EDIÇÃO DO DIA · 18 de outubro de 2026 --:--:-- COLUMBUS 9ºC
AO VIVO

BRASIL ESTADO

O paradoxo israelense nas urnas

A poucos dias da primeira eleição para a formação de um novo governo desde o início da guerra, a sociedade israelense está bastante dividida. A criação de um Estado palestino, tema que dividiu a política em dois campos durante décadas, perdeu seu lugar de destaque para a segurança, que está no centro das preocupações israelenses. A ausência de uma comissão estatal independente para investigar

A poucos dias da primeira eleição para a formação de um novo governo desde o início da guerra, a sociedade israelense está bastante dividida. A criação de um Estado palestino, tema que dividiu a política em dois campos durante décadas, perdeu seu lugar de destaque para a segurança, que está no centro das preocupações israelenses.

A ausência de uma comissão estatal independente para investigar as falhas que permitiram o pior massacre de judeus desde o Holocausto tornou-se mais um foco de disputa política, envolvendo o governo de Benjamin Netanyahu, a oposição e a Suprema Corte.

As campanhas eleitorais têm se mostrado agressivas e pouco objetivas: muito se sabe sobre o que os candidatos sentem (e de que se ressentem), mas quase nada sobre o que planejam fazer caso assumam a liderança do país. A polarização política, que dificulta o diálogo entre diferentes setores da sociedade, tornou-se uma das marcas do momento atual.

A polarização, no entanto, é uma tendência global. O que chama a atenção é o fato de Israel manter sua solidez mesmo neste período, após uma invasão mortífera e desmoralizante seguida pela abertura de sete frentes de guerra — um cenário que levaria à lona muitos países do mundo.

Esse é o paradoxo israelense: é uma sociedade profundamente dividida, mas que demonstra uma extraordinária capacidade de união diante de ameaças externas.

Como explicar essa capacidade de resistência?

Reproduzir

Israel, uma nação jovem com 3 mil anos de história

Em meio a discussões vazias a respeito do direito à existência de Israel, a maioria do público global desconhece sua realidade histórica: a nação judaica é uma das mais antigas do mundo. Nos últimos 3 mil anos, o povo judeu sobreviveu, nessa região, a inúmeros ataques, combates e expulsões — entre eles, o exílio babilônico, iniciado no século VI a.C., e o promovido pelos romanos, em 70 d.C. Os reinos de Israel e Judá eram, então, fracos diante dos grandes impérios da Antiguidade.

Hoje, sua realidade é completamente diferente. A criação do Estado moderno de Israel proporcionou autonomia e força, sustentadas pela soberania, pelos serviços de inteligência e pelo Exército. Pela primeira vez em quase 2 mil anos, a defesa da população judaica deixou de depender exclusivamente da disposição de governantes estrangeiros em protegê-la.

No momento da partilha da Palestina, em 1947, viviam ali cerca de 600 mil judeus; hoje, eles somam cerca de 8 milhões. Sua população cresceu rapidamente ao incorporar sucessivas ondas de imigrantes de diferentes países dos quais os judeus foram expulsos ou excluídos.

Crescimento acelerado

Entre os movimentos migratórios mais marcantes estão a chegada de sobreviventes do Holocausto na Europa, que aguardavam a oportunidade de emigrar nos campos de deslocados abertos pelo continente, e a imigração de judeus da antiga União Soviética, que trouxe mais de 1 milhão de pessoas ao país a partir do final da década de 1980. Outro episódio marcante foi a Operação Moisés, que, em 1984, resgatou cerca de 8 mil judeus etíopes que haviam fugido a pé até o Sudão, de onde foram transportados secretamente para Israel.

A integração de populações de origens, línguas e culturas tão diferentes tornou-se uma das características mais marcantes do país — e, também, uma das fontes do impulso criativo que deu origem à sua reconhecida capacidade empreendedora. Mais do que oferecer abrigo e segurança, o país proporciona aos judeus um sentimento de pertencimento a uma história e a um destino comuns. Essa identificação, que transcende diferenças de origem, cultura e orientação política, ajuda a explicar o valor que os israelenses atribuem ao país e a dedicação com que o constroem e defendem.

