EDIÇÃO DO DIA · 02 de agosto de 2026 --:--:-- COLUMBUS 23ºC
AO VIVO

BRASIL ESTADO

Milhares de jovens cruzam a fronteira de Ceuta

Nesta semana, milhares de jovens atravessaram a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta. Alguns entraram a nado, outros sobre câmaras de ar, e outros derrubaram o portão de Tarajal. O grupo é composto quase exclusivamente por homens em idade militar, sem mulheres, crianças ou idosos, e sem bagagem ou familiares.

As imagens que chegam de Ceuta nesta semana não deixam margem a eufemismos. Milhares de jovens romperam a cerca que separa Marrocos do enclave espanhol, alguns a nado, outros sobre câmaras de ar, outros ainda derrubando o portão de Tarajal e correndo em disparada rumo ao território europeu. Um detalhe salta aos olhos: não há mulheres, crianças ou idosos entre eles. É uma massa quase exclusivamente masculina, em idade militar, sem bagagem, sem família — como convém a quem não migra, mas avança.

Chamar isso de “crise humanitária” é a eufemização de praxe. O que se vê é outra coisa: a repetição, em escala reduzida, mas didática, de um padrão que o islã conhece desde a origem. Maomé não deixou Meca como refugiado suplicante; deixou-a como estrategista, e a hégira que hoje os manuais escolares apresentam como simples “migração” foi, na prática, o ponto de partida da conquista de Medina e, depois, de toda a Arábia. Migração e conquista, no imaginário islâmico clássico, nunca foram categorias tão distintas quanto o multiculturalismo europeu insiste em fingir.

+ Leia mais notícias de Mundo em Oeste

https://twitter.com/juanBravoBaena/status/2083775865343574117

Por que essa obviedade é tão difícil de dizer em voz alta? Porque há séculos a intelligentsia secularista do Ocidente cultiva, com a mesma devoção com que outrora o fez com o marxismo e o nietzscheanismo, uma islamofilia que torna proibitivo qualquer juízo crítico sobre a cultura islâmica. Basta o cidadão europeu autóctone — o “gaulês”, o “visigodo”, o “lusitano” contemporâneo — formar uma opinião a partir do que vê com os próprios olhos, e já lhe é imputada uma doença: a islamofobia. Cobra-se do homem médio ocidental um doutorado em estudos islâmicos antes que ele tenha licença para temer o que teme. Ao muçulmano radical, em contrapartida, nunca se exige simetricamente conhecimento algum do Ocidente antes de condená-lo. O problema, sempre, é o orientalismo; nunca o ocidentalismo.

Ortega y Gasset duvidava que se pudesse chamar de “Reconquista” um processo tão lento, tão inconsciente de si mesmo, espalhado por oito séculos de reinos cristãos que mal sabiam que estavam construindo uma nação. Era um ceticismo elegante, próprio de quem via a História como algo mais confuso do que os manuais patrióticos gostariam. Mas hoje cabe a pergunta inversa: o que dizer de um processo que dura semanas, não séculos; que é filmado, celebrado e replicado em tempo real nas redes sociais; que se anuncia, ele mesmo, como determinado e consciente do seu sentido — esse processo merecerá algum dia um nome à altura, ou seguirá sendo, para sempre, apenas uma “crise migratória”? Se oito séculos de avanço cristão sobre terreno mouro já eram, para Ortega, pouco dignos do rótulo de reconquista, o que dizer de uma Europa que assiste, paralisada por seus próprios tabus semânticos, a uma tentativa de reconquista em sentido inverso — desta vez não necessariamente com espadas (embora o uso de facas, machados e porretes tenha sido frequente), mas com balsas, câmaras de ar e a cumplicidade silenciosa de quem prefere chamar de fobia o que é, apenas, memória?

Enquanto a classe dos especialistas seguir exigindo do cidadão comum um passaporte acadêmico para enxergar o óbvio, o óbvio continuará acontecendo — desta vez em Ceuta, amanhã em qualquer outro ponto da fronteira que a Europa insiste em não querer ver.

O post A hégira de Ceuta apareceu primeiro em Revista Oeste.

Leia também

VER TODAS ›