Por que militantes jamais conseguirão ser leitores profundos
Se você é um fanático, você nunca conseguirá ser um leitor profundo. Estou cada vez mais convencido disso. Não que não precisemos, e até seja meritório, termos convicções firmes sobre ideias, fé e política. Pessoalmente sempre preferi lidar com pessoas que, ainda que defendam tudo que abomino, sejam claras e resolutas naquilo que creem. Como sempre digo à minha mulher: prefiro lidar com um her
Se você é um fanático, você nunca conseguirá ser um leitor profundo. Estou cada vez mais convencido disso. Não que não precisemos, e até seja meritório, termos convicções firmes sobre ideias, fé e política. Pessoalmente sempre preferi lidar com pessoas que, ainda que defendam tudo que abomino, sejam claras e resolutas naquilo que creem.
Como sempre digo à minha mulher: prefiro lidar com um herege convicto do que com um relativista confuso. Com o primeiro consigo rechaçá-lo, amá-lo e até trocar socos; com o segundo, porém, não sei se há sequer como travar uma conversa amistosa sobre o tempo e sua preferência de café.
Mas quando falamos de literatura, ostentar um estandarte prévio de convicções irremovíveis apenas atrapalha a experiência fundamental da leitura. Quando pegamos um bom livro, pouco importa ‒ em um primeiro instante ‒ se o autor é esquerdista ou direitista, se é um cristão fervoroso ou um agnóstico purinho. Em um primeiro momento, a ação mais inteligente de um leitor é consumir a história pela história. E isso, acredito, vale também para o cinema. Quão chato deve ser assistir à trilogia do Senhor dos Anéis ao lado de um especialista que vê na bainha do vestido de Galadriel um erro fulcral que, segundo ele, invalida qualquer outra virtude da película.
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A literatura é, por essência, humana. Só os homens produzem literatura em toda sua extensão e profundidade. É bem verdade que agora temos o advento de livros escritos por inteligência artificial. Ainda assim, esse fenômeno apenas evidencia que a literatura, em sua plenitude, pertence aos humanos. Um livro gerado pelo ChatGPT, ainda que seja tecnicamente impecável, com uma escrita calculadíssima para cada nuance psicológica do leitor médio, jamais alcançará o nível de ambiguidade e complexidade que um humano poderia dar a ele.
A IA jamais vai entender o que é realmente um adultério, por exemplo. Ela pode catalogar tudo que já foi dito sobre isso, desde desabafos de blogs adolescentes dos anos 2000 até estudos clínicos seríssimos de psicólogos renomados sobre o tema. Porém, ela jamais conseguirá emular a construção psicológica que determinado autor, com suas idiossincrasias e defeitos, com seus valores ocidentais ou orientais, misturados às vivências únicas de sua biografia, conseguiria construir numa narrativa sobre o tema.
Isso porque o humano é naturalmente ambíguo, e em tudo que ele faz, com graus maiores ou menores, ele transfere essa sua ambiguidade. Quando Liev Tolstói escreveu Anna Kariênina e escolheu como núcleo narrativo o tema do casamento e da traição, somente ele poderia escrever aquela história daquela forma, pois somente ele tinha aquela configuração de princípios, aquela técnica de construção de personagens, aqueles rascunhos biográficos e percepções da realidade, somente ele tinha aqueles específicos defeitos morais, vícios de escrita e compulsão de criação psicológica. E foi dessa feijoada de capacidades meritórias e deficiências únicas que saiu um dos romances conjugais mais profundos e bem construídos da humanidade.
Todavia, para perceber isso, o leitor tem que estar disposto. Disposto, primeiro, a enfrentar cerca de 830 páginas de descrições e aprofundamentos psicológicos, disposto a abster-se por um momento de preconceitos e convicções, disposto a deixar de buscar em cada vão do texto uma confirmação de sua ideologia ou prova inconteste do reacionarismo ou progressismo do autor. Mas como fazer isso se o militante, por definição, só tem suas certezas e seus manuais para conseguir viver?
Um militante, um cego ideológico, caminha na terra buscando em cada canto possível encontrar detalhes, experiências e argumentos para corroborar suas verdades pré-definidas. E, assim, quando encontra um bom livro, tende, antes mesmo de submergir na trama, a encontrar nos personagens e suas falas, na construção do ambiente pelo narrador e na escolha de cada palavra pelo autor, uma justificação de seus dogmas ou um motivo de crítica pelos desvios do escritor.
Obviamente que aqui não estou falando dos semideuses, os “críticos literários”, que, por profissão, têm que ler e reler para desvendar nuances, técnicas boas ou tortas, de uma obra. É verdade, no entanto, que com o advento das redes sociais todos se tornaram críticos de tudo. Infelizmente, com a literatura não é diferente. Assim, quando falo de “militante-leitor” ‒ ou como passei a chamar entre amigos, “milileitor” ‒ me dirijo ao militante comum que, assim como um vendedor ambulante que em todo lugar que pisa precisa anunciar aquilo que está vendendo, sem pudor algum tal milileitor oferece-nos suas verdades inquestionáveis e suas certezas sobre a superioridade de seu produto interpretativo.
Quando o milileitor pega um clássico, uma obra literária que preza primeiro pela arte e não pela cartilha, ou quando escolhe autores que entrelaçam arte e mensagem sem hierarquizar uma sobre a outra, ele se perde nas vielas dos próprios preconceitos em vez de se deixar transferir para o mundo que o escritor lhe apresenta. E é assim que nascem os incrivelmente chatos militantes que só leem O Cortiço pois falaram para eles que o autor fez uma crítica sociológica à desigualdade social; ou aqueles que somente leem Anna Kariênina porque uma professora de cabelo azul disse que Tolstói escreveu aquilo para escudar o feminismo e bater no patriarcado; ou, ainda, aqueles que leem Senhor dos Anéis e O Silêncio pois um padre ou influencer católico lhes disseram que Tolkien e Shusaku Endo, na verdade, não fizeram romances, mas sim obras de apologia católica.
Ah sim, é preciso dizer também que não estou defendendo a neutralidade de intenção de determinados autores extraordinários, por exemplo, Dostoiévski. Gênio absoluto da literatura mundial, o russo sempre deixou claro que seus romances buscavam uma finalidade moral específica. A diferença é que ele entrelaçava, em sua genialidade, a mensagem e a arte; ele conseguia mostrar a ambiguidade e as contradições humanas junto a uma defesa decidida de um ponto de vista. E o que o fazia ser esse colosso era justamente entregar, sem ser panfletário, uma mensagem geral de sua obra sem deixá-la caricata, sem reduzir seus personagens a figuras sem complexidade nem privar suas tramas de veracidade. Podemos ler perfeitamente um romance seu sem notar sua defesa moral, pois, em última instância, a obra se torna um mundo em si, sem precisar de prévia.
Mas, por fim, tais milileitores jamais saberão o que é andar com Frodo rumo a Mordor lutando contra a tentação do anel; jamais chorarão imersos nos sofrimentos dos padres jesuítas que Endo criou; nunca entenderão de fato a angústia psicológica de Anna Kariênina após o adultério e nem poderão se apaixonar levianamente por Rita Baiana e sua cintura alucinante. Afinal, antes mesmo de conseguirem conhecer tais personagens, os milileitores estarão com seus celulares do lado do livro, fazendo textões lacradores para as redes sociais sobre a crueldade do machismo do século XIX, sobre a primazia da crítica feminista em Rita Baiana, ou falando nos storys como Galadriel é, na verdade, Nossa Senhora e Frodo, Jesus Cristo.
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