Isso se vê em aspectos militares, mas também em outras dimensões da sociedade. Mesmo durante a guerra, Israel manteve sua posição de país com a mais alta taxa de fecundidade entre os membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com cerca de 2,8 filhos por mulher. Em uma sociedade marcada por guerras e ameaças constantes, a decisão de formar famílias numerosas pode ser interpretada como uma expressão de confiança no futuro.

A força do país também pode ser vista nos resultados de sua economia, que, embora tenha diminuído seu ímpeto, não entrou em colapso, apesar do pesadíssimo custo da guerra. O Banco de Israel anunciou, em julho, uma previsão de crescimento de 4% para 2026 e de 5,5% para 2027.

A resistência israelense, porém, não se explica apenas por indicadores econômicos ou pela capacidade militar. Há também um componente social que ajuda a compreender como o jovem país enfrenta crises.

A solidariedade e a união observadas nas comunidades judaicas pelo mundo expressam-se com força e liberdade dentro de Israel. O resultado é uma sociedade na qual, mesmo em épocas de grandes cataclismos, mantém-se um forte elo de ligação entre seus integrantes.

“A sociedade israelense tem uma identidade dualística, que personifica simultaneamente o individualismo liberal do Ocidente e a resiliência tradicional do Oriente Médio”, afirma o filósofo e escritor israelense Micah Goodman. Essa identidade compartilhada se manifesta claramente nas atuais eleições, em que a fraternidade nacional funciona como um contrapeso à polarização. “É como se nós disséssemos ‘eu te odeio porque você vota em tal candidato, mas eu te amo porque você é israelense’”, resume Goodman.

Diplomacia presente e futura

A capacidade de resistência israelense também se manifesta na diplomacia internacional, que nunca foi um campo fácil para o país. A guerra tornou esse cenário ainda mais complicado, uma vez que a imagem de Israel no exterior foi fortemente prejudicada por sucessivas campanhas de fake news que dominam a mídia internacional.

Ainda assim, os acordos de paz com a Jordânia e o Egito, conhecidos por garantir uma paz fria, mas sólida, permaneceram intactos, assim como os Acordos de Abraão, que estabeleceram relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Marrocos e o Sudão. Outros países serão integrados em breve.

Nesta semana, mais um passo foi dado com o anúncio da construção da sede permanente da embaixada dos Emirados Árabes Unidos em Herzliya, na região metropolitana de Tel Aviv. O complexo de 15 andares abrigará os escritórios da representação diplomática, além de residências para o embaixador e funcionários da embaixada.

A solidariedade e a união observadas nas comunidades judaicas pelo mundo expressam-se com força e liberdade dentro de Israel | Foto: Susan Stava/Reuters

Uma das motivações do ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023, foi destruir o processo de normalização entre Israel e a Arábia Saudita, que naquele momento dava sinais claros de avanço. Hoje, com todas as pedras do Oriente Médio reviradas pela guerra, a Arábia Saudita mostrou-se, neste mês, aberta a uma intervenção militar israelense contra os houthis — desde que encoberta por uma operação americana.

Outro episódio recente ilustra as transformações nas relações regionais. Em 30 de setembro, durante uma tentativa de sequestro de uma aeronave da Flydubai que transportava passageiros israelenses de Dubai para Tel Aviv, as autoridades sauditas autorizaram o pouso de emergência do avião na Arábia Saudita, apesar da ausência de relações diplomáticas formais entre os dois países. Fotos e vídeos dos passageiros israelenses recebendo atendimento de médicos sauditas viralizaram após o pouso.

https://www.facebook.com/watch/?v=1063545513193544

Nada disso significa que Israel seja invulnerável. Mas, como observou o autor Nachum Kaplan, Israel passou por uma transformação clara: “A vulnerabilidade já não é o que define a condição da existência judaica”.

Leia também: "Inteligência estrábica", artigo publicado na Edição 345 da Revista Oeste

O post O paradoxo israelense nas urnas apareceu primeiro em Revista Oeste.

Leia também

VER TODAS ›