Porque Lula – ele mesmo! – deveria ser de direita
Por Marlon Reguelin* Se há um tema controverso na sociedade do século 21, esse é o capitalismo. Há quem ame, há quem odeie; o que não há é quem viva sem. Oras, não fosse o capitalismo, você, caro leitor, provavelmente não estaria lendo esse artigo na tela de seu smartphone ou computador. Sendo Oeste um veículo heterogêneo e de projeção nacional/internacional como é, não é nenhum exagero afi
Por Marlon Reguelin*
Se há um tema controverso na sociedade do século 21, esse é o capitalismo. Há quem ame, há quem odeie; o que não há é quem viva sem. Oras, não fosse o capitalismo, você, caro leitor, provavelmente não estaria lendo esse artigo na tela de seu smartphone ou computador.
Sendo Oeste um veículo heterogêneo e de projeção nacional/internacional como é, não é nenhum exagero afirmar que há tanto leitores apertados nos vagões de ônibus e metrôs, assim como outros bem acomodados em salas VIPs e classes executivas de voos internacionais. Que outro sistema atual permite esse tipo de abrangência? Churchill dizia que o capitalismo distribui a riqueza de forma desigual, enquanto seu antagonista, o socialismo, põe todos em pé de miserável igualdade.
Olhando para o nosso quintal, um país onde o livre mercado é tão combatido, você talvez tenha soltado uma boa gargalhada ao ler o título desse artigo. Pois insisto. Não há maior garoto-propaganda do capitalismo brasileiro do que Lula.
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Não um banqueiro, não um "Faria Limer", não um bilionário dono de montadora, não um barão do mercado financeiro… mas um retirante nordestino, torneiro mecânico radicado em São Bernardo do Campo e que passou 40 anos xingando o sistema que o construiu.
Luiz Inácio Lula da Silva (o mais improvável dentre os mais improváveis) talvez seja um dos maiores exemplos de como os valores de uma nação livre podem produzir ascensão individual. O paradoxo seria cômico se não fosse trágico: Lula passou a vida combatendo, e em boa parte dos mandatos tolhendo, justamente os valores que tornaram a sua própria ascensão possível. Valores que a esquerda, em sua enciclopédia de ofensas, resolveu chamar de "de direita".
Fizeram dele o bastião da luta contra o capitalismo. A biografia, porém, conta uma história muito diferente.
O retirante nordestino que vira operário, líder sindical, candidato e, enfim, presidente da República não refuta o mundo livre. Demonstra a sua eficácia, ainda que involuntariamente, sejamos francos.
E se Lula fosse cubano?
Pensemos friamente: se Lula tivesse crescido na Cuba de Fidel Castro, dificilmente teria virado líder sindical independente. Primeiro pelo óbvio: não há muitas metalúrgicas nem grandes montadoras nas cercanias de Havana (nem comida tem direito!). Mas sobretudo porque, nos regimes socialistas reais, sindicato não pertence ao trabalhador; pertence ao Estado. Na União Soviética, um "Lula" teria sido absorvido pela máquina do partido ou neutralizado por ela. Na Venezuela chavista, na melhor das hipóteses viraria agitador domesticado pelos bolivarianos.
Mas Lula nasceu no Brasil industrializante do século 20: caótico, desigual, imperfeito, mas aberto o bastante para que um torneiro mecânico enfrentasse patrões, mobilizasse trabalhadores, fundasse um partido e chegasse ao Planalto pelo voto. Registro, por honestidade, que o caminho não foi apenas de rosas. A ditadura militar o prendeu em meados de 1980, condenando-o a três anos e meio de prisão (processo que acabou prescrevendo). Repare no detalhe: quem prende sindicalista é o Estado todo-poderoso, de farda ou de foice. Quem lhe dá fábrica, salário e palanque é o capital. E quem o elegeu, anos depois, foi a democracia que reabriu o país.
Isso não é teoria marxista. É a economia de mercado e a liberdade política funcionando, para o bem ou para o mal.
Foi o capitalismo industrial paulista, tão demonizado pela esquerda universitária, que criou o ambiente capaz de produzir o fenômeno Lula. Sem os milhares de empregos de Volkswagen, Ford, Mercedes-Benz, Scania e de todo o parque do ABC, ele seria só mais um anônimo entre milhões de brasileiros pobres do século passado.
O próprio "novo sindicalismo" da época nasceu não da escassez socialista, mas da prosperidade industrial: um capitalismo que formou uma classe operária organizada, alfabetizada e estável o bastante para financiar o sindicalismo que, vejam só, passaria a atacá-lo. Ludwig von Mises já avisava, em Ação Humana, que o capitalismo produz riqueza também para os seus adversários. O lulismo é uma das maiores provas brasileiras disso.
