EDIÇÃO DO DIA · 17 de agosto de 2026 --:--:-- COLUMBUS 25ºC
AO VIVO

BRASIL ESTADO

...

...

A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia pode dar fôlego financeiro à companhia, mas não resolve, sozinha, os problemas responsáveis pela volta da varejista à Justiça. A avaliação é de Matheus Matos, sócio da MA7 Capital, que aponta dificuldades na gestão, juros elevados e perda de competitividade diante do comércio digital como desafios para a empresa.

A Casas Bahia pediu recuperação judicial com R$ 17 bilhões em dívidas, cerca de dois anos depois de concluir uma recuperação extrajudicial responsável pela renegociação de quase R$ 5 bilhões. Diferente da modalidade judicial, realizada sob supervisão da Justiça, a extrajudicial permite à empresa negociar suas dívidas diretamente com os credores e depois levar o acordo para homologação.

Do total devido atualmente, quase 95% corresponde a dívidas com credores que não possuem bens da companhia, como imóveis ou outros ativos, vinculados ao pagamento como garantia. Esses credores, portanto, dependem das condições negociadas no plano de recuperação para receber os valores.

Leia mais: Entenda o que é a economia no Brasil em Oeste

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo contábil de R$ 10 bilhões. Cerca de R$ 9 bilhões vieram de eventos extraordinários, que não fazem parte das despesas habituais da operação.

Entre eles estão revisões de valores registrados no balanço, ajustes de impostos e custos relacionados ao fechamento de quase 300 lojas e à demissão de 3 mil funcionários. Sem isso, o prejuízo ajustado foi de R$ 978 milhões.

A recuperação judicial permite suspender temporariamente determinadas cobranças e cria espaço para renegociar as dívidas. O processo, porém, não aumenta automaticamente as vendas nem faz com que a própria operação volte a gerar dinheiro suficiente para sustentar o negócio. “Estão ganhando tempo”, afirmou Matos. “O modelo de negócio deles é só ganho de tempo.”

Saul Klein, filho do fundador das Casas Bahia | Foto: Divulgação/Jonatan Dutra/Ferroviária SA

Três frentes ajudam a explicar a crise

Na avaliação do especialista, três fatores ajudam a explicar a situação atual.

  1. Gestão da companhia: segundo Matos, a sucessão da família Klein e as posteriores mudanças de controle não produziram continuidade suficiente para adaptar o negócio.
  2. Juros: com a taxa básica de juros em 14%, a empresa enfrenta custos maiores para financiar estoques e obter recursos para pagar despesas rotineiras da operação. Ao mesmo tempo, consumidores de menor renda encontram mais dificuldades para financiar compras parceladas de móveis e eletrodomésticos.
  3. Adaptação ao comércio digital: apesar dos investimentos em tecnologia, a Casas Bahia não conseguiu acompanhar, na mesma velocidade, a expansão de plataformas como a Amazon e as mudanças nos hábitos de compra dos consumidores.

Casas Bahia busca R$ 1 bilhão para manter operação

Uma das medidas previstas durante a recuperação judicial é a captação de cerca de R$ 1 bilhão por meio de um financiamento conhecido como DIP Finance, pelo qual empresa negocia os recursos com Banco do Brasil, Bradesco e outros credores.

Esse tipo de empréstimo permite que uma empresa em recuperação judicial consiga dinheiro novo para continuar funcionando durante o processo. No caso da Casas Bahia, os recursos não seriam usados principalmente para quitar os R$ 17 bilhões já devidos, mas para financiar a atividade cotidiana da varejista.

O valor buscado equivale a aproximadamente 6% da dívida declarada. A Casas Bahia pretende usar o dinheiro para recompor estoques, manter a relação com fornecedores e abastecer lojas e canais digitais.

A necessidade de recursos aparece também nos estoques. No segundo trimestre, o volume de mercadorias armazenadas caiu mais de 20%. O indicador de prazo médio de disponibilidade dos produtos também recuou de 95 para 75 dias.

Brasil registrou 977 processos de recuperação judicial em 2025, alta de 5,5% em relação a 2024 | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Para Matos, contudo, conseguir dinheiro novo não basta. “A recuperação judicial pode dar fôlego, alongar dívidas e impedir uma paralisação imediata, mas não salva, por si só, um modelo que perdeu competitividade”, afirmou.

A empresa precisaria aproveitar o período de proteção contra credores para promover mudanças na própria operação. “A Casas Bahia precisa usar esse tempo para modernizar a gestão, fortalecer a operação digital, recuperar margens e voltar a gerar caixa”, avaliou.

Segundo o especialista, a capacidade de fazer essas mudanças durante a recuperação judicial será determinante para os próximos passos da varejista. Se a empresa continuar perdendo espaço e não conseguir voltar a gerar dinheiro com sua operação, uma venda ou a falência aparecem entre os possíveis desfechos.

“Se essa transformação não acontecer com rapidez, a empresa continuará perdendo espaço para concorrentes e chegará ao fim do processo valendo menos”, avaliou Matos. “Nesse cenário, os caminhos mais prováveis serão a venda para um concorrente ou investidor ou, se não houver um comprador e um plano economicamente viável, a falência.”

Leia também: “País de inadimplentes”, reportagem de Anderson Scardoelli publicada na Edição 318 da Revista Oeste

O post Recuperação judicial pode não ser suficiente para salvar Casas Bahia, avalia especialista apareceu primeiro em Revista Oeste.

Leia também

VER TODAS ›