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Em 17 de novembro de 2025, o Grupo Fictor, uma holding de participações e gestão de empresas com atuação em setores como alimentos, serviços financeiros, infraestrutura e energia, surpreendeu o mercado ao anunciar a compra do Banco Master, de Daniel Vorcaro, por R$ 3 bilhões. No dia seguinte, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Master, e a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Compliance Zero, que levou o empresário e outros integrantes da cúpula do banco à cadeia, por supostas fraudes financeiras.
Com a decisão do BC, a operação envolvendo Fictor e Master fez água e, desde então, a empresa foi enredada no escândalo que vem sendo apontado como a maior fraude bancária da história do país. De possível compradora do Master, a Fictor mergulhou em uma profunda crise financeira e de imagem, com uma avalanche de pedidos de resgate de investimentos por parte dos clientes, atrasos nos pagamentos a funcionários e colaboradores, perda de credibilidade junto a bancos e prestadores de serviço e dúvidas em relação à sustentabilidade da operação.
Em 2 de fevereiro de 2026, o Grupo Fictor apresentou um pedido de recuperação judicial, que permite às organizações renegociarem suas dívidas, evitando o encerramento das atividades. Por meio desse instrumento, as empresas ficam desobrigadas de pagar aos credores por algum tempo, mas têm de apresentar um plano para acertar as contas e seguir em operação. Em linhas gerais, trata-se de uma tentativa de evitar a falência. A Justiça aceitou o pedido em abril.
Duas semanas antes do pedido de recuperação judicial, executivos da Fictor reuniram funcionários no escritório da empresa, em São Paulo, em uma tentativa de acalmar os colaboradores, que vinham sendo pressionados pelos clientes. A reportagem de Oeste obteve um áudio com a gravação da reunião, na íntegra. O encontro aconteceu no dia 15 de janeiro de 2026, uma quinta-feira, e durou 33 minutos. Àquela altura, já fazia quatro dias que os rendimentos e dividendos dos investimentos não eram pagos, o que preocupava os funcionários que lidavam diretamente com os clientes (veja abaixo prints de mensagens de um grupo de WhatsApp ao qual Oeste teve acesso). O CEO e fundador do Grupo Fictor, Rafael Gois, e o ex-sócio e ex-diretor Rafael Paixão conversaram com a equipe. Apesar da gravidade da situação da empresa, o tom do discurso era de confiança e otimismo.
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'Se a gente tiver calma, consegue devolver o dinheiro'
Nos primeiros dez minutos da reunião, quem falou foi Rafael Paixão. Ele começou pedindo desculpas aos funcionários e responsabilizou o mercado e os concorrentes da Fictor pela derrocada da companhia. “Todo mundo entende que o momento que a gente está vivendo é um movimento atípico do mercado financeiro. As empresas com as quais poderíamos ter algum tipo de concorrência se juntaram para destruir o que é a Fictor”, afirma.
“Colocaram como se nós fôssemos Master. Todo mundo sabe que a gente não é Master, mas o mercado colocou a gente na mesma moeda, como se fôssemos laranjas do Daniel [Vorcaro] e do Master. Não é o caso”, prossegue Paixão. “Todo mundo vê que a gente está sendo massacrado. Fomos tentar comprar o banco, uma oportunidade, e o mercado está engolindo a gente. O mercado quer que a gente quebre, que a gente não cumpra com o cliente e que vocês se virem contra a gente.”
O hoje ex-diretor da Fictor reconheceu a situação difícil dos funcionários, que eram cobrados por clientes. “O telefone não para de tocar. É cliente ligando. O número de saques só começa a aumentar. Se eu fosse cliente, hoje eu sacaria também. É normal. Mas eu não tenho como entregar ao mercado a saída que ele quer me dar. O mercado quer que a Fictor quebre. Mas a gente escolheu lutar e fazer os negócios na forma certa”, disse Paixão.
“O cliente, hoje, é o nosso segundo capítulo porque o primeiro capítulo são vocês. Estamos atrasados com vocês e com o cliente. É algo que não gostaríamos, que não queríamos, mas está acontecendo. As datas que passamos para vocês são datas que passaram para a gente. Não estamos conseguindo cumprir com isso porque o outro lado também não está cumprindo com a gente”, afirmou o ex-diretor.
