Mancha de ketchup na cueca
É muito sintomática a indignação do “Descondenado-em-chefe” diante da sabatina da TV Globo. Não foi bem a qualidade das perguntas que o incomodou – foi o simples fato de ter sido perguntado. Quando reclamou que a entrevista mais parecia um interrogatório do Ministério Público, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs, sem perceber, o verdadeiro cerne do problema: ele não concebe mais o jorna
É muito sintomática a indignação do “Descondenado-em-chefe” diante da sabatina da TV Globo. Não foi bem a qualidade das perguntas que o incomodou – foi o simples fato de ter sido perguntado. Quando reclamou que a entrevista mais parecia um interrogatório do Ministério Público, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs, sem perceber, o verdadeiro cerne do problema: ele não concebe mais o jornalismo como fiscalização do poder, mas como vitrine do poder.
Desde que chegou à cena pública, o quase pai adotivo da lobista Roberta Luchsinger foi talvez o líder mais bajulado da história política brasileira. Décadas de reverências, de “o mundo se ilumina quando ele fala” (nas palavras da filódoxa Marilena Chauí), de intelectuais dispostos a hipotecar o próprio juízo em troca de um lugar ao sol do mito, moldaram nele um paladar particular: o de só tolerar perguntas que já venham com a resposta desejada embutida.
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No caso da Globo, ele talvez tivesse razão em nutrir essa expectativa, tendo em vista que, desde o início – quando William Bonner o absolveu em horário nobre, em uma das cenas mais sabujas da história do jornalismo pátrio –, a emissora fez parte do seu governo, dispondo-se a atuar como o verdadeiro Ministério da Propaganda do Reich luloalexandrino. Daí a irritação com César Tralli e Renata Vasconcellos, que exageram um pouco na sua fachada de jornalistas sérios a encobrir dois militantes comprometidos.
Interpelado sobre o inquérito da Polícia Federal envolvendo Jaques Wagner e o Banco Master, ou sobre os negócios que rondam o entorno de seu filho mais velho, Fábio Luís da Silva, o Lulinha, o marido da Janja reagiu como quem descobre uma traição doméstica: contra-atacou a imprensa, ressuscitou a Lava Jato para cobrar pedidos de desculpas, e tratou de reensinar os entrevistadores a bajulá-lo como de hábito.
No fim, a cena da sabatina resume uma verdade incômoda: quanto mais um líder é paparicado, mais frágil ele se torna diante da pergunta mais elementar do jornalismo: “E isso, presidente, como o senhor explica?”.
Lula não estava triste. Estava, isso sim, desacostumado. Passou décadas mentindo impunemente. Décadas dizendo que o batom na cueca era mancha de ketchup, e sendo plenamente acreditado ao dizê-lo. Não espanta a sua perplexidade ao notar que, talvez, um ou outro jornalista “profissional”, ainda muito timidamente, tenha começado a reparar que, não, isso não pode ser mancha de ketchup.
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