O Paraná vai bem, obrigado
Por Marlon Reguelin* O Brasil é um continente. Há muito mais entre o Chuí e o Oiapoque do que apenas milhares de quilômetros. São povos, culturas, sotaques e realidades muito distintas, para bem e para mal. Qualquer tentativa de homogeneizar a diversidade tupiniquim — não apenas cultural, mas principalmente social — é um tremendo equívoco, quando não deliberada má intenção. Há um Brasil que ap
Por Marlon Reguelin*
O Brasil é um continente. Há muito mais entre o Chuí e o Oiapoque do que apenas milhares de quilômetros. São povos, culturas, sotaques e realidades muito distintas, para bem e para mal. Qualquer tentativa de homogeneizar a diversidade tupiniquim — não apenas cultural, mas principalmente social — é um tremendo equívoco, quando não deliberada má intenção. Há um Brasil que aparece nos jornais e há um Brasil que aparece nos gráficos. Nem sempre são o mesmo país.
Enquanto Brasília discute o tamanho do rombo fiscal, crise no STF, paralisia dos investimentos e a temperatura de uma polarização que já dura mais de década, um Estado da Federação vem, silenciosamente, colecionando recordes. Não é surpresa que pouca gente fale dele: fica ao sul do eixo Rio–São Paulo, e a gente sabe que boa parte da grande imprensa nacional tem dificuldade de enxergar o país além da Avenida Paulista. Mesmo assim, os números do Paraná merecem ser vistos — sobretudo por quem defende que existe alternativa ao modelo de país que estamos vivendo.
O Paraná é hoje a quarta maior economia do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais — e à frente do Rio Grande do Sul, que por décadas disputou essa posição.
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Estar em quarto lugar não é a notícia mais interessante; a trajetória, sim. No segundo trimestre de 2026, o Estado bateu a menor taxa de desemprego de sua história, 3,1%, quase a metade da média nacional, que ficou em 5,4%. Em julho, as exportações paranaenses cresceram 12,7% na comparação anual, batendo US$ 2,34 bilhões só naquele mês. Ao longo dos últimos anos, o Estado atraiu cerca de R$ 400 bilhões em novos investimentos industriais, e o governador Ratinho Junior (PSD) tem falado abertamente sobre um horizonte em que o Paraná ultrapassa Minas Gerais para se tornar a terceira economia do país.
Alguém poderá dizer que isso é propaganda de governo. Não é. Quem chancela a pujança paranaense são IBGE, Banco Central, Pnad e afins — números que resistem a qualquer viés editorial.
Uma ponte de 70 anos
Se existe uma imagem capaz de resumir essa práxis política, certamente é a ponte sobre a baía de Guaratuba, no litoral paranaense, inaugurada em maio deste ano. Os moradores, que esperavam havia mais de 70 anos por uma ligação entre Guaratuba e Matinhos, dependiam de um ferry-boat, o que, em dias de alta temporada, transformava uma travessia de poucos minutos em horas de fila sob o sol. A obra, de 1,2 quilômetro, custou cerca de R$ 400 milhões e reduziu a travessia a apenas dois minutos.
O que mais interessa não é a engenharia, é o timing: o projeto foi anunciado, planejado e entregue dentro do mesmo ciclo de governo, depois de gerações de promessas. Um contraste e tanto com a cultura política nacional, acostumada a anunciar obras que jamais verão concluídas.
Educação sem medo de dar certo
Outro dado recente reforça o padrão: recém-divulgado pela OCDE e pelo Inep, o Pisa 2025 colocou o Paraná na liderança entre os Estados brasileiros nas quatro áreas avaliadas — Leitura, Ciências, Matemática e Resolução de Problemas com Ferramentas Computacionais —, à frente de São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais.
Mais do que isso, os estudantes paranaenses superaram todos os países latino-americanos avaliados, incluindo Chile e Uruguai, referências históricas em educação no continente. É difícil arranjar um contraste mais direto com o discurso nacional sobre a crise da educação — pública, gratuita e, supostamente, de qualidade.
