IPCC suspende reunião por falta de acordo sobre próximo relatório
Fortes divergências sobre o ciclo de revisão técnica impedem a definição de calendário para publicação do 7º relatório do Painel, que pode atrasar.
O próximo ciclo de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) pode ter sua publicação adiada para depois de 2028, o que impediria que sirvam de insumo para o próximo Balanço Global (GST) do Acordo de Paris. Esse risco aumentou na 6a feira (16/10), depois do IPCC suspender uma reunião técnica em Addis Abeba (Etiópia) sem um acordo sobre o cronograma para seu 7o relatório de avaliação (AR7) sobre o estado da crise climática.
Mesmo após cinco dias de discussão, os integrantes do IPCC não chegaram a um consenso sobre o processo de revisão técnica dos relatórios do AR7. Com o impasse, representantes de países mais pobres deixaram a capital etíope, o que inviabilizou a continuidade das discussões. Por essa razão, a presidência do Painel optou por suspender a sessão e retomá-la em algum momento nas próximas semanas ou meses.
Os representantes de países mais pobres e vulneráveis defendem um processo de revisão técnica mais ágil, que permita ao IPCC contribuir a tempo para as discussões do próximo GST, em 2028. Já os representantes das nações petrolíferas e emergentes querem adiar a publicação para 2029, sob a justificativa de dar mais tempo para que cientistas do Sul Global participem da revisão.
Esse impasse persiste há três anos e gerou ainda mais polêmica nos últimos meses, após os países defensores do adiamento utilizarem o princípio da equidade, caro aos movimentos de Justiça Climática e aos países mais pobres e vulneráveis, como justificativa para a proposta. Segundo eles, os processos do IPCC precisam considerar as perspectivas da ciência e dos cientistas do Sul Global, que enfrentam dificuldades estruturais para participar efetivamente da elaboração dos relatórios do IPCC.
Esse argumento é refutado pela sociedade civil global e por representantes das nações vulneráveis. Eles acusam os defensores do adiamento de instrumentalizar o princípio da equidade para esvaziar o GST e enfraquecer suas considerações sobre a implementação dos compromissos climáticos dos países sob o Acordo de Paris, além de enfraquecer a posição das ciências nas negociações climáticas da ONU.
“É fundamental chegar a um consenso sobre o cronograma dos nossos próximos relatórios”, defendeu Jim Skea, presidente do IPCC, em nota. “Eles fornecem evidências científicas confiáveis para orientar as políticas climáticas nacionais, fortalecer a adaptação e a resiliência, aprimorar a redução do risco de desastres, orientar o desenvolvimento sustentável e apoiar o acesso ao financiamento climático.”
Para especialistas e observadores, o impasse sobre o cronograma do AR7 ameaça a ciência climática no momento em que mais precisamos dela. “Este é mais um revés profundamente frustrante nos esforços para disponibilizar aos governos as melhores e mais recentes informações científicas sobre o clima. Com o aumento das emissões e a escalada dos impactos climáticos, os governos deveriam estar abrindo caminho para ações mais eficazes, e não criando obstáculos”, lamentou Jasper Inventor, do Greenpeace Internacional.
As divergências do IPCC sobre o próximo relatório foram destacadas por AFP, Carbon Brief, Climate Home, India Today, Infomoney, Público e Reuters.
Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/10/19/ipcc-suspende-reuniao-por-falta-de-acordo-sobre-proximo-relatorio/
Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello
