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Danilo Dupas*
Em meu artigo mais recente, "A ilusão das métricas e o abismo de valor no ensino superior", diagnostiquei como o sistema oficial de avaliação do ensino superior mascara a real qualidade acadêmica entregue aos estudantes. O desdobramento recente dos fatos revela um quadro ainda mais severo: o Estado perdeu até a capacidade mínima de cumprir prazos e prestar contas.
O atraso histórico do Enade 2024 e o retrocesso na governança
O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) se tornou o retrato acabado da ineficiência burocrática do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A previsibilidade nem sempre foi tratada com tamanha leviandade. Durante minha gestão na presidência do Inep, avançamos na governança ao publicar, de forma inédita no Diário Oficial da União, o cronograma anual antecipado de todos os exames e avaliações de 2022. Havia segurança jurídica para estudantes e instituições. Esse compromisso com a sociedade foi abandonado.
Depois dos atrasos no resultado do Enade 2023, o descaso atingiu o ápice com o Enade 2024. O exame, cujos resultados deveriam ter sido publicados em setembro de 2025, acumula inacreditáveis 11 meses de atraso. O silêncio do Inep é total, a ponto de a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior ter protocolado pedido formal de esclarecimentos (Processo nº 23036.007932/2026-19), mantido sem qualquer resposta plausível.
Cúmplices pelo silêncio: onde está a grande mídia?
Diante desse escândalo de omissão estatal, é imperativo confrontar a hipocrisia do debate público: onde estão os jornalistas da grande mídia que fabricavam narrativas alarmistas e cravavam previsões de fracasso para o MEC durante o governo Bolsonaro? Onde se esconderam os colunistas que cobravam eficiência diária no passado e hoje se calam diante do colapso operacional da educação brasileira?
O duplo padrão é vergonhoso. A imprensa corporativa, pronta para promover linchamentos reputacionais anos atrás, agora atua como blindagem midiática para a incompetência do atual governo. Ignora o descumprimento do artigo 37 da Constituição, a violação da Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) e o flagrante desvio dos deveres funcionais tipificados na Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/1992)
A omissão dos órgãos de controle
O descaso não se limita ao jornalismo militante; alcança as instâncias de fiscalização. O Tribunal de Contas da União instaurou auditorias e emitiu alertas nos Acórdãos 658/2023 e 1503/2024-Plenário. Advertiu o MEC de que atrasos injustificados agravam a culpabilidade dos gestores. O diagnóstico foi feito, mas onde estão as punições efetivas?
Por que os órgãos de controle não responsabilizam os servidores e autoridades diretamente envolvidos nesse calote de informações e na dilapidação de recursos públicos? Gastam-se milhões de reais em exames nacionais cujos dados caducam na gaveta das burocracias sem que um único gestor seja punido. A conivência das instâncias de fiscalização estimula a perpetuação do descalabro.
O golpe do marketing de impulso e a reação da sociedade
As consequências dessa paralisia estatal são sentidas na ponta. Enquanto o governo esconde os dados e a mídia finge não ver, faculdades caça-níqueis sem qualquer padrão de qualidade continuam vendendo diplomas por meio do marketing de impulso. Milhares de jovens são enganados por campanhas agressivas, compram uma ilusão e terminam desiludidos, inflando as elevadas taxas de evasão do país.
A escolha da faculdade precisa ser um ato racional. Para decidir com consciência, o estudante precisa saber a real percepção dos egressos sobre a qualidade do corpo docente, a aplicabilidade prática das aulas e as oportunidades reais de estágio.
Na ausência do Estado, a sociedade civil assumiu a responsabilidade. Para romper esse apagão, foi disponibilizada a plataforma gratuita amelhorfaculdade.com, que compila os dados oficiais das últimas edições do Enade por curso e instituição, permitindo comparações diretas. Se a mídia se cala e os órgãos de controle hesitam, resta à sociedade fazer esse controle sozinha: cobrar os gestores e impedir que o futuro dos estudantes seja sacrificado no balcão da ineficiência governamental.
Leia também: "Lavagem cerebral na sala de aula", reportagem publicada na Edição 181 da Revista Oeste
*Danilo Dupas é economista, professor e executivo do setor educacional. Ex-presidente do Inep e ex-secretário da Seres/MEC. Mestre em Administração com ênfase em Finanças
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