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Nós também fazemos fotossíntese

O Sol é o companheiro mais antigo de tudo o que vive na Terra. Muito antes de existirem olhos, cérebros ou relógios, a vida já se organizava em torno dele: o dia e a noite, as estações, os ciclos de abundância e escassez de alimentos. Essa história cósmica ficou gravada no nosso organismo: a luz acerta o relógio biológico, mexe com o humor, influencia o sistema imunológico e pode interferir até

O Sol é o companheiro mais antigo de tudo o que vive na Terra. Muito antes de existirem olhos, cérebros ou relógios, a vida já se organizava em torno dele: o dia e a noite, as estações, os ciclos de abundância e escassez de alimentos. Essa história cósmica ficou gravada no nosso organismo: a luz acerta o relógio biológico, mexe com o humor, influencia o sistema imunológico e pode interferir até na forma como sentimos dor. Somos fotossensíveis. E, sim, por estranho que pareça, fazemos fotossíntese.

Fotossíntese quer dizer “síntese através da luz”. No contexto da biologia, o termo “síntese” se refere à “fabricação de substâncias a partir de outras substâncias”. As plantas sintetizam açúcar. A pele humana sintetiza vitamina D. Um fóton de luz ultravioleta B atinge um precursor do colesterol presente na pele e modifica essa substância, que então irá seguir o caminho para se transformar em vitamina D. Em 1980, a revista Science publicou um estudo com essa palavra literalmente no título: “Fotossíntese da pré-vitamina D3 na pele humana”.

Mesmo assim, o Sol virou vilão. Aprendemos só a temê-lo antes de entender o que ele faz por nós. Esse comportamento de bloquear constantemente o sol deixa no escuro uma parte importante da nossa biologia. O Prêmio Nobel de Medicina de 2026 pode ajudar a mudar essa conversa. A história começa com uma alga.

Uma alga sem cérebro

A Chlamydomonas é composta por uma única célula. Misturadas à água de uma placa de laboratório, milhares delas deixam o líquido levemente esverdeado. Ilumine um dos lados, e o verde se desloca: elas nadam em direção à luz. Para isso, contam com um sensor, uma manchinha alaranjada, uma espécie de olho primitivo. Ali está o retinal, uma molécula parente da vitamina A (retinol). É a mesma molécula que, neste momento, permite que você leia esta frase.

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No início dos anos 1990, o alemão Peter Hegemann percebeu que essa alga reagia à luz em meio milésimo de segundo, mais de 20 vezes mais rápido que o olho humano. Propôs que uma única proteína fizesse tudo: captar a luz e, em resposta, abrir um poro minúsculo para a passagem de íons, gerando um sinal elétrico, responsável pelo comportamento final da alga em resposta à luz. Poucos acreditaram. Anos depois, com os genes da alga em mãos, ele recorreu a Georg Nagel, que inseriu esses genes em óvulos de rã. As proteínas eram, de fato, canais que se abriam com a luz. Ganharam o nome de canalrodopsinas.

O psiquiatra norte-americano Karl Deisseroth deu o passo seguinte. Em 2005, colocou o gene da alga em neurônios de rato cultivados em laboratório. Um pulso de luz azul bastou para fazer esses neurônios disparar. Nascia a optogenética, que permite ligar e desligar com luz grupos específicos de neurônios no cérebro de um animal vivo. Graças à optogenética, cientistas mapearam circuitos da memória, do medo, da dor, do sono e do relógio biológico. Hegemann, Nagel e Deisseroth dividiram o Nobel anunciado em 5 de outubro de 2026.

https://twitter.com/NobelPrize/status/2107169040179265559

Duas sombras

Há um detalhe assombroso. Nagel é professor de fisiologia vegetal no Instituto Julius von Sachs. Sachs era botânico e, em 1865, mostrou que as folhas fabricam amido quando expostas à luz, num experimento que até hoje se repete nas escolas: cobre-se parte de uma folha e deixa-se a planta ao Sol. Depois, pinga-se iodo. Só a parte iluminada da folha escurece, sinal que o iodo reagiu com amido e mudou a cor para azul-escura ou preta. A área coberta, a sombra, na folha, desenha o contorno, o limite, da fotossíntese.

Quase cem anos depois, outra “sombra” contou uma história parecida. No verão ensolarado de 1956, num hospital do Condado de Essex, na Inglaterra, a enfermeira-chefe do berçário de prematuros, Jean Ward, costumava levar os bebês para tomar ar e sol no pátio. Durante uma visita médica, ela mostrou aos pediatras um bebê com icterícia, a pele amarelada pelo excesso de bilirrubina. Na barriga havia um triângulo mais amarelo que o resto. Por quê? Era a área coberta pela ponta do lençol. A pele exposta ao Sol tinha clareado. Semanas depois, uma amostra de sangue deixada ao Sol mostrou bilirrubina mais baixa. Em 1958, a revista The Lancet publicou o trabalho que deu origem à fototerapia neonatal, usada até hoje em berçários do mundo inteiro.

