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Reconstrução diplomática

A ideia de que as relações internacionais pertencem exclusivamente à burocracia de Brasília está superada. No século 21, a fronteira entre as decisões domésticas e as disputas globais desapareceu: a capacidade de gerar empregos, atrair capital e proteger a produção nacional é determinada pelo posicionamento geopolítico do país. Desde o preço dos fertilizantes até os investimentos em infraestrutu

A ideia de que as relações internacionais pertencem exclusivamente à burocracia de Brasília está superada. No século 21, a fronteira entre as decisões domésticas e as disputas globais desapareceu: a capacidade de gerar empregos, atrair capital e proteger a produção nacional é determinada pelo posicionamento geopolítico do país. Desde o preço dos fertilizantes até os investimentos em infraestrutura, o cotidiano do cidadão depende da política externa. Em um mundo moldado pela rivalidade entre potências, o amadorismo ideológico e a instabilidade reputacional cobram um preço alto. Para reestruturar a inserção internacional do Brasil, é imperativo substituir o voluntarismo por um pragmatismo liberal, firme e voltado para o interesse nacional.

Essa inflexão exige a recomposição dos laços de confiança com as democracias liberais do Ocidente — Estados Unidos, União Europeia e parceiros do Indo-Pacífico — e a garantia da segurança jurídica indispensável à atração de investimentos e à cooperação estratégica. Em relação aos regimes autoritários, o país deve adotar uma postura madura: preservar os canais com grandes mercados compradores sem conceder chancela política a modelos autocráticos. No âmbito regional, cabe ao Brasil liderar a modernização do Mercosul e flexibilizar o bloco para permitir que seus integrantes firmem acordos bilaterais em ritmos distintos.

A conversão da diplomacia em crescimento concreto passa pela conclusão do processo de adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), selo de maturidade regulatória e compromisso com o livre mercado. Além disso, o país precisa se posicionar como fornecedor indispensável para as transições energética e tecnológica. Com reservas valiosas de minerais críticos — como lítio, níquel e terras raras — e uma matriz elétrica limpa, o Brasil deve usar esses ativos como instrumentos de negociação estratégica. O acesso aos recursos deve ser condicionado à instalação de plantas industriais e à transferência de tecnologia, para que o país supere a condição de mero exportador de matérias-primas. Da mesma forma, a dimensão do agronegócio brasileiro deve ser convertida em poder geopolítico para assegurar o fornecimento de insumos.

Lula e o assessor especial Celso Amorim: escolhas erradas reforçam a irrelevância do Brasil no âmbito da diplomacia | Foto: Marcello Camargo/Agência Brasil

No cenário global, o Brasil deve ter voz ativa, defender a soberania nacional e rejeitar restrições indevidas à agricultura e à indústria brasileiras. Para sustentar esse protagonismo, é essencial firmar parcerias tecnológicas com nações democráticas, como Japão e Taiwan, com prioridade para a cooperação em inteligência artificial e semicondutores. A integração às cadeias globais de inovação fortalece a soberania digital, estimula a indústria de alta complexidade e contribui para a viabilização dos corredores bioceânicos. Com isso, o Brasil pode se consolidar como o principal centro tecnológico e logístico da América do Sul.

A reconstrução da diplomacia brasileira não é uma abstração teórica, mas um compromisso direto com o desenvolvimento e o bem-estar da população. Ao abandonar os equívocos do passado e adotar uma visão orientada pelo livre mercado, pela segurança jurídica, pelo respeito às democracias e pelo crescimento produtivo, o Brasil deixa de ser espectador para se tornar arquiteto do próprio destino. Uma diplomacia moderna, firme e pragmática transformará a atuação internacional do país em um poderoso motor de prosperidade, soberania e orgulho nacional.

Leia também: "Anão diplomático", reportagem publicada na Edição 166 da Revista Oeste


Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em ação política pela Universidade Rei Juan Carlos, foi diretor da ApexBrasil e do Senado

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