nos territórios controlados por Moscou.
A adoção de novos registros civis também torna mais difícil comprovar a identidade original dessas crianças ucranianas e localizar parentes biológicos. Para os autores do relatório, a cidadania cumpre múltiplas funções: legitimar juridicamente a ocupação, impedir o retorno das crianças e reforçar um processo de assimilação cultural de longo prazo.
Os casos individuais ajudam a ilustrar esse mecanismo. Entre eles está o de Marharyta Prokopenko, retirada ainda bebê de um hospital em Kherson, adotada posteriormente por um político russo e registrada com outro nome. O relatório também relata a história dos irmãos Bohdan e Yulia, levados de um abrigo infantil durante a ocupação da região de Kherson. Enquanto Bohdan teve seu paradeiro posteriormente identificado, Yulia desapareceu dos registros oficiais, tornando-se um dos inúmeros casos em que a alteração documental e a fragmentação das famílias dificultam qualquer tentativa de reconstrução da trajetória dessas crianças.
A difícil volta para casa
Se localizar uma criança já representa um desafio internacional, devolvê-la ao convívio familiar tornou-se uma operação que mobiliza governos, organizações humanitárias, especialistas em inteligência de fontes abertas (OSINT), advogados e equipes de assistência psicossocial. Segundo o briefing da Coalizão Internacional, não existe um modelo único de resgate. Cada caso exige a confirmação da identidade da criança, recuperação de documentos, verificação de vínculos familiares, definição de rotas seguras por diferentes países e coordenação diplomática para atravessar fronteiras. Em muitos episódios, quando os canais oficiais permanecem bloqueados, as chamadas missões organizadas por organizações da sociedade civil tornam-se o principal instrumento para viabilizar o retorno.
O custo dessas operações também revela a complexidade do processo. De acordo com a Coalizão, uma missão pode custar aproximadamente 1 mil euros, chegando a 10 mil euros nos casos mais delicados, que envolvem múltiplos deslocamentos internacionais ou obstáculos documentais. Entre as entidades que participam dessas operações estão organizações como Save Ukraine, Helping to Leave, Ukrainian Child Rights Network, Pluriton, Humanity e Freedom House Lithuania, responsáveis por diferentes etapas da localização, transporte e acolhimento das crianças.
Mas o retorno físico representa apenas a primeira etapa de um processo longo. Os documentos afirmam que muitas crianças regressam depois de anos de isolamento, separação familiar, propaganda estatal e militarização. Algumas deixaram de utilizar o idioma ucraniano, outras se identificam como cidadãs russas ou perderam referências importantes sobre sua própria história. Por isso, a política desenvolvida pela Ucrânia prevê acompanhamento psicológico, reinserção escolar, assistência social, reconstrução dos vínculos familiares e recuperação gradual da identidade nacional. Como resume a Coalizão Internacional: “O retorno físico é apenas o início”.
Quando a infância chega aos tribunais internacionais
Com a publicação de novos relatórios, a questão das crianças ucranianas ganhou posição central nas investigações sobre possíveis violações do Direito Internacional Humanitário. Em março de 2023, o Tribunal Penal Internacional (TPI) expediu mandados de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, e a comissária presidencial para os Direitos da Criança, Maria Lvova-Belova, sob a acusação de responsabilidade pela deportação e transferência ilegal de menores dos territórios ocupados da Ucrânia. Desde então, sucessivos organismos internacionais produziram investigações independentes que ampliaram o conjunto de evidências sobre a política adotada nos territórios sob controle russo.
Em março de 2026, a Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU sobre a Ucrânia concluiu que autoridades russas cometeram crimes contra a humanidade por meio da deportação, da transferência forçada e do desaparecimento de crianças ucranianas. Poucos meses depois, a missão independente da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), criada no âmbito do Mecanismo de Moscou, acrescentou um novo elemento ao debate ao afirmar que o processo sistemático de doutrinação e militarização imposto às crianças nos territórios ocupados pode configurar crime contra a humanidade na modalidade de perseguição, além de reunir indícios de crimes de guerra. As conclusões convergem ao apontar que a política implementada não se limita à remoção física de menores, mas envolve a tentativa de alterar sua identidade, sua educação, sua nacionalidade e seus vínculos familiares.
A resposta internacional também ganhou dimensão diplomática. Em junho de 2026, a Coalizão Internacional para o Retorno das Crianças Ucranianas reunia cinquenta países, além da União Europeia, do Conselho da Europa e da Assembleia Parlamentar da OSCE. A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução exigindo o retorno imediato, seguro e incondicional das crianças deportadas, condenando as transferências forçadas, as adoções ilegais, a imposição de cidadania e o doutrinamento promovido nos territórios ocupados.
A Coalizão defende ainda o fortalecimento de sanções contra indivíduos e instituições envolvidos nessas práticas, bem como a ampliação da cooperação internacional para localizar crianças desaparecidas e preservar provas destinadas a futuras ações judiciais.
A mobilização internacional reflete a percepção de que o futuro da Ucrânia também está em jogo fora dos campos de batalha. Os relatórios produzidos ao longo dos últimos quatro anos descrevem uma guerra travada pelo controle de cidades e fronteiras — e pela formação dos cidadãos que devem habitar esses territórios nas próximas décadas.
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