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Relatório aponta potencial do Brasil em transformar crise climática em oportunidade econômica

Um estudo do Centro de Economia do Clima (CETEx) da London School of Economics, realizado com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS), indica que o país pode liderar a agenda de desenvolvimento verde.

Enquanto Estados Unidos, Europa e China precisam investir trilhões de dólares para reduzir suas emissões e construir novas cadeias industriais, o Brasil já dispõe de alguns dos principais ativos disputados pela economia do século 21: energia limpa, terras agricultáveis, biodiversidade, minerais críticos e capacidade de produzir combustíveis renováveis. A questão não é se esses ativos têm valor. A questão é se o país conseguirá transformá-los em indústria, inovação e empregos de qualidade. 

Estes argumentos são apresentados em um relatório do Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), da London School of Economics, elaborado com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). O estudo propõe uma virada de chave: parar de tratar a resposta à crise climática como um custo, uma lista de sacrifícios, e passar a enxergá-la como aquilo que realmente é, uma estratégia de desenvolvimento econômico, uma chance de atrair investimento, criar empregos de qualidade, fortalecer a indústria e fazer o país crescer. E poucos países do mundo estão tão bem posicionados para aproveitar essa oportunidade quanto o Brasil.

O momento ajuda a entender o porquê. A economia global está sendo redesenhada por duas forças simultâneas. De um lado, as tensões entre as grandes potências estão reorganizando onde as coisas são produzidas e tornando mais valioso o que o Brasil tem de sobra: energia renovável, minerais estratégicos, terra fértil, água e biodiversidade. De outro, a transição para uma economia de baixo carbono deixou de ser pauta ambiental e virou a maior corrida de investimentos do século. Quem chegar primeiro leva as fábricas, as tecnologias e os empregos.

O Brasil larga na frente. Cerca de 90% da nossa eletricidade já vem de fontes renováveis, um feito que os Estados Unidos, a China e a Alemanha levarão décadas para alcançar. Somos referência mundial em biocombustíveis e temos enorme potencial em hidrogênio verde e minerais críticos.

Mas o relatório traz um alerta que o Brasil conhece bem de sua própria história: ter riqueza natural não garante ficar rico. Já fomos o país do pau-brasil, do açúcar, do ouro, do café… e, em todos esses ciclos, a maior parte do valor foi capturada por quem industrializava lá fora o que extraíamos aqui. O risco de repetir esse enredo é real: exportar sol, vento e minério baratos enquanto outros vendem, bem mais caro, os produtos feitos com eles.

Industrialização verde, um passo fundamental

Para escrever um final diferente, o estudo propõe uma estratégia baseada em três movimentos.

O primeiro deles é transformar o que a natureza nos deu em indústria. Não basta ter os recursos. É preciso usá-los para fabricar aqui os produtos que o mundo vai disputar: aço limpo, combustível sustentável para aviões, hidrogênio verde, fertilizantes. As diferentes tecnologias para produzir aço verde que estão sendo adotadas ou desenvolvidas no Brasil mostram o caminho: aproveitar uma vantagem natural e transformá-la em um produto industrial que ninguém mais consegue oferecer nas mesmas condições. E o timing pode ser perfeito: a Europa começou a taxar, na fronteira, produtos produzidos com alto nível de emissões de carbono, o que torna o aço sujo mais caro e o aço verde brasileiro mais competitivo.

O segundo é trazer o mundo para dentro. O investimento estrangeiro não deve ser só dinheiro entrando: deve trazer junto tecnologia, conhecimento e acesso a mercados. É o que está acontecendo no Porto do Pecém, no Ceará, que se tornou sócio do Porto de Roterdã, o maior da Europa, para transformar o sol e o vento do Nordeste em hidrogênio verde. Empresas de vários países já anunciaram bilhões de reais em investimentos nessa área. O relatório aponta que essa lógica vai se intensificar. Cada vez mais as fábricas do mundo vão se mudar para onde a energia limpa e barata está, e o Brasil pode ser um dos grandes destinos dessa migração.

O terceiro movimento é o governo fazer sua parte, com foco. Não se trata de subsidiar tudo, mas de escolher os setores em que o Brasil pode vencer e destravá-los, dando previsibilidade às regras, oferecendo financiamento de longo prazo e coordenando a infraestrutura, a formação de trabalhadores e a política comercial. Foi essa combinação – mercado considerável, incentivos certos e energia renovável – que convenceu a BYD, a maior fabricante de carros elétricos do mundo, a se instalar em Camaçari, na Bahia, no antigo complexo da Ford. Onde havia o símbolo da nossa desindustrialização, começa a nascer um polo da economia que vem.

Esses  três pontos mostram que isso não é teoria. É algo que já começou,mas que só ganhará escala com estratégia, coordenação, vontade política e ambição.

A conclusão do relatório merece ser reiterada: proteger o clima e crescer economicamente não são agendas rivais, mas a mesma agenda. A crise climática vai reorganizar a economia mundial de qualquer jeito. A escolha do Brasil não é se quer participar dessa transformação, mas em que posição: como fornecedor de matéria-prima barata, mais uma vez, ou como protagonista industrial de uma nova era. Pela primeira vez em muito tempo, o final dessa história depende de nós.

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Este conteúdo é originalmente de climainfo.org. Para a reportagem completa, acesse:
https://climainfo.org.br/2026/07/22/brasil-pode-transformar-crise-climatica-na-sua-maior-oportunidade-economica/

Fonte: climainfo.org · Por Célia Mello

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