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A plataforma de investimentos Apex Partners tornou-se o centro de uma crise financeira de quase R$ 1 bilhão. Fundado em 2013 em Vitória (ES), o grupo administra recursos, financia empreendimentos, compra participações em outros negócios e desenvolve projetos imobiliários. Chegou a atender cerca de 8 mil clientes, administrar mais de R$ 18 bilhões e planejava se tornar um banco regional.
A companhia ganhou projeção nacional ao chegar, com investidores ligados ao grupo, a 15,5% das ações da CVC, maior agência de viagens do Brasil. No mercado capixaba, também ficou conhecida pela presença dos filhos de duas das principais lideranças políticas do Estado: Pedro Ferraço, filho do ex-senador e atual governador Ricardo Ferraço, e Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande.
Casagrande comandou o Executivo estadual em três mandatos — de 2011 a 2014, de 2019 a 2022 e de 2023 a 2026 — e é aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele deixou o cargo para disputar uma vaga no Senado.
Ferraço, candidato à reeleição, foi investigado pela Operação Lava Jato em 2017. No ano seguinte, o então ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso determinou o arquivamento do inquérito.
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Em 6 de agosto, os sócios afastaram o fundador e presidente da Apex, Fernando Cinelli, e o diretor financeiro, Eduardo Siqueira, depois de identificarem “inconsistências financeiras”. No dia seguinte, a nova administração recorreu à Justiça para proteger o patrimônio de 178 empresas e revelou um passivo bruto preliminar de R$ 985,6 milhões, mais que o dobro do endividamento registrado 18 meses antes.
O processo está sob responsabilidade do juiz Marcos Pereira Sanches, da Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. O BTG Pactual, que mantinha uma parceria de distribuição com a Apex, rescindiu o contrato e suspendeu os resgates de um fundo ligado ao grupo.
A Apex também promoveu uma demissão em massa que atingiu cerca de 80% dos funcionários. A combinação de captação cara, ativos de baixa liquidez, negócios entre empresas relacionadas e conexões políticas rendeu ao grupo o apelido de “Master capixaba”.
Aposta na CVC
A compra de ações da CVC foi o estopim da apuração interna. A Apex começou a investir na agência de viagens em 2023 e ampliou as compras em 2025 por meio do BRM Carbyne Voyage, fundo ligado ao grupo.
O fundo prometia aos investidores o melhor entre dois resultados: a valorização das ações da CVC, caso elas subissem, ou um rendimento mínimo equivalente ao CDI, próximo de 14% ao ano. Assim, mesmo se os papéis caíssem ou ficassem estáveis, a estrutura ligada à Apex teria de garantir o retorno prometido.
As ações da CVC perderam 40% do valor em um ano. Na quinta-feira 13, chegaram a cair quase 9%, negociadas a R$ 1,23.
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A situação financeira da agência também piorou. A CVC registrou prejuízo de R$ 51,3 milhões no segundo trimestre de 2026, mais que o triplo dos R$ 15,9 milhões apurados no mesmo período de 2025. A receita caiu 6,5%, para R$ 319,5 milhões.
O Carbyne Voyage reúne mais de 500 investidores e tem patrimônio de R$ 63,5 milhões. Em 2026, suas cotas perderam 63,9% do valor. Cinelli integrou o conselho da CVC, mas renunciou no mesmo dia em que foi afastado da Apex. Segundo os sócios, a aposta na agência de viagens foi a gota d’água para a abertura da apuração.
Ainda não se sabe quanto dos R$ 309,8 milhões em obrigações relacionadas a garantias de rendimento está ligado às operações com a CVC.
Conexões políticas
A Rhino Securitizadora, responsável por emitir títulos que correspondem a quase metade das dívidas da Apex, possui uma ligação antiga com a família do governador Ricardo Ferraço.
Uma ata de 2021 identifica Ferraço como diretor comercial da Rhino. Uma empresa representada por ele também detinha 25% da securitizadora. Em agosto de 2022, essa participação foi transferida para uma companhia representada por seu filho, Pedro Ferraço.
Apresentado como cofundador, vice-presidente e chefe da área de investimentos da Apex, Pedro tornou-se acionista direto em dezembro de 2025, ao trocar R$ 500 mil em títulos de dívida por ações da empresa.
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Em janeiro de 2026, dois dias depois de a Rhino aprovar uma captação de até R$ 60 milhões para a Apex, Pedro assumiu a diretoria responsável por fiscalizar o cumprimento das regras e os controles internos da securitizadora. Ele passou, assim, a ocupar cargos tanto na Apex, que recebia o dinheiro, quanto na Rhino, que emitia os títulos usados para captar os recursos.
Victor Casagrande aparece como diretor institucional e já foi apresentado como sócio-diretor da Apex. Não há documento público que o associe às inconsistências financeiras.
A crise veio a público um dia depois da oficialização da candidatura de Ricardo Ferraço à reeleição. Renato Casagrande, candidato ao Senado, integra a mesma aliança. O governo estadual afirma que não há recursos do Tesouro nem do Fundo Soberano do Espírito Santo investidos na Apex.