Enquanto o governo Lula extinguiu, em 2023, o programa nacional de escolas cívico-militares — mesmo diante de resultados positivos documentados —, o Paraná fez o caminho oposto: expandiu o modelo de 196 para quase 350 unidades em 2026. Os números não deixam muita margem para debates ideológicos.
No Ideb mais recente, 89% dos colégios cívico-militares do ensino fundamental (anos finais) e 95,2% dos de ensino médio atingiram ou superaram a média nacional. Um estudo publicado no International Journal of Educational Development encontrou queda de cerca de 10% na reprovação e ganhos de mais de 15 pontos em matemática e de quase 12 em português nas escolas que adotaram o modelo — além da óbvia redução da violência, dos roubos e da presença de drogas e armas.
Há também o programa “Ganhando o Mundo”, que já levou mais de 1,2 mil estudantes da rede pública (na maioria mulheres) para intercâmbios em países de língua inglesa na América do Norte, Europa e Oceania.
É o tipo de política pública que não se alinha com aquela preconizada em Brasília, mas que funciona muito bem.
Segurança em números
Se há uma área em que o brasileiro sente na pele a diferença entre discurso e prática, é a segurança pública.
De janeiro a julho de 2026, o Estado registrou 658 homicídios dolosos; na comparação com 2018 (1.145 casos), a queda é de 43%. Os roubos de veículos caíram 58% no mesmo intervalo.
O Atlas da Violência 2026, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, coloca o Paraná na faixa de menor incidência de homicídios do país: 18,9 por 100 mil habitantes, contra uma média nacional de 21,2 — e bem abaixo dos 24,3 do Rio de Janeiro.
Em quase 70% dos municípios paranaenses, não houve um único homicídio registrado no primeiro trimestre deste ano. E o Ministério da Justiça confirmou, em agosto, que o estado não apenas teve a menor taxa de tentativas de homicídio do Brasil, como também liderou a redução desse indicador.
Não é resultado de um ano isolado nem maquiagem estatística, mas de mais de uma década de queda consistente, sustentada por investimento em efetivo, estrutura e integração entre as polícias.
O contraste entre Curitiba e Brasília
O interessante é que todo esse desempenho acontece exatamente enquanto o país, como um todo, patina. A economia nacional cresce a reboque do agro (tão odiado por alguns setores da base governista) e de um punhado de Estados, com o eixo mais industrializado — o Sudeste, especialmente São Paulo — padecendo sob o peso de altos juros e incerteza regulatória.
O governo federal trata qualquer sinal de atividade econômica como vitória pessoal na mesma medida em que ignora ou trata como ruído qualquer notícia que desminta o relato oficial de que em Brasilia "tudo vai bem". A ironia é que, se alguém por lá quisesse mostrar o que realmente vai bem, o material estaria logo ali, ao sul — sob a gestão de um governo que nunca fez questão de embarcar nas narrativas, e menos ainda nas brigas, do Planalto.
Não é coincidência que o Paraná performe bem em economia, infraestrutura, educação, saúde e segurança pública ao mesmo tempo, e que pratique, em escala estadual, o oposto do que vemos em Brasília: equilíbrio fiscal em vez de gastos desmedidos para tapar buraco político; parceria com o setor produtivo em vez de hostilidade ao capital privado; obras entregues — a modernização do Porto de Paranaguá, um dos mais eficientes do país, o Trevo Cataratas, a duplicação de rodovias estratégicas — em vez de promessas sistematicamente adiadas; políticas públicas mantidas e ampliadas quando funcionam, não extintas por reflexo ideológico.
Enquanto o debate público nacional se resume a quem grita mais alto, o Paraná escolheu evitar o confronto ideológico como método e apostar em resultado como discurso. Funciona! Os números aí estão.
