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O fortalecimento de um El Niño com potencial para atingir intensidade recorde elevou o alerta entre organismos internacionais e instituições financeiras sobre a segurança alimentar global . A combinação de eventos climáticos extremos com as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio pode comprometer a produção agrícola, pressionar preços de alimentos e ampliar o número de pessoas em situação de fome nos próximos anos.

No início deste mês, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos estimou em 63% a probabilidade de o fenômeno alcançar a categoria de "muito forte" ainda em 2026. Na semana passada, o banco JPMorgan avaliou que um El Niño intenso, aliado ao petróleo acima de US$ 100 por barril, pode elevar a inflação global dos alimentos em até 1,5 ponto porcentual.

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O cenário surge em meio à continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia e às tensões no Oriente Médio, que já afetam cadeias de suprimentos, custos de produção e logística internacional. A dúvida entre analistas é se a combinação desses fatores será suficiente para desencadear uma nova crise alimentar em escala global.

Na safra 2024/25, segundo a Conab, a produção brasileira de grãos foi estimada em 350,2 milhões de toneladas, um novo recorde | Foto: Shutterstock

A guerra na Ucrânia continua pressionando uma das principais regiões exportadoras de grãos do mundo. Ataques frequentes a portos e áreas agrícolas mantêm sob risco o fluxo internacional de alimentos.

No Oriente Médio, o conflito envolvendo o Irã elevou os preços da energia e dos fertilizantes, aumentando os custos da produção agrícola e provocando interrupções temporárias no fornecimento de insumos essenciais. O Banco Mundial também advertiu que um El Niño dessa magnitude poderá reduzir entre 20% e 50% a produção de arroz nas áreas diretamente afetadas pelo fenômeno.

Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), afirmou que o cenário exige atenção. "Estamos muito preocupados com o El Niño e com o atraso das monções na Índia", declarou à agência Deutsche Welle (DW). "Estamos diante de um efeito combinado que pode criar uma situação muito complexa até o final do ano."

A Agência Internacional de Energia exige que os países-membros mantenham reservas equivalentes a 90 dias de importações de petróleo | Foto: Reproduç±ao/ Redes sociais

As monções são fundamentais para o cultivo de arroz na Índia. Com a influência do El Niño, espera-se atraso e enfraquecimento das chuvas. Em junho, as precipitações ficaram cerca de 40% abaixo da média, segundo a imprensa local. O país responde por quase um terço da produção mundial do cereal, embora grande parte seja destinada ao consumo interno.

Além do Sul da Ásia, a FAO identifica riscos elevados de seca no Sahel, na África Austral, no Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central. Neste mês, a agência informou que algumas dessas regiões enfrentam probabilidade superior a 50% de registrar estiagens nos próximos meses.

Mesmo com as tensões geopolíticas, o abastecimento mundial permanece relativamente estável. Segundo o Índice de Preços dos Alimentos da FAO, os preços internacionais estão quase 20% abaixo do pico registrado em 2022.

Mapa do Oriente Médio, com destaque para o Mar Vermelho | Foto: Imagem gerada por IA

O planeta colheu, no ano passado, a maior safra de grãos da história. O avanço foi impulsionado pela expansão das áreas cultivadas, por condições climáticas favoráveis e pelo aumento da produtividade agrícola. A expectativa é de que a colheita deste ano seja ligeiramente inferior, mas ainda corresponda à segunda maior já registrada.

"Estamos vendo melhorias na produtividade agrícola", afirmou Simone Bunse, pesquisadora sênior do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, também em entrevista à DW. "Esses avanços ajudaram a sustentar a produção de alimentos e a reduzir a subnutrição. E estão compensando parte dos impactos localizados dos conflitos."

Fome permanece concentrada em áreas de conflito

O aumento da produção, contudo, não eliminou o problema da insegurança alimentar. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 266 milhões de pessoas ainda enfrentam fome aguda. "Produzimos calorias suficientes para alimentar toda a população mundial", afirmou Torero. "O problema é que essas calorias não são distribuídas de forma equilibrada pelo mundo, e esse é o grande desafio."

Manchetes diárias sobre variações climáticas em países distantes ou tensões comerciais internacionais costumam provocar oscilações imediatas nas bolsas de mercadorias | Fonte: Reprodução/Canva Pro.

As situações mais críticas concentram-se em países afetados por guerras, como República Democrática do Congo, Sudão e Iêmen. Essas regiões reúnem cerca de dois terços da população em situação de fome aguda nas áreas monitoradas pela ONU.

Os conflitos comprometem a produção local, provocam deslocamentos populacionais, destroem infraestrutura e dificultam a chegada da ajuda humanitária. Em países como Sudão e Gaza, especialistas afirmam que a fome vem sendo utilizada como instrumento de guerra.

"As partes em conflito destroem deliberadamente terras agrícolas, rebanhos, sistemas de abastecimento de água, instalações de armazenamento de alimentos e rotas de transporte. Elas comprometem o acesso aos mercados e bloqueiam a assistência humanitária", afirmou Bunse.

Mercados árabes (shuks) de Gaza. Há fartura, mas há também os altos impostos cobrados pelo Hamas, que dificultam o acesso da população à comida. No entanto. a ajuda humanitária é enviada gratuitamente | Fotos: Coordinator of Government Activities in the Territories (COGAT)

Fertilizantes e petróleo ampliam incertezas

Outro fator de preocupação é o mercado de fertilizantes. Cerca de um terço desse comércio passa normalmente pelo estreito de Ormuz, cuja operação permanece afetada pelas tensões entre Estados Unidos e Irã e pelos ataques a embarcações no Mar Vermelho.

Diante do aumento dos custos, parte dos agricultores adiou compras de fertilizantes ou optou por culturas menos dependentes desses insumos. Caso essa tendência se mantenha, especialistas alertam para possíveis perdas de produtividade nas próximas safras.

O centro de estudos climáticos Berkeley Earth projeta que as temperaturas no oceano Pacífico poderão subir 3,6°C, quase o dobro do observado durante o El Niño de 2015/2016, o que faria deste o episódio mais intenso já registrado.

Segundo projeções do JPMorgan, se o petróleo voltar a superar US$ 120 por barril, as exportações de grãos da Ucrânia forem ainda mais prejudicadas e o El Niño reduzir significativamente as próximas colheitas, a inflação global dos alimentos poderá superar 5% em 2027. Os mercados emergentes seriam os mais afetados e o número de pessoas em situação de fome poderá crescer de forma expressiva.

O post El Niño intenso amplia risco de crise alimentar global apareceu primeiro em Revista Oeste.

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