Questões geopolíticas provocam crise na seleção italiana
Em um único dia, a seleção italiana passou de uma solução de consenso a uma crise, com a saída de Maldini e Leonardo de seus cargos na federação, após o presidente da entidade vetar a contratação de Andrea Pirlo como técnico, devido à sua relação comercial com uma casa de apostas russa.
Em um único dia, o que era para ser uma solução de consenso na seleção italiana se tornou uma crise influenciada, a princípio, por questões geopolíticas. O efeito dominó fez Maldini e Leonardo deixarem, nesta segunda-feira, 27, seus cargos de diretor e de consultor da Federação Italiana de Futebol (FIGC). Isto porque o presidente da entidade, Giovanni Malagò, vetou a já acertada contratação de Andrea Pirlo, 47 anos, para a função de técnico.
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Pirlo nem chegou a assumir, em tese, por conta de sua relação comercial com a casa de apostas russa, Fonbet, da qual ele é garoto-propaganda. Pirlo era embaixador global da marca, segundo o jornal L'Équipe. A ligação com a empresa ocorreu porque Pirlo é treinador do United FC, dos Emirados Árabes Unidos. O proprietário da equipe é também o dono da Fonbet. Trata-se do russo Sergey Lomakin.
Neste momento, para o governo italiano e parte da classe política do país, atuar em prol de uma empresa russa significa, indiretamente, contribuir para a arrecadação de um Estado considerado hostil aos interesses da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Desde que a Rússia deu início à guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022, como membro da UE, a Itália passou a aplicar as sanções que o bloco decidiu impor ao governo de Vladimir Putin. Entre elas estão restrições financeiras, energéticas, comerciais, tecnológicas e sanções individuais contra autoridades e empresários russos.
Como integrante da Otan, o governo italiano classificou a Rússia como uma ameaça direta à segurança dos países da aliança. A Otan passou a ampliar a defesa dos seus membros no flanco oriental, com mais tropas, exercícios militares e infraestrutura em nações como Polônia, Romênia e Estados bálticos.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores da Itália já declarou que o país condena nos termos mais fortes o que considera uma agressão desencadeada em 24 de fevereiro de 2022 pela Federação Russa contra a Ucrânia, "que representa uma violação flagrante dos princípios fundamentais do direito internacional e do direito internacional humanitário".
"Mantemos forte pressão sobre a Federação Russa — especialmente por meio da implementação das sanções adotadas pela União Europeia — com o objetivo específico de enfraquecer a máquina de guerra russa e levá-la a encerrar sua agressão e a se envolver em negociações de paz sérias e confiáveis."
Neste sentido, o temor do presidente da federação foi o de que estaria contratando, para o cargo mais importante do esporte nacional, alguém que, indiretamente, pode ter contribuído para a arrecadação do Estado russo por meio da atividade econômica da empresa da qual era garoto-propaganda.
O jornal econômico russo RBC destacou, em abril de 2025, que a pessoa jurídica ligada à Fonbet teve receita de 608,8 bilhões de rublos (cerca de US$ 7,6 milhões) em 2024. Deste total, cerca de 468 bilhões de rublos (cerca de US$ 5,85 milhões) foram pagamentos de prêmios, e a empresa teve lucro líquido de 37,4 bilhões de rublos (cerca de US$ 467 mil). O RBC, baseado em regras do mercado russo, informa que os pagamentos direcionados ao esporte feitos pelas casas de apostas russas aumentaram em 2024, incluindo valores atribuídos ao setor.
Em comunicado, Pirlo realçou que seu sentimento em relação à Itália é de amor e garantiu sua idoneidade durante sua carreira de jogador e de técnico. "Sempre exerci minha profissão em total respeito às leis dos países onde trabalhei e aos contratos que assinei."
O vínculo com a empresa de apostas, segundo ele, não infringia a legislação. "A parceria profissional que foi alvo das recentes polêmicas surgiu no contexto da minha trajetória de trabalho nos Emirados Árabes Unidos e tem natureza exclusivamente comercial e esportiva."
O treinador, que conquistou a Copa do Mundo de 2006 pela Itália, acrescentou: "Atribuir a essa colaboração um significado político significa atribuir a mim convicções que jamais expressei e que não me representam."
Itália e Rússia na guerra e no comércio
A relação conturbada entre Itália e Rússia reflete um histórico de idas e vindas, que deixa clara a forte ligação, para o bem e para o mal, entre as duas nações. Durante o Renascimento, o intercâmbio cultural foi intenso. Música, artes plásticas e arquitetura foram os setores de maior integração.
O príncipe Ivan III, conhecido como o Grande (1462 a 1505), convidou vários arquitetos italianos para a construção de prédios, palácios e monumentos em um estilo renascentista que se integrasse à tradição da arquitetura russa.
Depois da unificação italiana, que contou com a oposição russa, ambos os países voltaram a se entender ao celebrarem, em 1909, o acordo secreto conhecido como Pacto de Racconigi, formalizado em 24 de outubro de 1909, no Castelo de Racconigi, Itália.
Neste entendimento, haveria o reconhecimento, por parte da Itália, dos interesses russos nos Estreitos Turcos. Já a Rússia reconheceu os interesses italianos em Trípoli e Cirenaica. Foi um pacto diplomático importante para ambos. Serviu como um facilitador na preparação da Itália para a Guerra Ítalo-Turca em 1911.
Três anos depois, os dois países voltaram a ficar em lados opostos. Embora integrasse a Tríplice Aliança com Alemanha e Império Austro-Húngaro, a Itália permaneceu neutra no início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1915, mudou de lado e passou a integrar a Tríplice Entente, lutando ao lado de Inglaterra, França e Rússia até a saída dos russos do conflito, em 1917, com a Revolução Russa.
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Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Itália lutou contra a União Soviética, da qual fazia parte a Rússia. Com o fim da União Soviética e da Guerra Fria, as relações se fortaleceram e, até 2022, os laços comerciais eram estreitos entre os dois países.
A Itália se tornou o segundo parceiro comercial mais importante da Rússia na UE, depois da Alemanha. A empresa estatal italiana de energia, a ENI, tem um grande contrato de longo prazo com a russa Gazprom para importar gás russo para a Itália. Mas os interesses do bloco europeu prevaleceram depois da invasão da Ucrânia e distanciaram os dois países.
Em julho, o Comitê Olímpico Internacional até suspendeu provisoriamente a sanção ao Comitê Olímpico Russo e deixou de recomendar às federações internacionais que mantivessem as restrições. No futebol, porém, a Rússia continua banida de competições internacionais.
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