O melhor protesto é votar certo
As eleições do último domingo, 4, mostraram que os eleitores já não se deixam seduzir por celebridades e subcelebridades em busca de votos. Não basta ser famoso para conseguir uma vaga. Nomes que em outros tempos possivelmente teriam garantido um emprego bem remunerado e cheio de penduricalhos por pelo menos quatro anos, desta vez passaram despercebidos. Uma das poucas exceções é Thammy Miranda,
As eleições do último domingo, 4, mostraram que os eleitores já não se deixam seduzir por celebridades e subcelebridades em busca de votos. Não basta ser famoso para conseguir uma vaga. Nomes que em outros tempos possivelmente teriam garantido um emprego bem remunerado e cheio de penduricalhos por pelo menos quatro anos, desta vez passaram despercebidos. Uma das poucas exceções é Thammy Miranda, filho da cantora Gretchen. Com menos de 86 mil votos, o ex-dançarino, cantor e modelo, que já cumpria seu segundo mandato como vereador da capital paulista, elegeu-se deputado estadual. O ator Thiago Gagliasso elegeu-se deputado federal pelo Rio de Janeiro.
O time dos famosos que tiveram a carreira abortada ou encerrada pelas urnas inclui os ex-jogadores de futebol Goleiro Sérgio, Dinei, Finazzi, Luís Fabiano, Marcelinho Carioca, além do técnico Vanderlei Luxemburgo. O bloco dos apresentadores ou ex que não vingaram nas urnas conta com José Luiz Datena, Geraldo Luís, Sikêra Jr., Rachel Sheherazade e Sílvia Abravanel, filha de Sílvio Santos, que usou o nome do pai na campanha, mas nem isso resolveu. Na ala mista dos enjeitados estão, entre outros, os atores Humberto Martins e Lucas Penteado, os cantores Netinho de Paula e MC Gui, a ex-paquita Andréa Sorvetão, o jogador de sinuca Baianinho de Mauá, a youtuber Antônia Fontenelle e os indefiníveis Eduardo Xaropinho do Ratinho, Marquito do Ratinho, Val Marchiori, Inês Brasil e Caneta Azul. O chamado voto de protesto, que poderia levar alguns deles à tribuna, não cola mais. Os ressabiados eleitores brasileiros aprenderam que a melhor forma de protestar é votando com seriedade.
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Nas eleições de 2010, o palhaço Tiririca pediu votos para a Câmara dos Deputados com um argumento inusitado: “Pior do que tá não fica”. Eleitores experientes sabiam que sempre poderia piorar, e que para ser palco de palhaçadas Brasília não dependia de um profissional. Francisco Everardo de Oliveira Silva obteve fama nacional nos anos 1990 com Florentina, uma mistura de música e peça cômica, que vendeu 1,5 milhão de cópias. Depois de decolar na carreira, Tiririca lançou-se na política. "Você sabe o que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei, mas vote em mim que eu te conto", dizia. Enquanto muitos viam sua candidatura como desmoralização do processo político, outros tantos encontraram em sua figura a possibilidade de exercer um voto de protesto.
Tiririca elegeu-se com mais de 1,3 milhão de votos e ainda puxou para a Câmara mais três candidatos. Repetiu o feito outras três vezes, sempre por São Paulo, mas os votos foram minguando: cerca de 1 milhão em 2014; menos de 500 mil em 2018; e em torno de 72 mil em 2022, quando teve de ser puxado. No domingo 4, concorrendo pela primeira vez pelo Ceará, sua terra natal, mal passou dos 5 mil votos e ficou fora da Câmara. O fracasso de Tiririca e de incontáveis subcelebridades mostram que a palhaçada acabou. A paciência e o senso de humor dos brasileiros foram aniquilados por um cenário de insegurança e medo. A situação do país já não permite desperdiçar o voto.
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Em tempos mais otimistas, e quando o voto em papel permitia “acrescentar” candidatos, eleições foram marcadas por personagens como o bode Ioiô, conterrâneo de Tiririca. O animal, que costumava vagar pelo centro de Fortaleza, tornou-se o que hoje seria classificado como “mascote comunitário”. No pleito de 1922, eleitores da capital cearense deram ao bode centenas de votos para vereador, o que não era pouca coisa num eleitorado de umas 3 mil pessoas — na época só homens alfabetizados com mais de 21 anos tinham direito a voto. Em 1959, um bicho de outra espécie deixou Ioiô bem para trás. O rinoceronte Carareco ficou famoso em todo o país ao receber cerca de 100 mil votos — mais do que qualquer partido — para vereador em São Paulo. Carareco era de fato uma fêmea emprestada pelo zoológico do Rio de Janeiro ao da capital paulista, e teve sua candidatura lançada por jornalistas durante uma crise de abastecimento de alimentos.
O exemplo de Cacareco, o mais notório caso de voto de protesto da história do Brasil, inspirou outra candidatura, desta vez de um macaco, em 1988. Tião, morador do zoológico do Rio, era conhecido pelo temperamento irascível e pelas atitudes desaforadas, como jogar excrementos em visitantes. No início daquela década, ganhou repercussão nacional ao agredir o prefeito Júlio Coutinho. Em reportagem no Fantástico, Sérgio Chapelin narrou: “...o prefeito, ao ser indagado do motivo da agressão, respondeu à repórter Fernanda Esteves que talvez Tião não tenha gostado da reforma da jaula que o próprio prefeito tinha ido inaugurar no zoológico.” Em 1988, a revista Casseta Popular (um dos embriões do Casseta & Planeta), lançou a candidatura do chimpanzé para suceder Saturnino Braga na Prefeitura do Rio. Marcello Alencar venceu o pleito com quase um milhão de votos, tendo Jorge Bittar em segundo lugar, com mais de meio milhão e, em terceiro, Álvaro Valle, com menos de 400 mil. Como o Macaco Tião obteve cerca de 400 mil votos, se a candidatura valesse desbancaria Valle e ficaria muito à frente de nomes como Artur da Távola e Roberto Jefferson.
Os tempos são outros. A gravidade do cenário naciona já não dá espaço para desperdiçar o voto mandando recados por meio de escolhas debochadas. É preciso mudar de verdade. Até porque os atuais inquilinos do poder não estão para brincadeiras.
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