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O simbólico e o diabólico: dois modos de conceber a política

"O diabólico é aquilo que separa e, ao separar, subverte" (D. C. Schindler, Freedom from Reality: The Diabolical Character of Modern Liberty) Estamos num daqueles momentos em que a Política, com P maiúsculo, a arte de ordenar a vida em comum, é engolida pela política, com p minúsculo. Em lugar da ordem coletiva a que todos esses fenômenos deveriam servir, sobram eleições, estratégias, paixõe

"O diabólico é aquilo que separa e, ao separar, subverte" (D. C. Schindler, Freedom from Reality: The Diabolical Character of Modern Liberty)

Estamos num daqueles momentos em que a Política, com P maiúsculo, a arte de ordenar a vida em comum, é engolida pela política, com p minúsculo. Em lugar da ordem coletiva a que todos esses fenômenos deveriam servir, sobram eleições, estratégias, paixões partidárias, disputas por cargos. É natural que seja assim, e que, nesse contexto, todo argumento corra o risco imediato de ser lido como munição eleitoral, e toda categoria filosófica, antes que se perceba, como arma de campanha. E, no entanto, é justamente quando a política partidária absorve inteiramente nosso horizonte que se torna mais urgente — posto que espinhoso — recuperar a pergunta pelos fundamentos.

Num livro recente dedicado à crise da liberdade moderna, o filósofo americano D.C. Schindler recupera uma distinção que nos coloca nesse caminho: a oposição entre a ordem simbólica e a ordem diabólica. Embora apresentada de uma perspectiva católica, o autor não nos oferece uma contraposição meramente religiosa, muito menos uma metáfora moralizante. Trata-se, em vez disso, da formulação de duas maneiras radicalmente distintas de compreender a própria possibilidade da convivência humana.

Toda ordem política digna desse nome é, antes de tudo, simbólica. Não por se sustentar sobre abstrações ou mitologias artificiais, mas porque repousa sobre vínculos que não são produzidos pela vontade nem pelo interesse. Em A Atualidade do Belo, Hans-Georg Gadamer lembra que a palavra “símbolo” remonta à antiga tradição grega da tessera hospitalis: um objeto partido em duas metades, cada qual confiada a um dos membros de uma aliança. Décadas, às vezes gerações depois, o reencontro das duas partes permitia reconhecer a amizade e a hospitalidade seladas muito antes pelos antepassados. Portanto, o símbolo não cria a comunhão; apenas torna visível uma comunhão que o precede.

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Em A Simbólica do Mal, Paul Ricoeur aprofunda essa intuição ao observar que o símbolo jamais é um simples sinal convencional, uma embalagem descartável para um significado que poderia ser comunicado de outro modo. O símbolo participa da realidade que significa. É por isso que, dizia Ricoeur, ele “dá o que pensar”: não apenas aponta para uma verdade, mas a contém e a comunica de maneira insubstituível.

Simbolismo e política

Vale a pena, então, retornar à etimologia. Em grego, symballein significa literalmente “lançar junto”, reunir, fazer convergir aquilo que se encontrava disperso. Daí deriva symbolon, o objeto cujas partes reunidas testemunham uma aliança anterior a qualquer cálculo de conveniência. Seu oposto nasce do mesmo radical verbal. Diaballein significa “lançar através”, separar, dividir, romper aquilo que estava unido. Daí provém diabolos: o divisor, aquele que rompe os vínculos, não pela força das armas, mas pela suspeita, pela intriga, pela calúnia, pela fabricação sistemática da desconfiança.

Essa oposição etimológica encerra uma das intuições mais profundas da filosofia política ocidental. Toda comunidade política autêntica repousa sobre realidades recebidas antes de serem escolhidas. Ninguém negocia a própria família antes de nascer. Ninguém celebra um contrato para pertencer ao bairro onde cresceu, à comunidade religiosa em que foi educado ou à pátria cuja língua aprendeu ainda no colo da mãe. Esses vínculos podem ser posteriormente recusados ou traídos, mas jamais foram originalmente objeto de um cálculo racional de custos e benefícios. Eles constituem o solo sobre o qual toda escolha posterior se torna possível.