Tanto Paixão quanto Gois disseram aos funcionários que a cúpula da Fictor estava próxima de fechar a venda de ativos por cerca de R$ 3 bilhões, o que não aconteceu. “Tem um limite para anunciar a venda da Fictor, que é sexta-feira que vem [dia 23 de janeiro]. Se até sexta-feira a gente não vender, vamos ver a melhor forma de devolver os recursos dos clientes. Entendemos que os ativos da Fictor valem o que temos captado, só temos de fazer isso de forma ordenada. Queremos que todos eles recebam”, garantiu Paixão. “Eu posso garantir que a gente não quer que a Fictor quebre. A gente quer que a Fictor volte e cresça. Só que estamos tomando muita porrada. De dia, de tarde e de noite. Se eu ainda puder pedir, conto com vocês para nos ajudar. Estamos colocando o que temos à venda. Hoje temos a tranquilidade de que o que temos de ativo é maior do que o que temos de passivo.”
Ainda segundo Rafael Paixão, a empresa estava “escolhendo lutar e não baixar a cabeça”. “Era muito fácil simplesmente fechar a porta, entrar com qualquer instrumento jurídico e segurar. Não é isso que a gente quer. Queremos que o negócio ande, caminhe e sobreviva. Queremos fazer as coisas com calma”, assegurou aos funcionários.
Em seguida, foi a vez do CEO da Fictor, Rafael Gois, tomar a palavra. Fazendo coro a Paixão, ele classificou a crise da empresa como consequência de um “ataque reputacional”. “No nosso mercado, qualquer empresa vive da confiança. Agora é reconstruir isso. Não vamos reconstruir isso da noite para o dia. Vai levar alguns meses”, projetou. “Este momento atrapalha muito. No final do dia, os bancos e prestadores de serviço tiram o pé. Hoje eu não estou conseguindo fazer a venda. As pessoas que compram estão falando: vamos virar as costas e esperar eles morrerem”, disse Gois.
O CEO da empresa garantiu aos funcionários que a Fictor tinha totais condições de pagar os clientes e colaboradores. “O que nos deixa tranquilos, apesar de toda essa pressão, é que a gente, de fato, está consolidado. A estrutura que a gente tem responde aos passivos que a gente tem. Para deixá-los mais tranquilos, o que eu posso dizer é que a gente, de fato, tem esse patrimônio”, afirmou.
“Entendemos que toda operação tem algumas etapas. Hoje, temos uma quantidade atípica de saques. Se eu correr para fechar as operações, esses clientes vão receber, mas os próximos não. Isso vale para qualquer empresa do Brasil. O Itaú, se tiver 30% ou 40% de saque, também não consegue”, comparou Gois.
Segundo o CEO, a operação da empresa ainda era “lucrativa”. “Parte da operação está em ativos que eu não consigo queimar da noite para o dia. Está em frigorífico, usina fotovoltaica, prédios, cotas de fundo… Hoje eu tenho muito mais patrimônio do que eu devo em passivo. Só que eu tenho um problema de liquidez. Eu tenho 40% de saque de tudo o que tenho dentro de casa. Se eu fizer de forma ordenada, eu consigo devolver o dinheiro de todo mundo”, declarou.
“Se até sexta-feira que vem não conseguirmos vender, nós vamos fazer um plano de resgate para todos os clientes”, prometeu Gois, mencionando a suposta venda dos ativos da Fictor. “Se tiver um plano, vamos dar essa garantia para o cliente. Olha, me dá esse prazo aqui, mas você tem essa garantia. A Fictor, hoje, tem mais ativo do que passivo. Se a gente tiver calma, consegue devolver o dinheiro do cliente e ainda vai sobrar dinheiro.”
Já na parte final da reunião, um colaborador perguntou a Gois se ele se arrependia por ter tentado comprar o Banco Master. Naquele momento, foram ouvidos risos na sala. “Hoje não tem como não se arrepender. Mas, com as informações que a gente tinha na data, da forma que foi, a gente faria”, respondeu o CEO da Fictor. “Era uma operação em que a gente não ia colocar o capital e resolveríamos o nosso problema de distribuição. A gente teria um banco na mão, ia resolver o nosso passado de SCP [Sociedade em Conta de Participação, modelo de contrato societário que a empresa utilizou para captar dinheiro com promessas de lucros mensais elevados], ia dar um boom e começaríamos a vender CDB [Certificado de Depósitos Bancários, um tipo de investimento de renda fixa emitido por bancos]. Tudo levava a crer [que era um bom negócio]. A única coisa que não acontecia era o cara ser preso e a confusão que deu”, concluiu Gois, referindo-se a Vorcaro.
