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O 11 de setembro dos furacões

A temporada de furacões no Atlântico nos EUA em 2026 está abaixo da média climatológica. Ela acabou de passar pelo seu ponto máximo de atividades, segundo as estatísticas de dados, o que ocorre geralmente nos primeiros quinze dias do mês de setembro, com o dia 11 apresentando o ápice da série acumulada com o maior número de ocorrências. O prognóstico da temporada já considerava os efeitos atenua

A temporada de furacões no Atlântico nos EUA em 2026 está abaixo da média climatológica. Ela acabou de passar pelo seu ponto máximo de atividades, segundo as estatísticas de dados, o que ocorre geralmente nos primeiros quinze dias do mês de setembro, com o dia 11 apresentando o ápice da série acumulada com o maior número de ocorrências. O prognóstico da temporada já considerava os efeitos atenuantes do El Niño, em curso desde agosto de 2026. Mesmo assim, três ciclones tropicais classificados como furacões se formaram simultaneamente no Pacífico Leste, próximo à costa oeste dos Estados Unidos. Os sistemas, porém, permaneceram sobre o oceano.

Em meados de 2026, apresentamos o prognóstico da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e do Centro Nacional de Furacões (NHC) dos EUA para a temporada. Divulgada em maio, a previsão apontava 55% de chance de atividade abaixo da média climatológica de 1991 a 2020, 35% de uma temporada dentro da normalidade e apenas 10% de atividade acima da média. Isto significou que poderíamos ter de oito a 14 ciclones tropicais nomeados, com três a seis deles se tornando furacões e, dentro destes, de um a três podendo entrar na categoria de furacões de alta intensidade (CAT–3 a 5 na escala Saffir-Simpson).

Até o fechamento deste texto, a temporada do Atlântico não apresentou um ciclone tropical que sustentasse ventos para ser classificado como furacão (ou seja, atingisse a CAT–1). Foram registrados seis ciclones tropicais que atingiram a categoria de tempestades tropicais. A lista de nomes desta temporada repetiu a utilizada em 2020, exceto pelo nome Laura, que, por causa da severidade e destruição causados naquele ano, foi substituído por Leah. Os sistemas registrados foram Arthur, Bertha, Cristóbal, Dolly e Édouard, sendo que este último se extinguiu em 2 de setembro. Na manhã do dia 21, surgiu Fay, que atingiu a classificação de tempestade tropical também, mas com prognóstico de decair até quarta-feira 23.

A data dos furacões

O baixo número de sistemas nomeados e a atividade ciclônica relativamente fraca influenciaram a reavaliação do prognóstico, realizada antes da metade da temporada. Assim, em agosto de 2026, houve o reporte do novo prognóstico, em que o número de ciclones tropicais nomeados caiu para a faixa de sete a 13. Para a ocorrência de furacões, o limite inferior caiu uma ocorrência, ficando agora entre dois a seis. A reavaliação ponderou na ocasião que poderíamos não ter registro de furacões de alta intensidade, ou, no máximo, duas ocorrências até o final da temporada atlântica.

Mesmo o número baixo de sistemas mais fracos não impediu que perdas de vidas e materiais deixassem de acontecer. A primeira tempestade tropical, Arthur, ocorrida entre 17 a 18 de julho, atingiu o México e parte Sul dos Estados do Texas e Louisiana, nos EUA, ocasionando quatro óbitos no México e prejuízos estimados de US$ 1 bilhão, substancialmente para o lado mexicano, quando o período mais intenso do sistema atingiu o norte do país. Nos EUA, os Estados tiveram uma carga de precipitação acumulada na ordem de 800 mm e o golfo foi varrido por dezenas de tornados moderados, subproduto das bandas de nebulosidade em decaimento da tempestade.