Na quinta-feira 13, a gestora da Apex vendeu cerca de 17 milhões de ações da CVC. Os papéis haviam sido comprados em operações com preço e data de pagamento definidos previamente. Com a crise, a empresa não teria conseguido prorrogar esses acordos e precisou se desfazer das ações.
Um lote de aproximadamente 9 milhões de papéis foi negociado por volta das 16 horas. O fundo Absolute teria comprado metade. Depois das vendas, a participação dos fundos ligados à Apex na CVC caiu de cerca de 15,5% para 7,97%.
Divergências em ativos e recusa de empréstimo pelo BTG
A nova administração estima que, dos R$ 261,5 milhões registrados pela Apex em bens, créditos e investimentos, apenas R$ 190,1 milhões poderão ser recuperados — diferença de R$ 71,4 milhões.
Outros R$ 38,1 milhões, distribuídos em 65 empréstimos, foram considerados perdidos. Parte dos recursos foi destinada a empresas do próprio grupo, mas os documentos não informam quem recebeu os valores nem por que eles se tornaram irrecuperáveis.
O lucro de R$ 119,2 milhões divulgado em 2025 também escondia fragilidades: R$ 73,1 milhões vieram da venda de participações em outras empresas.
Antes de a crise vir a público, Cinelli tentou conseguir dinheiro novo. Segundo o Valor Econômico, ele pediu ao BTG Pactual um empréstimo de pelo menos R$ 100 milhões e também buscou recursos com funcionários da Apex. As duas tentativas fracassaram. Dias depois, ele foi afastado sob acusação de “gestão temerária”.
O BTG, que distribuía investimentos da Apex, rescindiu a parceria e suspendeu, em 7 de agosto, os resgates do BRM Carbyne Crédito Estruturado. O fundo é administrado pelo banco e gerido pela Carbyne, empresa ligada ao grupo capixaba.
Em junho, o fundo tinha R$ 148 milhões e 855 investidores. Quando os resgates foram suspensos, os valores já chegavam a R$ 160,5 milhões e 909 cotistas. Apesar do patrimônio, apenas R$ 220,8 mil estavam disponíveis imediatamente — cerca de 0,15% do total registrado em junho.
O Carbyne Crédito Estruturado aplica em cotas de outros fundos que compram direitos de receber pagamentos, como dívidas e parcelas futuras. Quase todo o dinheiro estava concentrado em nove fundos da Contea Capital, gestora posteriormente comprada pela Apex. A maior aplicação, de R$ 104,1 milhões, estava em um fundo com prazo de cinco anos e apenas um investidor.
Ao todo, a Carbyne administrava cerca de 28 fundos ligados a diferentes tipos de investimento. Segundo dados enviados à Comissão de Valores Mobiliários, esses veículos reuniam aproximadamente R$ 1,2 bilhão.
Por que “Master capixaba”
A referência ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, se dá pelos métodos usados para financiar a expansão da Apex. O Master oferecia CDBs com remuneração acima da média e aplicava os recursos em ativos difíceis de vender rapidamente. A Apex recorreu principalmente às debêntures, títulos usados por empresas para captar dinheiro de investidores.
As debêntures representam R$ 452,1 milhões do passivo da Apex. Parte oferecia remuneração entre 110% e 130% do CDI ou inflação acrescida de juros mensais. Algumas tinham como garantia ações da própria companhia.
Nos dois casos, as empresas assumiam obrigações com valores e prazos definidos, mas aplicavam o dinheiro em negócios de retorno incerto ou demorado.
Em 2025, a Apex destinou R$ 187 milhões a fundos, veículos de investimento e aquisições que não geraram caixa no período. Mesmo assim, continuou contraindo dívidas.
No primeiro semestre de 2026, o grupo levantou R$ 300 milhões. Desse total, R$ 80 milhões cobriram o prejuízo das operações e R$ 95 milhões foram usados em despesas financeiras e fiscais. Os R$ 175 milhões serviram para manter a estrutura e pagar compromissos anteriores, sem formar novos ativos.
O endividamento passou de R$ 413 milhões, em janeiro de 2025, para cerca de R$ 985,6 milhões em junho de 2026. A Justiça suspendeu temporariamente execuções, penhoras e bloqueios contra as empresas incluídas na ação. A Apex ainda não está em recuperação judicial, mas terá de apresentar o pedido em até 30 dias se quiser manter a proteção.
A companhia afirma que o passivo inclui obrigações de longo prazo e não corresponde integralmente a valores vencidos. Uma auditoria externa e uma perícia judicial deverão determinar o tamanho real das perdas e o destino do dinheiro captado.
A nova gestão pretende responsabilizar Cinelli por “gestão temerária e má-fé”. Ele afirma que colaborará com os esclarecimentos. Siqueira ainda não se manifestou.
Até o momento, não há comprovação pública de fraude ou desvio de recursos na Apex. A auditoria e a perícia judicial deverão esclarecer se a crise resultou de investimentos malsucedidos, falhas de gestão ou condutas intencionais.
+ Leia também: “Os tentáculos do Master”, reportagem de Uiliam Grizafis na Edição 325 da Revista Oeste
O post ‘Master capixaba’: escândalo financeiro no ES envolve filho de aliado de Lula apareceu primeiro em Revista Oeste.


