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Tarifaço: o que eu faço?

A Seção 301 foi aplicada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), órgão criado em 1962, durante o governo de John F. Kennedy. Sua principal função é defender os interesses norte-americanos, concentrando-se especialmente em negociações internacionais, barreiras comerciais e na aplicação da política comercial externa — incluindo o popular tarifaço. Em 18 de julho d

A Seção 301 foi aplicada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), órgão criado em 1962, durante o governo de John F. Kennedy. Sua principal função é defender os interesses norte-americanos, concentrando-se especialmente em negociações internacionais, barreiras comerciais e na aplicação da política comercial externa — incluindo o popular tarifaço.

Em 18 de julho de 2025, o USTR abriu formalmente uma investigação. Em 1º de junho deste ano, concluiu que determinadas políticas e práticas brasileiras eram “irrazoáveis ou discriminatórias” e prejudicavam ou restringiam o comércio norte-americano. Em 15 de julho, determinou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil, com início previsto para o dia 22 deste mês, mas com produtos e situações excepcionados.

Em linhas gerais, produtos primários, como carne e suco de laranja, e matérias-primas, como a madeira, não entraram na lista das taxas. Entretanto, até mesmo alguns produtos altamente industrializados, como fármacos e aeronaves, ficaram de fora. Concomitantemente, bens industriais, calçados, móveis e etanol sofreram a incidência de uma tarifa adicional de 25%.

+ Entenda como funciona a economia brasileira no guia de Oeste

Então, qual foi a lógica utilizada? Basicamente, punir um parceiro considerado desleal o máximo possível, sem prejudicar o mercado dos EUA. Em outras palavras, foram taxados os produtos que possuem substitutos internacionais, enquanto aqueles cuja oferta não poderia ser facilmente substituída por outro país ficaram fora do tarifaço.

Antes de ouvir pessoas dizendo que os Estados Unidos sofrerão ou que o cidadão norte-americano será prejudicado, relembre a lógica: apenas bens que podem ser substituídos foram taxados. Por exemplo, o suco de laranja ficou de fora da tarifa adicional. O Brasil é o maior exportador mundial do produto, com 973 mil toneladas, equivalentes a 76% das exportações globais, e os EUA são o maior importador, com 390 mil toneladas.

Setores alvos do tarifaço

Em setores como móveis e calçados, a situação é diferente. Os Estados Unidos são o maior importador, com US$ 60,7 bilhões em móveis e US$ 27,7 bilhões em calçados. O Brasil ocupa a 26ª posição entre os exportadores de móveis, com US$ 641 milhões, sendo US$ 242 milhões destinados aos EUA. Nos calçados, ocupa a 22ª posição, com US$ 1 bilhão exportado, dos quais US$ 216,3 milhões foram para o mercado americano. Os dois setores receberam um adicional de 25%.

Vamos unir os pontos: as exportações de suco de laranja representam 350 mil toneladas, ou 89% de tudo o que os Estados Unidos importam. Nos móveis, representamos apenas 0,4% das importações americanas, apesar de os EUA absorverem 37% do que exportamos. Nos calçados, nossas vendas representam 0,7% do que eles importam. Em outras palavras, somos substituíveis em móveis e calçados, mas somos importantes no suco de laranja. Por esse motivo, temos sobretaxas nos dois primeiros setores e não no último. Ponto final.

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O cenário se repete em outros setores. Por esse motivo, há tarifas sobre máquinas, mas não sobre a aviação, e assim segue o baile. Aqui vem a indagação deste artigo: o que devemos fazer? Depende da posição que você ocupa em nossa sociedade. Caso seja industrial e tenha sido prejudicado, pergunte à Fiesp ou à instituição do seu Estado por que apoiou ou ainda apoia um governo que não o representa. Caso seja trabalhador de um dos setores mais atingidos, vale refletir sobre qual ideologia política apoiará na próxima eleição. Mas, se você tem participação nas três maiores exportadoras de suco do país, pode comemorar.

Por esse motivo, vale relembrar a frase de Adam Smith, de 1776: “Ao buscar seu próprio interesse, o indivíduo frequentemente promove o interesse da sociedade de maneira mais eficaz do que quando realmente pretende promovê-lo.” Em outras palavras, o tarifaço terá consequências diferentes em distintos setores da sociedade. Esse fenômeno é justo e compreensível. O incompreensível é ter um governo que aposta suas fichas no antagonismo com os Estados Unidos, sob um discurso de “soberania”, sem compreender o cenário global.

Vamos terminar, com a minha maior preocupação, a capacidade do povo brasileiro de compreender os fatos, e nada melhor do que Nelson Rodrigues para refletirmos sobre os números: “O brasileiro não é burro; apenas tem uma confiança extraordinária nas próprias conclusões erradas.” Assim, antes de concordar com o discurso sobre o poder brasileiro ou sobre as dificuldades norte-americanas, observe os números: eles são autoexplicativos.

Leia também: "O desprezo de Lula pelos brasileiros", artigo de Adalberto Piotto publicado na Edição 331 da Revista Oeste

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