Ministro do STF indicado por Bolsonaro se aproxima do governo Lula
O ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro em 2020, tem se aproximado cada vez mais do presidente Lula. Foram registrados encontros reservados, troca de presentes e articulação conjunta para indicações em tribunais, além de aviso prévio de voto favorável ao governo em um caso relevante.
Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro em 2020, foi flagrado — segundo informa Victória Batalha — em aproximação crescente com Lula: encontros reservados, uma garrafa de uísque, articulação conjunta de nomes para tribunais, aviso prévio de voto favorável ao governo no caso do ex-governador Cláudio Castro. Nada disso deveria surpreender. É o desfecho lógico de uma indicação que já nasceu rendida.
Bolsonaro escolheu Nunes Marques, e depois André Mendonça, sob a mesma desculpa envergonhada, da qual foi convencido por conselheiros hesitantes (o famigerado “entorno”): “um nome mais combativo seria barrado no Senado”. Convenceu-se disso, ou convenceu-se de que devia parecer convencido. Enquanto isso, o PT nunca perdeu sono com rejeições hipotéticas: Lula indicou o próprio advogado pessoal e um ex-ministro da Justiça de sua gestão, além de quadros históricos do partido — e passou. Só veio a ser derrotado com o office boy “Bessias”, isso depois de sucessivas vitórias. E não pensem que, em caso de um novo mandato, ele não vá tentar enfiar novamente o ex-AGU goela abaixo das Cortes de Brasília. É que a esquerda joga para fixar posição de longo prazo, não para evitar o desconforto de uma sabatina ruim. Ela arrisca a derrota no voto porque sabe que, em política, a timidez é a única derrota permanente. É o pecado mortal.
Esse é o padrão que se repete em escala: a direita brasileira é essencialmente reativa — comenta, denuncia, reage ao que a esquerda já fez, mas raramente instala um fato novo no tabuleiro. Aceita as amarras institucionais como se fossem leis da física, enquanto o adversário trata a mesma norma como sugestão. E, pior: nem exige isonomia dentro da própria anomia — se a esquerda pode indicar militantes radicais, por que a direita se sente na obrigação moral de indicar “técnicos” e “moderados”? Ao aceitar essa moldura, a direita perde antes de começar: aceita jogar um jogo cujas regras foram estabelecidas pelo adversário, e por ele são abolidas sempre que conveniente.
A timidez da direita
Há, por trás disso, uma distinção que a esquerda brasileira nunca confundiu e que a direita parece incapaz de aprender: a diferença entre lógica política e lógica eleitoral. José Dirceu resumiu isso com uma frase que ficou famosa por dizer em voz alta o que o petismo sempre praticou em silêncio — “tomar o poder nada tem a ver com ganhar uma eleição.” Para a esquerda, uma cadeira no STF, uma reitoria, uma diretoria de estatal, um cargo de segundo escalão são todos lances do mesmo jogo de ocupação de longo prazo, e continuam valendo o lance independentemente do resultado da urna seguinte. Já a direita só sabe pensar em ciclos eleitorais de dois em dois anos: cada nomeação, cada aliança, cada recuo é calculado pelo risco imediato de votos perdidos, nunca pelo território que se ganha ou se cede para a próxima década. É por isso que a esquerda planta em terreno alheio e colhe décadas depois, enquanto a direita vence eleições e ainda assim perde o país.
O resultado é previsível. O STF virou arena política de fato — um Parlamento paralelo, com poder de veto sobre eleições, prisões e composição do próprio Congresso. Entrar nesse ringue com um nome escolhido para não incomodar é entrar de luvas acolchoadas contra quem já tirou as luvas há anos. Nunes Marques não traiu Bolsonaro. Ele é apenas aquilo que “o entorno” do ex-presidente lhe recomendou escolher: um nome anódino, que nunca desagradaria ninguém — muito menos os verdadeiros donos do poder.
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