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Petrobras diz que encontrou indícios de hidrocarbonetos na Foz do Amazonas

Comunicado não fala em petróleo e/ou gás fóssil no poço Morpho; Magda Chambriard diz que “há descoberta, mas não uma descoberta comercial”.

No início da noite de 6ª feira (14/8), a Petrobras divulgou um comunicado ao mercado informando que identificou a “presença de hidrocarbonetos” no poço exploratório Morpho, que a empresa está perfurando no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas. O informe foi suficiente para gerar manchetes afirmando que a petrolífera “descobriu petróleo” na Foz. E também fez a alegria de políticos do Amapá, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), que, segundo a CNN Brasil, afirmou: “Estávamos certos”.

Mas um olhar mais apurado sobre o comunicado, e falas da própria presidente da Petrobras, Magda Chambriard, geraram mais dúvidas que certezas. Embora o presidente do Instituto de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Roberto Furian, tenha se apressado em declarar que o informe consolidava a Foz como uma “nova fronteira exploratória”, segundo o g1, especialistas ouvidos pelo Valor reiteram que o anúncio é inconclusivo. Afinal, o informe não deixa claro se o material encontrado é petróleo ou gás, ou se há viabilidade comercial.

A própria Magda disse, em fala destacada pela Folha, que a descoberta no Bloco 59 “ainda não é comercial”. Os trabalhos em Morpho continuam – a empresa anunciou no início deste mês que o poço seria concluído entre o fim de agosto e o ínicio de setembro. Por isso o anúncio de sexta-feira surpreendeu. Parece ter sido feito sob medida para fortalecer discursos políticos favoráveis à exploração da Foz do Amazonas às vésperas do início da campanha para as eleições de outubro de 2026.

Magda condicionou o anúncio de comercialidade do Bloco 59 à perfuração de mais três poços. A Petrobras já pediu ao IBAMA a licença para essas novas perfurações, e aguarda a autorização do órgão ambiental. De fato, a perfuração de um único poço não é suficiente para definir se o volume encontrado é ou não comercial. Mas, de novo, surpreende o fato de o comunicado sobre Morpho mencionar apenas “hidrocarbonetos” – cuja presença foi constatada por meio de perfis elétricos e indicativos em rocha, segundo a empresa -, e a partir daí a indústria brasileira de petróleo e políticos locais e nacionais fazerem tanta festa.

A título de comparação, quando a Petrobras anunciou ao mercado a descoberta de Tupi, o primeiro grande campo do pré-sal da Bacia de Santos, em 11 de julho de 2006, a petrolífera informou que encontrou “óleo leve” na área. E se o foco for a Margem Equatorial – região da costa que vai do Rio Grande do Norte ao Amapá -, em 17 de dezembro de 2013 a empresa comunicou a “descoberta de uma acumulação de petróleo” no bloco BM-POT-17, em águas profundas do litoral potiguar, no poço chamado Pitu.

Em entrevista à Globonews, Magda celebrou os resultados para lá de preliminares – e inconclusivos – de Morpho e já fez cálculos sobre a produção na área, apesar de não se saber o que há lá, e em qual quantidade. Segundo a presidente da Petrobras, o Amapá estará produzindo petróleo em quantidade comercial em águas ultraprofundas em seis ou sete anos – ou seja, entre 2032 e 2033.

Não é essa a avaliação do ex-presidente da petrolífera, Jean Paul Prates, feita à CNN Brasil. Mesmo exaltando o anúncio, Prates explica que “hidrocarboneto” pode ser petróleo, gás, petróleo com gás associado ou condensado – óleo leve e líquido que se forma quando os vapores de hidrocarbonetos presentes no gás se liquefazem devido a quedas de temperatura e pressão na superfície. Definir isso será crucial para saber o futuro do Bloco 59.

Se tudo der certo e for confirmada a presença de petróleo e/ou gás em escala comercial, Prates calcula que o primeiro óleo só seria produzido a partir de 2034, se o licenciamento for agilizado. Se não, a produção só se daria entre 2035 e 2038.

Mas, devido à complexidade da Foz do Amazonas – a própria Petrobras apontou problemas com as correntes da região, que dificultaram a perfuração de Morpho e causaram o vazamento de 18 mil litros de fluido de perfuração -, o início da produção pode ser ainda mais distante, diz Prates. Afinal, ele lembra que, com a comercialidade declarada, haverá extração de petróleo, o que exigirá mais cuidados. Com isso, Prates avalia que o primeiro óleo do Bloco 59 somente seria extraído entre 2039 e 2042.

Não custa lembrar que projeções da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam que a demanda por petróleo no mundo atingirá seu pico até 2030. Com a guerra no Oriente Médio jogando por terra a “segurança energética” associada ao combustível fóssil, pode ser que seu consumo atinja o pico antes disso, e caia mais rapidamente do que se avaliava. O que aumenta ainda mais o risco da Foz do Amazonas virar um ativo encalhado para a Petrobras e ser um prejuízo para o país, como mostrou um estudo do WWF-Brasil.

Em tempo: Por causa dos “hidrocarbonetos” no Bloco 59, o presidente Lula irá ao Amapá nesta 2ª feira (17/8), segundo a Folha. A ideia é reforçar o discurso de soberania nacional, com a “descoberta” na Foz do Amazonas. Com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), candidato à reeleição, Lula visitará o navio-sonda NS-42 (ODN-II), da Foresea, que está perfurando o poço Morpho. Ainda de acordo com a Folha, o governo trabalha para que, no mesmo dia da visita, o IBAMA anuncie a autorização para os três poços adicionais – PAD-Morpho, Manga e Crotalus -, que a Petrobras quer perfurar na área.

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Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/08/16/petrobras-diz-que-encontrou-indicios-de-hidrocarbonetos-na-foz-do-amazonas/

Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello

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