Por que quase ninguém fala disso
Se a história é tão boa, por que não vira case nacional? Por dois motivos, e ouso dizer que nenhum deles é acidental.
O primeiro é geográfico: a imprensa de circulação nacional enxerga o Brasil a partir do entroncamento Rio-São Paulo; quase tudo ao sul dessa linha tende a ser tratado como assunto regional, não nacional.
O segundo é político: um exemplo de gestão que funciona sem vestir o figurino ideológico do governo federal é, para boa parte dessa mesma imprensa enviesada, um incômodo. Às vezes é mais fácil noticiar crise.
O Paraná oferece justamente esse contraponto: menos Estado como protagonista e mais Estado como parceiro; segurança jurídica para quem investe; disciplina fiscal como prática, não como discurso.
Óbvio, não é um paraíso liberal — nenhum estado brasileiro é —, mas é a prova de que pragmatismo administrativo, mesmo dentro das amarras do federalismo tupiniquim, produz resultado em série e em várias áreas.
O Paraná que Moro recebe
Falando como paranaense — de nascimento, sotaque e teimosia —, confesso que nunca foi fácil explicar ao resto do Brasil o que temos aqui. Por muito tempo, fomos coadjuvantes: o Estado “ao lado” de São Paulo, o caminho para as praias catarinenses, a terra do frio, do pinhão, do mate e da soja. Quem é daqui sempre soube o valor dessa terra; o forasteiro nem sempre parava para olhar. Talvez por isso, ver o Paraná no topo desses rankings me cause, mais do que surpresa, um grande orgulho.
Também por isso acompanhei com bastante atenção a cena da última quinta-feira, 15, no Palácio Iguaçu: Ratinho Junior, depois de quase oito anos no cargo, recebendo o governador eleito Sergio Moro (PL) para abrir a transição e franquear à nova equipe os dados do Estado. Moro falou em “diálogo, responsabilidade e transparência” e na continuidade dos serviços — e já havia dito que pretende manter o que dá certo. Num país em que troca de governo costuma ser sinônimo de gaveta vazia e discurso de herança maldita, é um gesto que não deveria ser notícia. Mas é.
E a herança, graças a Deus, não é maldita. O Paraná que Moro recebe tem mais de R$ 27 bilhões em caixa, o terceiro maior do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. Investiu R$ 7,6 bilhões só até agosto — recorde histórico, 300% acima de 2018 — e tem dívida líquida negativa, o que lhe garante a melhor nota de capacidade de pagamento do Tesouro. Educação e saúde, áreas fundamentais na vida do cidadão, recebem investimentos acima do que a lei exige.
Nem tudo é dinheiro livre, é bem verdade — parte é vinculada, parte já está comprometida. Mas, enquanto Brasília discute como fechar a conta (se é que vai), o Paraná discute o que fazer com ela. Quem assume não vai precisar arrumar a casa. Vai precisar cuidar dela.
Como cidadão, o que espero do próximo governo é simples: que não invente moda onde as coisas funcionam. Que a ponte siga de pé, que as escolas continuem ensinando, que a polícia continue bem esquipada e ostensiva e que as contas continuem fechando. Da varanda aqui de casa em Piraquara, terra das nascentes do Rio Iguaçu, digo sem medo que nosso Estado não se mede por manchete, mas pela estrada sem buraco, pela escola que melhorou a nota e pela sensação de voltar para casa à noite sem medo. É isso que faz diferença no final das contas.
O paranaense é por natureza um sujeito reservado, de pouca fala e muito trabalho. Não costumamos alardear o que fazemos bem — talvez por isso o resto do país as vezes demore a perceber. Desta vez, porém, permito-me um pouco de orgulho bairrista: o Estado muda de governador, mas não precisa mudar de rumo.
Por ora — e espero que por muito tempo — o Paraná vai muito bem, obrigado!
*Marlon Reguelin é jornalista e teólogo. Articulista no Instituto Liberal e em Oeste. Escreve sobre política, história e cosmovisão.
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