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Manto azul, palanque vermelho

Uma informação falsa colocou Nossa Senhora Aparecida no centro das eleições. A mentira dizia que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A história recuperava um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli (PMDB-MT à época), que queria mudar a referência legal para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A

Uma informação falsa colocou Nossa Senhora Aparecida no centro das eleições. A mentira dizia que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. A história recuperava um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli (PMDB-MT à época), que queria mudar a referência legal para “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada no ano seguinte, sem qualquer participação de Flávio no projeto ou mesmo intenção anunciada de retomá-lo.

A fábula produziu impacto concreto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Janja publicaram fotografias do presidente segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Antes de um comício em São Miguel, na zona leste de São Paulo, sua equipe tocou a canção Nossa Senhora, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. No programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, Lula disse que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Confrontado pela jornalista Adriana Araújo, eximiu-se: “Não sei se foi fake news”.

A mentira não foi suficiente para interromper a trajetória de crescimento de Flávio entre os católicos. O Agregador de Pesquisas Eleitorais por Religião, da Universidade Estadual de Campinas, destaca que a média de intenções de voto do senador em diferentes pesquisas continuou subindo depois do episódio e chegou a 37% nessa parcela do eleitorado.

Nossa Senhora Aparecida é um símbolo nacional mensurável. O Censo mais recente contou 100 milhões de católicos com 10 anos ou mais no Brasil; em 2025, mais de 10 milhões de pessoas passaram pelo Santuário Nacional. A Oeste, o comentarista político Bernardo Küster define Aparecida como “o coração do catolicismo brasileiro” e que, por isso, atrai o interesse do PT durante as disputas eleitorais. “Eles sabem que isso toca no mais fundo das pessoas, nas suas convicções mais profundas e suscitam emoções”, diz.

+ Leia mais: Entenda o que é a política no Brasil em Oeste

A relação do PT com setores do catolicismo remonta à sua formação. O próprio partido afirma ter nascido “profundamente conectado” às Comunidades Eclesiais de Base e às pastorais sociais. “O PT não existiria se não fosse a Teologia da Libertação”, afirma Küster. Para o comentarista, essa origem tornou o partido familiarizado com a linguagem e os símbolos católicos, repertório ao qual recorre eleitoralmente em momentos de dificuldade. “Toda vez que tem um momento de crise, eles buscam voltar às raízes.”

Os registros de uso eleitoral de Aparecida datam desde 1994. Em 7 de setembro daquele ano, quando Lula disputava pela segunda vez a Presidência, cerca de 30 mil pessoas participaram da Romaria dos Trabalhadores no Santuário. Segundo a Folha de S.Paulo, metade usava camisetas com o nome do petista ou carregava bandeiras e faixas de apoio. Dom Luciano Mendes de Almeida, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), celebrou a missa. O arcebispo de Aparecida, dom Geraldo Maria de Moraes Penido, preferiu ficar de fora: não queria que a Basílica se transformasse em “palco para manifestações políticas”.

No ano seguinte surgiu o Grito dos Excluídos, manifestação realizada anualmente no feriado de 7 de setembro ligada às pastorais sociais. Em 1998, o jornal oficial do Diretório Nacional do PT estampou a manchete “Mobilização levará Lula ao 2º turno” e incluiu o Grito dos Excluídos entre os atos da campanha. Küster vê nesse tipo de relação uma forma de transmitir mensagens políticas sem pedir votos diretamente. “Eles nunca vão dizer ‘vote no Lula’”, afirmou. Nesses casos, o discurso pode assumir a forma de orientações sobre valores e sobre características que o fiel deveria rejeitar em um candidato. “Eles sempre usam uma linguagem dúbia.”

Em época de eleição, candidatos descobrem repentinamente o caminho do Santuário Nacional. Foi o caso de Dilma Rousseff na campanha de 2010, quando aborto e religião ganharam peso no segundo turno. “É a primeira vez que venho à Basílica, mas tenho devoção especial a Nossa Senhora”, afirmou. Um fiel a acusou de transformar o local em palanque; Dilma respondeu que “ninguém tem o direito de dizer qual é a minha crença”. Sua propaganda eleitoral também passou a destacar a “sólida formação moral e religiosa” recebida da família. José Serra, seu adversário naquela disputa, não perdeu tempo e visitou Aparecida no dia seguinte.