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'Eu preciso usar o dinheiro que está lá'
Em outro momento da reunião, Rafael Gois é questionado sobre a troca da administradora dos fundos ligados ao Grupo Fictor. Em janeiro de 2026, a Vórtx, empresa que atua como prestadora de serviços de infraestrutura para o mercado de capitais, deixou a administração e custódia dos fundos da Fictor, em meio à repercussão negativa da relação entre o grupo e o Banco Master. Os executivos da Fictor, então, encaminharam um acerto com a Sefer Investimentos – empresa que seria alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, da PF.
Apesar do estranhamento e da preocupação dos funcionários, o CEO da Fictor minimizou a operação da PF contra a Sefer. “Por mais que a Sefer tenha esse problema com a Polícia Federal, a gente vai seguir. Eu não posso pagar por uma coisa que eu não fiz. Eu nunca tive fundo na Sefer, nunca tive relacionamento com o Master, até comprar o Master”, disse Gois.
“Eu preciso usar o dinheiro que está lá [na Sefer]. Do jeito que está hoje, a gente está no problema. Vamos para a Sefer porque a gente conhece os donos. No final do dia, as grandes administradoras não aceitaram a gente por essa questão de imagem. A Sefer foi uma que aceitou e o fundo está migrando para lá”, completou. Em junho, o BC decretou a liquidação extrajudicial da Sefer, sete meses depois de fazer o mesmo com o Master.
Apesar do discurso de Gois e Paixão, as promessas da Fictor não se concretizaram. Os dividendos não foram mais pagos desde o dia 5 de janeiro, os ativos da empresa não foram vendidos e o grupo pediu recuperação judicial apenas 18 dias depois da reunião de 15 de janeiro. A recuperação judicial da Fictor é uma das maiores já registradas na história recente do país. Conta com mais de 13 mil credores, a imensa maioria formada por pessoas físicas que tinham recursos aplicados na companhia. Entre aqueles que têm dinheiro a receber do grupo, estão a American Express, a Sefer Investimentos e o Palmeiras, um dos mais populares clubes de futebol do país, com o qual a Fictor manteve um contrato de patrocínio entre 2025 e 2026, além do psiquiatra e escritor Augusto Cury, pré-candidato do Avante à Presidência da República nas eleições de 2026. A dívida total da Fictor soma cerca de R$ 4,2 bilhões.
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CEO foi alvo de operação da PF
Em março deste ano, dois meses depois da reunião com os funcionários, Rafael Gois foi um dos alvos da Operação Fallax, deflagrada pela PF para combater uma organização criminosa que teria praticado fraudes bancárias de até R$ 500 milhões, além de estelionato e lavagem de dinheiro. Em meio à crise e às suspeitas envolvendo a Fictor, o sigilo bancário de Gois foi quebrado e seus bens bloqueados por decisão da Justiça Federal de São Paulo. Mais tarde, a medida foi ampliada para Rafael Paixão e Rosa Maria Gomes Rubini, mãe do também ex-sócio Luiz Phillippe Gomes Rubini (outro alvo da Fallax). Todos negam qualquer participação em ilegalidades.
No dia 23 de julho, em decisão proferida pelo desembargador Rômulo Russo Júnior, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) determinou o compartilhamento de provas obtidas pela Operação Fallax com o processo de recuperação judicial da Fictor. Também foi decidido que a Kroll – que atua como agente de monitoramento independente, o chamado “watchdog” – faça uma avaliação rigorosa sobre os fluxos financeiros da empresa.
O que diz a Fictor
A reportagem de Oeste procurou a Fictor para que a empresa se manifestasse sobre a reunião de janeiro. A companhia informou que "não comentará o caso".
Em relação à decisão do TJSP, o grupo afirma que "cumprirá integralmente as determinações judiciais". "Em respeito ao regular andamento do processo e às determinações judiciais, a companhia não comentará aspectos específicos da decisão", diz a Fictor.
"A Fictor reafirma seu compromisso com a transparência e seguirá colaborando com todos os órgãos responsáveis pela condução da recuperação judicial, se mantendo concentrada na implementação de seu plano de reestruturação, com foco na preservação de suas atividades e na melhor solução para seus credores", conclui a empresa.
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O post ‘A gente teria um banco na mão’, diz CEO da Fictor sobre Master apareceu primeiro em Revista Oeste.