É justamente esse solo que a política contemporânea parece empenhada em corroer. Grande parte das elites dirigentes do Ocidente já não governa a partir da representação de um bem comum compartilhado. Governa administrando antagonismos cuidadosamente cultivados. Onde antes havia cidadãos, multiplicam-se identidades concorrentes; onde existia uma nação, surgem arquipélagos de grupos mutuamente ressentidos; onde havia diferenças legítimas de opinião, fabricam-se antagonismos existenciais. Num sentido francamente carl-schmittiano, o adversário político deixa de ser alguém com quem se disputa a condução do bem comum para tornar-se uma ameaça moral cuja mera existência compromete a sobrevivência da comunidade.

Esse processo produz um paradoxo apenas aparente. Quanto mais fragmentada a sociedade, maior a necessidade de uma autoridade central suficientemente poderosa para arbitrar conflitos que ela própria contribuiu para exacerbar. A divisão converte-se, assim, em técnica de governo. A política deixa de buscar a concórdia possível entre cidadãos livres para tornar-se a administração permanente de hostilidades. Goste-se ou não, assim é a política moderna.

Percepções contemporâneas

E talvez resida aí uma das razões da vitalidade do conservadorismo popular representado pelo movimento político conhecido como bolsonarismo — ainda que também explique, por outro lado, sua relativa inadaptação à política de nossos dias. Seus adeptos não são necessariamente mais instruídos, virtuosos ou imunes aos vícios da vida política. Sua diferença específica é o fato de ainda conservarem, muitas vezes intuitivamente, uma memória da ordem simbólica. São eles, afinal, os que continuam reconhecendo a família como realidade anterior ao Estado; a comunidade religiosa como vínculo que ultrapassa a legislação positiva; a vizinhança como espaço de reconhecimento entre pessoas concretas, e não entre categorias sociológicas; a pátria como herança recebida, não como mera construção administrativa.

Essa percepção pode, por vezes, manifestar-se de maneira intelectualmente rudimentar, mas preserva, ainda assim, uma verdade antropológica que boa parte do pensamento político contemporâneo parece incapaz de enxergar: a sociedade não é uma coleção de tribos gerenciadas por uma burocracia iluminada. É um organismo vivo, cujas partes só adquirem sentido em função do todo e cujo todo, por sua vez, existe para permitir o florescimento das partes.

Reproduzir

Quando desaparecem os símbolos que recordam essa unidade anterior, resta apenas a lógica do diaballein: dividir para administrar, fragmentar para governar, dissolver pertencimentos concretos para fortalecer dependências abstratas. A política deixa então de ser a arte da amizade cívica, na expressão de Aristóteles, para transformar-se numa sofisticada engenharia da discórdia.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja simplesmente vencer esta ou aquela eleição. Eleições passam; civilizações permanecem — ou desaparecem. A tarefa mais urgente consiste em restaurar aquilo que torna possível qualquer convivência política duradoura: os símbolos que recordam o fato de que o pertencimento mútuo antecede, e constitui, a própria condição das divergências políticas saudáveis. Porque, quando os símbolos desaparecem, o que sobra já não é uma comunidade em conflito, mas apenas um agregado de indivíduos manipuláveis, cercados pelos destroços dos vínculos que um dia fizeram deles um povo. E é nisso, no final das contas, que consiste a batalha contemporânea de um conservadorismo popular sub-representado institucionalmente contra uma elite revolucionária que — em todos os sentidos que se queira dar, mas sobretudo no que aqui expusemos — pode ser considerada como diabólica.

Leia também: "Eleição para quem precisa", artigo de Guilherme Fiuza publicado na Edição da Revista Oeste

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