Hoje se sabe o que acontece: a luz na faixa azul-esverdeada transforma a bilirrubina, acumulada na pele do bebê, em formas que o organismo elimina com mais facilidade. Mais substâncias sintetizadas pela luz no corpo humano. Em 2015, num ensaio com 447 recém-nascidos na Nigéria, publicado no New England Journal of Medicine, a luz do Sol (filtrada e aplicada sob monitoramento médico no hospital) funcionou tão bem quanto os aparelhos convencionais de fototerapia neonatal.

Laços de luz

Todos os seres vivos conhecidos que transformam luz em energia usam um de três tipos de pigmento. Dois são da família da clorofila. O terceiro é o retinal. No oceano, bactérias usam o retinal como placa solar e podem captar tanta luz quanto a clorofila. A alga do Nobel usa o retinal para se orientar. Nós o usamos para enxergar. Os cientistas ainda discutem se as proteínas da alga (canalrodopsinas) e as dos nossos olhos (rodopsinas) descendem de um ancestral comum ou se a natureza chegou mais de uma vez à mesma solução.

O parentesco chega ao sangue. A clorofila das folhas e o heme da nossa hemoglobina saem do mesmo precursor químico. Para fazer clorofila, a planta encaixa magnésio no centro da molécula. Para fazer heme, nós encaixamos ferro. Quando o heme é desmontado, vira bilirrubina, parente química dos pigmentos com que algas e plantas captam e percebem a luz. Como eles, muda de forma ao absorver luz. É essa química que a fototerapia aproveita.

O que a luz fabrica em nós

Na pele, o Sol faz muito mais do que fotossintetizar vitamina D. Os raios ultravioleta A liberam óxido nítrico a partir de precursores que se encontram na pele. Óxido nítrico é um gás que relaxa os vasos sanguíneos e favorece a melhor circulação do sangue e, portanto, serve como aporte de oxigênio e nutrientes aos tecidos. A radiação ultravioleta transforma também o ácido urocânico, presente na camada mais superficial da pele, numa forma que freia certas respostas imunológicas, podendo ajudar a acalmar reações inflamatórias exageradas. Esse é um dos mecanismos pelos quais a luz ultravioleta é usada há décadas no tratamento da psoríase e eczema. Em camundongos, doses baixas de ultravioleta fazem a pele produzir beta-endorfina, um opioide natural, que eleva o limiar de dor. Num hospital norte-americano, pacientes operados da coluna que ficaram no lado mais ensolarado da enfermaria usaram 22% menos analgésicos por hora.

https://twitter.com/NobelPrize/status/2108923017153650968

A fábrica de vitamina D tem até um freio solar. Quando a exposição se prolonga, o excesso de pré-vitamina D se converte em formas inativas. O próprio Sol limita o que o Sol produz. Já o suplemento não reproduziu tudo o que se esperava. Num grande ensaio norte-americano, com quase 26 mil pessoas, a vitamina D em suplemento não reduziu câncer, infarto ou derrame, embora tenha reduzido o surgimento de doenças autoimunes. Há pelo menos duas explicações possíveis, e uma não exclui a outra. Parte do benefício atribuído ao Sol pode vir dos outros hábitos de quem vive ao ar livre. E o Sol nunca foi só vitamina D.

Noites claras, dias escuros

Nosso ambiente mudou mais depressa que nosso organismo. Um levantamento feito nos Estados Unidos estimou que as pessoas passam cerca de 93% do tempo em locais fechados e dentro de veículos. A luz de um escritório costuma ficar na casa das centenas de lux. Ao ar livre, num dia claro, chega às dezenas de milhares de lux (1 lux equivale à iluminação recebida por uma superfície que está a 1 metro de distância de uma vela acesa). À noite, fazemos o inverso: a iluminação invade nossa noite. Num estudo de Harvard, ler num tablet antes de dormir atrasou o relógio biológico, reduziu a melatonina e deixou os voluntários menos alertas na manhã seguinte, em comparação com a leitura de um livro impresso.

Em 2024, um estudo acompanhou por oito anos quase 90 mil britânicos que tinham usado um sensor de luz no pulso durante uma semana. Quem tinha dias mais claros morreu menos. Quem tinha noites mais claras morreu mais. É uma associação. Não prova causa. Aponta, porém, na mesma direção que a fisiologia.

Passamos o dia em quatro paredes e a noite sob a lâmpada. O caminho de volta é simples: luz natural pela manhã e ao longo do dia, ao ar livre sempre que possível, com bom senso, sem queimar a pele. Luz tênue e nada de telas nas três horas que antecedem o sono. Escuro total durante as horas de sono. A alga do Nobel, aliás, nem sempre nada em direção à luz. Conforme as condições, aproxima-se ou afasta-se dela, em busca da luz que lhe convém. Sem cérebro, segue a regra que vale para nós: a luz certa, na hora certa, na medida certa.

Leia também: "Em busca do sono perdido", reportagem de Dagomir Marquezi publicada na Edição 344 da Revista Oeste

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