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O Secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Edward Miliband, se transformou em uma estrela midiática nas últimas duas semanas usando Israel como trampolim. “A situação na Palestina é uma emergência moral”, afirmou no dia 8 de setembro, no comunicado em que anunciou que o governo britânico irá impor restrições comerciais a produtos provenientes de assentamentos israelenses na Cisjordânia.
A decisão foi tomada depois do anúncio de uma licitação para o desenvolvimento do Corredor E1, uma faixa de terra estratégica de 12 quilômetros quadrados entre Jerusalém e o assentamento de Ma’ale Adumim, onde hoje vivem cerca de 40 mil judeus. Segundo Miliband, “ela destruirá o projeto de dois Estados” — como se a invasão do Hamas em outubro de 2023 já não o tivesse feito.
Três dias antes, ele havia divulgado um vídeo acusando Israel de impedir o tratamento médico de palestinos em Gaza. “A entrada de remédios está sendo bloqueada e crianças estão morrendo enquanto aguardam tratamento médico", afirmou. "Temos que agir mais decisivamente do que nunca.”
Acusações contra Israel, mas sem investigação
A divulgação do vídeo não foi seguida por nenhum pedido de investigação da parte do governo inglês. Miliband citou relatos de médicos e trabalhadores humanitários como evidência de que medicamentos estariam sendo bloqueados, mas não apresentou informações que permitissem verificar quais medicamentos teriam sido impedidos de entrar, quando ou em que circunstâncias.
Segundo dados oficiais de Israel, mais de 22,5 mil toneladas de medicamentos e equipamentos médicos entraram em Gaza desde o cessar-fogo. Dados da Organização das Nações Unidas confirmam que esses suprimentos estão chegando a hospitais e unidades de saúde. Além disso, há cerca de 200 palestinos atualmente em tratamento no exterior.
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Essas informações são públicas e estão especialmente disponíveis para o secretário, uma vez que o Reino Unido vinha participando, lado a lado com Israel, de mecanismos de segurança e coordenação relacionados a Gaza.
Depois de desferir as acusações, o secretário tentou apresentar também um tom conciliador, lembrando sua origem judaica e reafirmando o direito de Israel à autodefesa. Sua intenção foi, aparentemente, salvaguardar a parceria entre o governo britânico e o israelense na área de segurança e inteligência.
Ainda é cedo para saber se foi bem-sucedido: a reação inicial de Israel, no próprio dia 8, foi contundente.
Consequências políticas
O ministro do Exterior israelense, Gideon Sa’ar, veio a público para anunciar a dura resposta israelense. “Essa é uma interferência flagrante nos assuntos internos e no processo eleitoral de Israel”, acusou. As eleições nacionais ocorrerão em 27 de outubro.
Entre as primeiras medidas tomadas por Tel-Aviv estão:
- o fechamento do consulado britânico em Jerusalém;
- a proibição de ingresso no país de 12 autoridades, parlamentares e outros cidadãos britânicos, alguns dos quais estiveram envolvidos, no passado, em atividades antissemitas ou anti-Israel;
- o rompimento do acordo que permite aos britânicos treinar as forças de segurança da Autoridade Palestina em Ramala; e
- a expulsão dos representantes britânicos que participam do Centro de Coordenação Militar, um quartel-general multinacional coordenado pelos Estados Unidos para monitorar o cessar-fogo em Gaza e planejar a estabilização do território.
Membros da oposição britânica vieram a público para manifestar sua desaprovação às declarações de Miliband. Analistas internacionais afirmam ter se tratado de uma atitude com fins puramente eleitorais. “Há uma migração de eleitores do partido Trabalhista para o Partido Verde", argumentou Maya Sion-Tzidkiyahu, diretora do Programa de Relações Brasil-Europa no think tank Mitvim – Israeli Institute for Regional Foreign Policies. "São pessoas que acreditam que o governo inglês não é suficientemente duro com Israel em relação ao que o público progressista acredita.”
Anunciar as sanções seria, assim, um tiro certo no alvo da mídia e no coração dos eleitores.
De qualquer maneira, o embate entre Londres e Jerusalém não é novo, embora tenha se intensificado nos últimos três anos. Londres recentemente decretou sanções contra ministros israelenses, restringiu a exportação de armamentos, suspendeu negociações comerciais e reconheceu unilateralmente um Estado palestino no auge da guerra entre Israel e o Hamas.
Grave erro de cálculo
Miliband, filho de judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, recusou publicamente o conselho do rabino-chefe das comunidades judaicas ortodoxas do Reino Unido e da Commonwealth, Ephraim Mirvis. Segundo o líder religioso, anunciar as sanções nesse momento aumenta a tensão que já vivem os judeus britânicos que frequentarão as sinagogas do país durante os próximos dias de celebração do Ano Novo Judaico (Rosh Hashaná) e, dez dias depois, do Dia do Perdão (Yom Kipur).
No ano passado, um atentado contra a sinagoga de Manchester, em 2 de outubro, deixou dois mortos e três feridos em estado grave. O rabino não foi ouvido.
O presidente israelense Isaac Herzog chamou as sanções de “grave erro de cálculo, uma interferência grosseira em eleições democráticas em um país soberano e uma decisão que ficará registrada no lado errado da história. Sanções não são uma solução — o diálogo é".
Já o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, principal impulsionador da expansão dos assentamentos na Cisjordânia dentro da coalisão de governo de Benjamin Netanyahu, foi menos diplomático: “O Mandato Britânico na Terra de Israel acabou”.
Leia também: "A guerra depois da guerra", reportagem publicada na Edição 335 da Revista Oeste
O post Israel, o trampolim dos ‘progressistas’ ingleses apareceu primeiro em Revista Oeste.


