O (falso) Messias do Planalto
Por Marlon Reguelin* Na ultima semana, falando a cerca de 30 pastores evangélicos no Palácio do Planalto, Lula teve a pachorra de dizer que usava o “sangue de Cristo” para justificar o vermelho da bandeira petista; foi além, disse que, quando perguntado sobre a própria barba, respondia que "Jesus Cristo era barbudo". Para quem acompanha o indivíduo há décadas, a cena não surpreende — surpreend
Por Marlon Reguelin*
Na ultima semana, falando a cerca de 30 pastores evangélicos no Palácio do Planalto, Lula teve a pachorra de dizer que usava o “sangue de Cristo” para justificar o vermelho da bandeira petista; foi além, disse que, quando perguntado sobre a própria barba, respondia que "Jesus Cristo era barbudo". Para quem acompanha o indivíduo há décadas, a cena não surpreende — surpreende, na verdade, não ter mais capacidade de surpreender. Lula não estava inaugurando uma retórica. Estava apenas acrescentando mais um capítulo a uma coleção que já é longa o suficiente para render uma epistola apócrifa só dele.
Uma cronologia de comparações
Lá em 2018, ao lançar a pré-candidatura que a Justiça acabaria barrando, Lula misturou perseguição judicial com crucificação: disse que "Jesus Cristo foi condenado à morte sem dizer uma palavra", comparando sua própria situação na Lava Jato — um esquema multibilionário de corrupção — à do Nazareno diante de Pôncio Pilatos. Em 2022, já em campanha, disse a fiéis batistas que era perseguido "assim como Jesus", em busca de igualdade. Entre uma eleição e outra, cultivou o hábito de sugerir mandato divino: "Se tem um brasileiro que não precisa provar que acredita em Deus, esse brasileiro sou eu", chegou a dizer, endossando publicamente que "não teria chegado aonde chegou se não fosse a mão de Deus dirigindo seus passos".
Num dos episódios mais ridículos dessa lista, embaralhou a comparação com Cristo a uma (des)informação absolutamente incorreta sobre Tiradentes — que não foi crucificado, mas enforcado e esquartejado.
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Detalhe histórico à parte, a retórica é sempre a mesma: tentar se colocar ao lado da maior figura de sacrifício e redenção que a história mundial conhece.
O episódio recente, e o porquê dele agora
A fala dessa vez segue a mesma fórmula, só que com um verniz mais folclórico — bandeira e barba, em vez de perseguição e cruz. O timing não é acidente. O encontro aconteceu a menos de 20 dias da eleição, num momento em que a pesquisa Quaest mostra Flávio Bolsonaro com 51% das intenções de voto entre evangélicos num cenário de segundo turno, contra apenas 28% de Lula.
Que ninguém banque o ingênuo. Não é fé que motiva o encontro com pastores; é aritmética eleitoral. Um segmento que soma dezenas de milhões de votantes está escapando, e a resposta encontrada não foi uma agenda de políticas públicas voltada a esse eleitorado, mas uma nova rodada de analogias bíblicas imaginárias tentando vincular o transcendente ao material.
Metáfora ou hábito?
Comparar-se a Jesus uma vez poderia ser interpretado como um exagero pontual, um deslize de péssimo gosto, quiça um artificio retórico em tempos de campanha — ainda assim algo isolado. Fazer isso de forma recorrente, por décadas, cada vez que a popularidade cai ou a eleição aperta, é outra coisa — e digo, beira o estelionato religioso. A mensagem central do cristianismo é sobre humildade e dependência diante de Deus, jamais um escudo publicitário a favor de partido político.
Se aquela velha barba e o encardido vermelho da bandeira precisam mesmo de uma explicação religiosa, é porque talvez não haja mais redenção terrena possível para o falso Messias.
*Marlon Reguelin. Jornalista e teólogo, é articulista no Instituto Liberal e em Oeste. Escreve sobre política, história e cosmovisão.
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