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Curiosamente, a data de 11 de setembro é tida como o dia em que mais se registraram furacões e tempestades tropicais ativos dentro das estatísticas climatológicas dinâmicas sobre os sistemas da bacia do Atlântico. Porém, essa mesma data marca o recorde do dia mais tardio dentro de uma temporada, sem o registro de um ciclone tropical que atingiu a classificação de furacão.

Dentro da Era dos Satélites, o registro de furacão mais tardio dentro de uma temporada foi dado pelo furacão Gustav, em 11 de setembro de 2002, repetido apenas pelo furacão Humberto, no mesmo dia, em 2013. A temporada atual quebrou esse recorde, pois se passou o dia 11 de setembro de 2026 e nenhum furacão foi registrado. Na data do recorde, o NHC publicou o mapa de varredura de sistemas em seu sítio da internet com um aviso de que não havia prognóstico de ocorrência de ciclones tropicais para os próximos sete dias (Fig.1). De qualquer forma, a temporada de 2026 entrou como o oitavo ano na Era dos Satélites e entrarem no mês de setembro sem nenhum furacão registrado.

Fig.1 – Mapa sinóptico de monitoramento e alerta sobre a atividade de distúrbios e ciclones tropicais no oceano Atlântico Norte emitido pelo NHC, em 11 de setembro de 2026. No auge da temporada, o inusitado aviso de que não havia perspectiva de ocorrência de ciclones tropicais por mais sete dias | Foto: NHC, 2026

Enquanto atenua a formação de ciclones tropicais no Atlântico, o El Niño favorece a ocorrência desses sistemas no nordeste do Oceano Pacífico, onde provoca o aquecimento das águas entre a costa oeste das Américas Central e do Norte e a região a leste do Havaí. Geralmente neste setor do Pacífico há um número muito baixo de ocorrências de ciclones tropicais, os quais também são denominados como furacões, quando atingem as velocidades definidas pela escala Saffir-Simpson.

Grande parte dos ciclones tropicais do Pacífico ocorre entre o setor central do oceano e a costa de países asiáticos, como o Japão. Nessa extensa área de mar aberto, as elevadas Temperaturas da Superfície do Mar (TSM) favorecem a formação de ciclones tropicais de grande intensidade, chamados de tufões no Pacífico Noroeste. Esses sistemas apresentam estrutura semelhante à dos furacões e podem alcançar grandes dimensões, com extensas bandas de nuvens associadas.

Embora o Pacífico Nordeste registre um número menor de furacões, o Pacífico se destaca como o mais ativo dos três oceanos na ocorrência de ciclones tropicais. Isso se deve, sobretudo, à elevada quantidade de tufões no Pacífico Noroeste, que faz o total anual de ciclones tropicais no oceano superar, na maioria dos anos, o registrado nos demais. O Pacífico Noroeste é, de fato, a região oceânica mais ativa do planeta, tanto pelo número de tufões quanto pela ocorrência de sistemas intensos e persistentes.

Na primeira semana de setembro, a temporada de 2026 no Pacífico apresentou uma situação pouco comum: três ciclones tropicais atuaram simultaneamente e todos atingiram a categoria de furacão. Segundo o NHC, a média climatológica de 1991 a 2020 para a região é de oito furacões por temporada. A presença de três deles ao mesmo tempo, portanto, chamou atenção. Um episódio semelhante, porém mais intenso, ocorreu em 2015, também durante um período de El Niño. Na ocasião, três furacões alcançaram simultaneamente a categoria 4 da escala Saffir-Simpson. Os sistemas de 2026 receberam nomes conforme a lista estabelecida para o Pacífico. O prognóstico para a temporada já indicava atividade acima da média, cenário associado às condições provocadas pelo El Niño.