Dilma Rousseff assiste a missa na Basílica de Aparecida | Foto: J. F. Diorio/Estadão Conteúdo

Foi em 2018, porém, que o desespero eleitoral se tornou mais evidente. Lula estava preso em Curitiba quando a então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) anunciou uma romaria a Aparecida por sua liberdade. Antes da chegada dos ônibus, o Santuário Nacional divulgou uma nota: era contrário a “toda e qualquer utilização do seu espaço para fins políticos ou ideológicos” e rejeitava iniciativas que utilizassem o altar “para fins de promoção individual ou partidária”.

A mobilização prosseguiu mesmo assim. O PT disponibilizou a arte para camisetas da “Romaria por Lula Livre”. Sindicatos e diretórios municipais serviram de referência para organizar caravanas. Gilberto Carvalho, ex-ministro de Lula, anunciou: “Queremos lotar a basílica”. Em 20 de maio, dirigentes petistas acompanharam a caminhada pelas ruas de Aparecida. O próprio site do partido registrou que “o Santuário Nacional se coloriu de vermelho”.

Durante a missa, o reitor, padre João Batista de Almeida, pediu que Nossa Senhora Aparecida abençoasse Lula e lhe desse forças para que se fizesse “a verdadeira justiça”. Três dias depois, ele, o arcebispo dom Orlando Brandes e o superior provincial dos Redentoristas assinaram uma “Nota de Reparação”. “Pedimos perdão pela dor que geramos à Mãe Igreja, aos fiéis e às pessoas de boa vontade”, dizia o texto. O documento reafirmava que as instituições responsáveis pelo Santuário não defendiam posição político-partidária.



Anatomia de uma mentira

Cinco meses depois, já no segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, começaram a circular informações falsas que associavam o candidato do PSL a uma ameaça contra Nossa Senhora Aparecida. Uma montagem que imitava a Folha dizia que Bolsonaro havia negociado com Edir Macedo mudanças na imagem da santa e a retirada de seu título. Outra versão afirmava que Bolsonaro e Eduardo haviam assinado o projeto de Galli. Nenhum dos dois assinou, e Eduardo sequer era deputado quando a proposta foi apresentada.

A narrativa também apareceu no Galera Vermelha, espaço que hoje se define como mantido “de forma militante” por filiados e simpatizantes do PT e integrantes de movimentos de esquerda. Em outubro de 2018, o site escreveu, sem provas, que “já corria nos bastidores” a informação de que um acordo entre Bolsonaro e Macedo compreenderia a volta do projeto.

A falsidade sobre a Padroeira reapareceu em 2022. Uma montagem atribuída ao perfil de Bolsonaro dizia que seu governo criaria um grupo para acabar com o feriado de 12 de outubro e mudar a forma de referência à santa. A publicação nunca existiu.

Na mesma campanha, Lula e Haddad disseram que não iriam a Aparecida porque não queriam transformar a celebração em palanque eleitoral. No próprio 12 de outubro, porém, Lula publicou uma carta na qual se apresentou “na condição de católico” e pediu a intercessão de Nossa Senhora Aparecida. Cinco dias depois, participou de um encontro com cerca de 200 religiosos em São Paulo. Com uma imagem da santa nas mãos, um frei pediu que ela “abrisse os caminhos” e protegesse Lula e Alckmin.

É nesse tipo de situação que Küster propõe procurar “coerência e continuidade”. Para ele, a manifestação religiosa de campanha deve ser comparada com a trajetória anterior de quem a faz. “As pessoas têm que julgar por si mesmas se aquilo ali é um discurso eleitoreiro de momento ou se é de fato apenas a publicidade de uma vida coerente”, afirmou.

Doze dias depois do feriado, Bolsonaro realizou na Capela do Palácio da Alvorada um ato de consagração do Brasil a Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Na oração, dirigiu-se a ela como “Rainha e Padroeira do Brasil”: o mesmo título que, quatro anos antes, a mentira acusava-lhe de querer retirar.

Em 2026, o roteiro trocou de personagem. O projeto de 2007 reapareceu associado a Flávio, em uma notícia falsa com pelo menos oito anos de história. Por mais de três décadas de campanhas, Aparecida apareceu em romarias, visitas, cartas, bênçãos e comícios do PT. Desde 2018, reaparece também numa mentira.

Leia também: “O PT destruiu o Brasil… novamente!”, artigo de Rodrigo Constantino publicado na Edição 326 da Revista Oeste

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