Há ainda outra contradição que poucos notam. A vida de Lula é uma afronta ao determinismo marxista, segundo o qual o indivíduo nasce, vive e morre preso às estruturas da sua classe. Lula rompeu quase todas: filho de retirantes pobres. Sem diploma universitário. Operário metalúrgico. Acidentado em fábrica. Liderança nacional. Presidente da República. Três vezes.
Não parece a história de alguém esmagado pelas "estruturas opressoras" do capitalismo, mas um case de mobilidade social numa sociedade relativamente aberta. Mas a prova mais forte de que Lula compreende (ainda que por instinto) a força do mercado está justamente nos momentos em que governou com menos ideologia.
Aliado do Partido Liberal
Em junho de 2002, ele assinou a Carta ao Povo Brasileiro, que foi praticamente uma confissão econômica. Está lá: "Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país." Mais: "Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário". E ainda: "Ninguém precisa me ensinar a importância do controle da inflação". Não é texto de militante abilolado de esquerda. É texto de quem sabia que, para ganhar, precisava parecer, pelo menos nos aspecto econômico, de direita.
E o resto da fantasia combinou com o roteiro. O vice da chapa era José Alencar, empresário têxtil da Coteminas, filiado naquele ano ao Partido Liberal, defensor de impostos menores e de abertura de mercado, de quem analistas diziam que ajudou a quebrar o estigma contra Lula.
Sim, leitor: Partido Liberal. O mesmo nome da sigla que hoje abriga a direita que Lula diz combater. Para o Banco Central, foi buscado Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do BankBoston, eleito deputado naquele ano pelo PSDB, que ficou no cargo durante os dois mandatos. Banqueiro internacional, tucano e vindo de Goiás: se isso não é um "Lula de direita", eu não sei mais o que é. O primeiro ano de governo fechou com superavit primário de 4.32% do Produto Interno Bruto, número de dar inveja a muito economista liberal.
E funcionou. A realidade, essa velha senhora brutalmente antipática às utopias esquerdistas, obrigou Lula a governar mais perto de Adam Smith do que de Karl Marx. Já o lulopetismo ideológico (intervencionista, estatizante, seduzido por fantasias bolivarianas) produziria, anos depois, uma devastação econômica e institucional de cujos efeitos o país ainda tenta se curar.
Nem o patrimônio escapa à ironia. Segundo a declaração entregue ao Tribunal Superior Eleitoral neste ano, o candidato de R$ 4,78 milhões guarda cerca de 69% de tudo o que tem em dois planos de previdência privada. Isto é: dois terços da fortuna do eterno crítico do mercado financeiro estão aplicados, com toda a prudência, no mercado financeiro. A mão invisível não faz o "L".
Resta a camada mais funda: a moral
O Lula real foi moldado por um Brasil profundamente conservador. Família, trabalho duro, religiosidade popular, disciplina em comunidade, ética do esforço, desprezo pela bandidagem, masculinidade bruta, progresso pelo próprio mérito: tudo isso está na sua formação. Em muitos aspectos, o jovem Lula do ABC teria bem mais afinidade antropológica com o trabalhador conservador médio do que com o "progressista" identitário de DCE que hoje dá o tom em muitos discursos da atual esquerda.
Para Russell Kirk, um dos grandes pensadores do conservadorismo, a ordem social nasce das pequenas virtudes preservadas por famílias, comunidades e tradições da vida ordinária. Lula nasceu exatamente nesse universo: o das mães sacrificadas, dos trabalhadores exaustos, das marmitas de alumínio, da fé simples e da virtude construída no cotidiano. Em português claro, no mundo que a esquerda de hoje chama de retrógrado e fascista.
A tragédia intelectual do lulismo está aí. Lula passou décadas denunciando o mesmo sistema que lhe deu voz, palco, influência, liberdade e poder (pouparei o leitor, para cooperar com a sua sanidade, de relembrar os incontáveis escândalos de corrupção associados ao sujeito). Sua história não é a prova do fracasso da democracia liberal brasileira. É propaganda involuntária.
O sistema capitalista é imperfeito? Certamente! Injusto em muitos pontos? Sem dúvida! Mas foi aberto o bastante para um retirante nordestino chegar ao topo da República sem disparar um tiro, sem liderar uma revolução armada e sem destruir as instituições no caminho (os absurdos do atual mandato são outros quinhentos).
Se por exercício a direita brasileira precisar de uma prova viva de que a liberdade funciona, nem precisará de gráficos, teses ou obras de Milton Friedman. Basta apontar para Lula. O problema é que ele, mais do que ninguém, se recusa a confirmar o óbvio.
O socialismo utópico prometeu criar milhões de Lulas. O Brasil capitalista, com seus vícios e virtudes, permitiu um. E isso já mudou a história do país.
Versão revista e atualizada de artigo publicado originalmente no Instituto Liberal.
*Marlon Reguelin é jornalista e teólogo. Articulista no Instituto Liberal e em Oeste. Escreve sobre política, história e cosmovisão.
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