Os “três mosqueteiros” do Pacífico foram os furacões Lowell, Marie e Karina. Lowell, o mais intenso deles, atingiu a categoria 5 e atuou entre 27 de agosto e 11 de setembro, a oeste do Havaí, sem alcançar o arquipélago. O sistema entrou na lista de furacões da temporada por ter se formado no Pacífico Nordeste. Marie atuou entre 1º e 8 de setembro. Inicialmente classificada como tempestade tropical, evoluiu para furacão e alcançou a categoria 2 enquanto permanecia a mais de 600 quilômetros da costa oeste do México, na altura da Península da Baja California. Entre os dois sistemas estava Karina, que atuou de 27 de agosto a 7 de setembro, a nordeste do Havaí. Mais próximo do arquipélago, o furacão chegou à categoria 4 (Fig. 2).

Fig.2 – Imagem de satélite GOES-19 mostra três ciclones tropicais no oceano Pacífico – da esquerda para a direita: o furacão Lowell, o furacão Karina e a tempestade tropical Marie, antes de se tornar furacão | Foto: CIRA, NOAA, 2026

Até o fechamento deste texto, ainda tivemos um quadro mais inusitado. Nenhum furacão operando no Atlântico e nem no Pacífico Leste, de 11 a 19 de setembro, bem como ausência de tufões no Pacífico Oeste. Em 18 de setembro, o NHC apresentou um distúrbio no centro do Atlântico Norte com a probabilidade de apenas 40% em evoluir para um ciclone tropical, mas nenhum prognóstico de sua evolução para um furacão. No dia 20 tivemos o surgimento de dois ciclones tropicais no Pacífico que atingiram a classificação de tempestades tropicais, Odalys e Polo. No dia 21, como descrito acima, a tempestade tropical Fay surgiu, mas com seus dias contados.

De qualquer forma, chama atenção que, em pleno auge das temporadas de ciclones tropicais nos dois oceanos, tenha transcorrido mais de uma semana sem o registro desses sistemas. Além disso, os distúrbios com potencial para evoluir para ciclones tropicais têm se formado longe da costa, mas apresentado pouco desenvolvimento antes de perder força.

Enquanto as temporadas seguem, tivemos de aguentar mais bobagens alarmistas proferidas pelo atual secretário-geral da ONU, António Guterres, que reagiu ao recente relatório publicado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), também da ONU, cujo teor abordou o El Niño em curso. Segundo a OMM, “o fenômeno está firmemente estabelecido e se intensificará em um evento muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nas chuvas e nos padrões de temperatura e riscos associados de inundações, ‘seca’ e calor extremo”.

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Até aí, nenhuma novidade. O relatório apenas reiterou efeitos do El Niño conhecidos há décadas e hoje mais bem compreendidos graças aos dados obtidos por satélites e boias oceanográficas. Para Guterres, porém, o cenário seria bem mais dramático. O secretário-geral da ONU, conhecido pela expressão “ebulição climática”, afirmou que o El Niño estaria “sendo superdimensionado diante dos nossos olhos”. Resta saber o que exatamente estaria se materializando diante deles. A declaração faz lembrar os monstros desenhados nos antigos mapas, à espreita em mares desconhecidos. A comparação ganha ainda mais sentido diante de outra afirmação de Guterres: “A ciência não deixa margem para dúvidas: o planeta está em águas desconhecidas, e essas águas estão se aquecendo”.

Não, Guterres, o planeta não navega por águas desconhecidas. Temperaturas mais elevadas já ocorreram no passado e, memso assim, a natureza não apenas sobreviveu como prosperou. Quanto à ciência — à ciência baseada na observação —, o que temos diante de nós é um quadro conhecido: temporadas de ciclones tropicais cuja atividade varia sob a influência de fenômenos de escala planetária. Neste momento, um deles é o El Niño, que pode alcançar forte intensidade. Suas teleconexões influenciam padrões meteorológicos em diferentes regiões do planeta e ajudam a explicar parte dessas variações. Cabe à humanidade aumentar sua resiliência aos efeitos desses fenômenos, preparando-se para eventos de maior intensidade com pragmatismo, conhecimento e planejamento. O restante é discurso alarmista que, por si só, pouco contribui para proteger a sociedade.

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